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Diálogos imortalizados


Por JÚLIO BLACK

26/04/2016 às 07h00- Atualizada 26/04/2016 às 08h26

Juracy Neves, diretor do Grupo Solar

Juracy Neves, diretor do Grupo Solar

Edmundo Villani-Côrtes, maestro e compositor

Edmundo Villani-Côrtes, maestro e compositor

Marcos Marinho, ator e diretor

Marcos Marinho, ator e diretor

Iacyr Anderson Freitas, escritor e poeta

Iacyr Anderson Freitas, escritor e poeta

Eliardo França, pintor e ilustrador

Eliardo França, pintor e ilustrador

A preservação da história de uma cidade vai além de se manter em pé estruturas como imóveis, esculturas, praças, pontes e outros marcos do mobiliário urbano. Passa também pela palavra, esteja ela registrada em arquivos sonoros, audiovisuais ou impressos. E os dois últimos foram as ferramentas utilizadas pelo projeto “Diálogos abertos”, do Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), para imortalizar a história de diversas personalidades que foram fundamentais para a construção do imaginário que cada um pode ter de Juiz de Fora. Idealizada em 2007, a iniciativa realizou até 2012 uma série de entrevistas com figuras importantes em diversas áreas, cultural, econômica, social e política, registradas em vídeo e que já haviam rendido três livros. Agora, o projeto retorna com a publicação do quarto volume dos “Diálogos abertos”: segundo o idealizador da missão de preservação da memória juiz-forana, o professor do IAD (Instituto de Artes e Design) José Alberto Pinho Neves, o objetivo é que a publicação seja lançada em maio, no Mamm.

Os três primeiros livros, publicados em 2012, traziam as transcrições de entrevistas de personalidades como o artista plástico Carlos Bracher, o escritor Luiz Ruffato, o compositor Mamão, Vera Ferreira (a primeira vereadora da história de Juiz de Fora), o jornalista, escritor e professor Almir de Oliveira, o cineasta Marcos Pimentel, entre outros. Para o quarto volume, foram selecionados o fundador da Tribuna e diretor do Grupo Solar, Juracy Neves, o pianista, maestro, compositor e arranjador Edmundo Villani-Côrtes, o ator e diretor Marcos Marinho, o escritor Iacyr Anderson Freitas e o pintor e ilustrador Eliardo França. Todas as entrevistas foram realizadas entre 2008 e 2012.

Segundo José Alberto Pinho Neves, os volumes não seguem uma ordem cronológica de entrevistas, para que cada livro tenha depoimentos de pessoas de áreas diferentes. O principal objetivo do projeto, acrescenta, é preservar a memória de Juiz de Fora a partir desses depoimentos. “Quando eu era pró-reitor de Cultura da UFJF, nós vimos essa necessidade, afinal isso (a questão da memória) está inserido na relação da universidade com a comunidade juiz-forana. Conseguimos os depoimentos de pessoas que faleceram, como o Arthur Arcuri”, salienta.

Para o professor, o lançamento do quarto “Diálogos abertos” no próximo mês seria um complemento ao proposto pela mostra “Memorabilis Urbis”. “Ela trata das perdas da cidade no que diz respeito ao mobiliário arquitetônico, como o imóvel da escola Stella Matutina e outras edificações que também desapareceram; da perda da identidade das calçadas da Avenida Independência (atual Presidente Itamar Franco), que tinham os Dragões da Independência do Ricardo Cristofaro; estabelecimentos comerciais, indústrias. Faremos um seminário, e nesse evento pretendemos lançar o livro.”

Personalidades marcantes

O professor comenta, ainda, sobre os escolhidos para o livro e a sua importância para a preservação da memória de Juiz de Fora. “O Edmundo Villani-Côrtes é um músico consagrado, muito presente na cidade, inclusive devido à sua associação com o Centro Cultural Pró-Música. O Marcos Marinho é de uma geração teatral que veio com uma nova proposta e que invadiu as ruas, comprometido com a cultura local, a permanência do teatro em Juiz de Fora. O Iacyr é dessa linha da tradição da poesia da cidade, que começou em Murilo Mendes e durante o século atravessou com outros nomes. É de uma geração que marcou pela qualidade e importância no final do século, como o Fernando Fiorese e Edmilson Pereira. Eliardo França é consagrado na literatura infantil, ajudou no renascimento do gênero em Juiz de Fora apesar de não ser nascido na cidade. Já doutor Juracy Neves deu imensa contribuição para a cidade não apenas como empresário, mas em diversas áreas. Ajudou a criar o primeiro curso pré-vestibular da cidade, esteve na primeira turma do curso de medicina da UFJF, onde chegou a dar aulas, foi provedor da Santa Casa, criou a Tribuna de Minas, entre outras realizações. É um intelectual respeitado, cuja trajetória está ligada à cidade.”

Memórias de uma ‘outra Juiz de Fora’

Assim como nos volumes anteriores, a quarta parte dos “Diálogos abertos” não se resume apenas a registrar por meio das entrevistas as trajetórias de cada um em seus campos de atuação. Os depoimentos são carregados, muitas vezes, de memórias ligadas a infância, adolescência, de uma Juiz de Fora que não pode mais ser encontrada nas ruas, eventualmente em fotos antigas ou relatos como os dos convidados dos projetos. Além disso, muitas vezes os sabatinados são convidados a traçarem um perfil da cidade em vários aspectos, desde suas áreas específicas, chegando ao que poderíamos chamar de “alma” do município. “Cada personalidade foi entrevistada por quatro a seis pessoas. Com isso, alguns aspectos interessantes começaram a aparecer, permitindo muitas vezes a ratificação de algumas histórias que eram contadas, o que tornava tudo ainda mais interessante. Era fornecer um novo olhar sobre sua personalidade a partir de seu depoimento. Houve momentos densos de emoção, com fatos que foram decisivos em suas vidas”, completa Pinho Neves.

Futuras publicações

Com quase 50 personalidades entrevistadas, José Alberto destaca que o “Diálogos abertos” deve ter um total de nove livros. Além desses, está sendo projetado uma publicação com personalidades falecidas antes do início do projeto, a partir de depoimentos concedidos a diversos veículos de imprensa e instituições (como a Funalfa). Um exemplo, destaca, é Pedro Nava. “E temos outro livro que deve ser lançado no segundo semestre exclusivamente com o depoimento do Itamar Franco para o ‘Diálogos abertos’, sobre o seu relacionamento com a cidade nos períodos em que foi prefeito e presidente. Está em fase de finalização, revisão e colocação de notas de rodapé. Ele terá, ainda, um grande número de fotografias do Itamar e de imagens relacionadas à trajetória dele durante suas administrações na Prefeitura.”

Devido à importância do material obtido com os depoimentos, Pinho Neves espera ampliar a divulgação da memória juiz-forana por meio dos “Diálogos abertos”, com a disponibilização de uma versão editada das entrevistas para a internet. “Vamos estudar com o IAD a possibilidade de fazer isso, além de liberar o acesso às entrevistas de forma integral no Mamm”, adianta. “O livro será disponibilizado em versão on-line na rede, além de outras publicações ligadas a seminários realizados no museu, para ter maior alcance e visibilidade.”