Curioso mundo bilíngue
Escrever sobre Amelie era inevitável. "Sua natureza me parece muito curiosa", reflete a autora Nara Vidal, sobre o divertido universo da filha de 3 anos. "Ela não é uma menina típica que se encanta somente com princesas e bonecas. Ela brinca de piratas, construiu um foguete, tem um mundo muito colorido e abrangente." Filha de mãe brasileira e pai inglês, Amelie foi a principal inspiração da série infantil bilíngue "O curioso mundo de Amelie" (Editora Faces), que será lançada na cidade amanhã pela mineira de Guarani, radicada na Inglaterra há 11 anos. "Amelie mistura duas línguas. Às vezes, começa a frase em inglês e termina em português. A partir dessa observação, comecei a registrar coisas interessantes do processo bilíngue pelo qual ela passa", explica.
O mundo colorido e imprevisível de Amelie, contudo, não foi a única fonte de inspiração de Nara, formada em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). "Sempre me atraiu muito a correlação entre o texto e o visual dos livros infantis. Gosto muito de estética, imagens, harmonia, da utilidade da beleza como proposta de conhecimento e da inter-relação entre texto e imagem. Nos infantis, um não existe sem a outra", avalia a autora, que destaca a parceria com o ilustrador Alexandre Gaudereto (também nascido em Guarani). "Ele é o coautor da obra. Ele precisava do meu texto, e eu precisava da ilustração dele", diz. Com traços naiive, Gaudereto dá às histórias a visão lúdica a partir da qual as crianças irão se identificar com o cotidiano inteiramente verossímil dos personagens.
Este ano serão lançados dois títulos da série, "O segredo de Amelie" e "As férias de Amelie e Júlia". A ideia é trazer temas que estimulem o processo bilíngue nas crianças, como rotação da Terra, sustentabilidade, culinária, atividade física e arte. "A criança pode, por exemplo, fazer uma receita em inglês. Por que não? A língua é ferramenta, e toda criança tem capacidade de aprender uma, duas, três línguas adicionais", defende. A série também conta com a colaboração dos jornalistas Sílio Boccanera e Leilane Neubarth, além do ex-jogador Raí, que escrevem os textos de contra-capa e orelha.
Os livros serão adotados por algumas escolas do país como forma de motivar a aquisição da segunda língua nas crianças. Além disso, a autora foi convidada a desenvolver um material didático de língua inglesa voltado para os pequenos, com previsão para ser lançado em outubro e disponibilizado a escolas públicas e particulares do Brasil. "Isso me motiva muito, porque é a chance de inserir métodos, abordagens e interpretações com as quais eu me identifico e sei que funcionam no aprendizado da língua." O chef francês Laurent Suaudeau, radicado no Brasil há mais de 20 anos, também rendeu-se ao charme de Amelie e formou uma parceria com a autora, com projeto previsto para o final do ano.
‘Table’ é mesa, mesa é ‘table’, e pronto
A partir das experiências corriqueiras, Nara começou a ler e pesquisar incessantemente sobre bilinguismo. Devorou livros sobre o assunto, revisitou tópicos estudados na Faculdade de Letras cursada há mais 15 anos e passou, então, a escrever sobre situações inusitadas, mas reais, de uma menina que crescia com a alternância e a propriedade de dois idiomas sem nem se dar conta disso. "O processo bilíngue, o uso de duas palavras para definir a mesma coisa, é extremamente interessante. A seleção acontece levando em conta o lado emocional e o prático", explica Nara. A autora cita que inúmeros estudos e pesquisas ressaltam os benefícios de um cérebro bilíngue, desde o melhor desenvolvimento cognitivo da própria língua materna até a prevenção do mal de Alzheimer.
"É interessante notar, por exemplo, suas escolhas de idiomas para determinadas situações. Ela só usa as expressões ‘ficar brava’ e ‘assim tá feia’ em português, o que sugere, talvez, que eu seja uma mãe bastante rígida. Mas, dependendo de quem a coloca para dormir, ela se despede com um ‘eu te amo’ ou ‘I love you’. Naturalmente a seleção é feita", conta. Amelie sabe ainda que com a avó brasileira deve falar "você não me pega" se quiser brincar de correr. Já com a família inglesa, a mesma frase é usada no inglês. "Quando o pai chega do trabalho, peço a ela que conte a ele que fizemos várias atividades naquele dia. Tudo o que eu falo é em português. Ela escuta e traduz para o inglês, tendo certeza que ele entendeu e está dentro da conversa", diz.
Um dos objetivos da série, segundo a autora, é tentar esclarecer pontos ainda questionados por pais e professores sobre bilinguismo infantil. "O primeiro esclarecimento a ser feito é de que a criança que é exposta a duas línguas não confunde os idiomas. Ela simplesmente acumula. Nós adultos temos a mania de julgar as crianças por nós. Mas nós já temos nossas limitações de aprendizado, declínio de memória, comparações linguísticas, inibições, enfim, não somos nem de longe a folha em branco que é uma criança", argumenta a autora.
Nara defende que a idade de 5 anos seja ideal para começar a ter contato com a segunda língua, caso o pequeno não cresça em um ambiente bilíngue. "A criança que aprende vários idiomas simplesmente aprende. Ela não sabe que ‘table’ é mesa em inglês e mesa é ‘table’ em português. Ela simplesmente tem ao seu dispor duas palavras para o mesmo objeto", conclui.
Mudar pequenos hábitos
Para tentar compreender e estimular o processo bilíngue, Nara reflete sobre as experiências de países mais avançados na prática, como a Noruega . "Lá, o norueguês não desapareceu porque o inglês é ensinado a partir dos 5 e 6 anos. Os noruegueses não deixaram de saber e falar a língua da Noruega. Não emigraram em massa para países de língua inglesa. Pelo contrário. De lá, do país deles, eles se globalizam, falam com o mundo e são perfeitamente bilíngues", esclarece. "No Brasil ainda não temos o número suficiente de profissionais adequados para o sucesso completo do bilinguismo. Mas se países como Chile e Costa Rica começaram essa mudança na educação, nós também podemos."
Ao contrário do que se imagina, não apenas os professores podem ajudar no aprendizado de um segundo idioma. "Os pais que não falam inglês podem estimular através de conhecimentos gerais que possam ter. Um simples ‘thank you’ ao invés de ‘obrigado’, uma vez ou outra já introduz a opção da língua. Bibliotecas públicas, música, jogos, brinquedos, há sempre um gancho para os pais motivarem seu uso. Se os pais falam o idioma adicional, deveriam usá-lo em casa, em várias situações", encoraja. "Fazer listas de supermercados, deixar bilhetes na geladeira. Língua é movimento, é prática, é uso e é constante estímulo. A língua só existe porque foi preciso usá-la para a comunicação. Então devemos nos comunicar. E por que nos comunicarmos em apenas uma, se podemos nos comunicar em várias e abranger o mundo?"
Lançamento nesta sexta, às 17h
Livraria Saraiva
(Independência Shopping – Avenida Presidente Itamar Franco 3.600)









