Encontro de Compositores comemora 16 anos, renovando a cena musical de JF
Atualmente, realizado no Beco, onde acontece desde setembro, o evento vem, há mais de uma década, facilitando a união de músicos e abrindo portas

Quando começou, há 16 anos, talvez não imaginasse a potência que é agora, e os artistas só agradecem. O Encontro de Compositores, que nada mais é do que o próprio nome sugere, um evento com DNA juiz-forano, comemorou seu aniversário na segunda segunda-feira deste mês, que é quando esse encontro fica marcado mensalmente, sem erro. Atualmente, é realizado no Beco, onde acontece desde setembro, e muito do que é a cena musical da cidade se deve a ele, uma vez que facilitou a união de tantos músicos, abrindo tantas portas.
O Encontro de Compositores já passou por alguns lugares até chegar ao Beco. Aquele que por mais tempo acolheu o evento foi o Cai & Pira, que funcionava no Bairro São Pedro. Fato é que, independente do lugar, a ambientação é a mesma. É mais como se o espaço se adaptasse ao evento do que o evento se adaptasse ao espaço. Porque são várias ações que se repetem por anos e que faz tudo acontecer de modo intuitivo. A começar pelos encontros do lado de fora da casa, antes de anunciar que está na hora do início.
É nesse momento, precisamente, que as parcerias são feitas e as ideias vão crescendo. É o momento do diálogo. Laura Jannuzzi, cantautora responsável pela produção do Encontro desde 2014, chama pelo microfone: “Vamos chegando, gente. Vamos começar”. E todo mundo ali vai entrando e se ajeitando confortavelmente nas cadeiras.
Para os compositores, antes de se sentarem, é necessário escrever, em um quadro negro, o seu nome na ordem proposta de apresentação. Aos que só ouvem, é preciso simplesmente sentar e ouvir. É por isso que Laura pede essa atenção aos músicos: são apenas duas composições para aqueles que sobem ao palco. Eles estão ali, unicamente, naquele momento, para serem ouvidos. E é ela, a anfitriã, quem inicia as apresentações.
Na ocasião do aniversário, quando esta repórter esteve presente no Encontro, Laura tocou uma música do seu disco mais recente e outra do seu primeiro disco. E isso fez sentido, porque as duas, de certa forma, são produções fruto do que aconteceu em sua vida desde que decidiu se apresentar no evento, apenas com uma música, desajeitada ainda com microfone, violão e pedestal. Era a sua primeira vez em um palco, em 2012.
Tudo o que veio a partir dele
Talvez até mesmo para quem estava ali, ouvindo Laura cantar, fosse difícil pensar nesse seu trajeto profundo no Encontro e mais profundo ainda na música. “O Encontro, na minha carreira, é tudo. Todas as minhas parcerias, os meus encontros musicais com artistas que tocam comigo vieram a partir do Encontro de Compositores. Eu comecei aqui e estabeleci toda a minha rede de amigos musicais”, diz Laura, que vê na produção do evento uma forma de agradecer por esses encontros tão frutíferos.
Tornar-se produtora, inclusive, foi natural. Ela explica que na história do Encontro de Compositores sempre tem um músico responsável por toda a logística para fazê-lo acontecer. E isso, naturalmente, chegou até as mãos dela. O motivo: “Porque a primeira vez que eu fui, em 2012, nunca mais deixei de ir”.

Os relatos sobre a importância do evento na carreira dos músicos vão se repetindo, assim como a maneira como eles foram atraídos ao espaço e a assiduidade. Renato da Lapa, também cantautor, conta que ir ao Encontro é como uma satisfação espiritual. “Eu posso estar cansado, em um dia mais ou menos, mas quando chego aqui eu me transformo.” Ele também já ouvia falar sobre o evento, mas esperava compor algumas músicas para, finalmente, vê-lo de perto, em 2014. “Depois que comecei a ir nunca mais parei. Eu sou um dos maiores fãs do Encontro. Sempre falo que é um dos maiores eventos culturais de Juiz de Fora.”
E ser tão fã de um evento tem diversas razões. Enquanto músico, a que mais chama atenção dele são as oportunidades: “Surge a chance de você tocar as músicas de outros artistas, de tocar junto com outros artistas. Eu, por exemplo, comecei a tocar com a Laura Jannuzzi por causa do Encontro. Comecei a tocar com a Carol Serdeira por causa do Encontro. Comecei a fazer música com o Dudu Costa por causa do Encontro. Então, é um ponto de entreposto cultural mesmo. É um lugar onde as coisas acontecem mais fácil”.
O evento tem ainda uma característica muito específica, que é fazer com que as pessoas tenham vontade de compor simplesmente para se apresentarem naquele espaço. É como um ímpeto de produzir e ver como funciona ali. Gustavo Duarte foi pela primeira vez, em 2015, já pensando que seria a oportunidade de se aprofundar nas composições. “Sempre gostei de compor, mesmo no início eu pegava o violão, começava a querer tirar algumas músicas de algum ídolo e, de repente, havia alguma coisa nova e começava a querer compor. Quando fui ao Encontro de Compositores, tinha espaço pra você colocar uma música sua e se levar a sério, com pessoas levando você a sério, e isso é muito importante.”
O novo e a referência
Renato Lapa ainda pontua que é satisfatório ver o encontro entre as pessoas que compõem há tanto tempo e continuam nesse ofício e aquelas que começaram agora, que estão desbravando as possibilidades. “E aí você vê que tudo se transforma: o que vem antes serve de alimento para o que vem depois, o que vem depois serve de alimento antes e isso se retroalimenta e faz a roda girar.” E esse contato vai fazendo surgir novas referências musicais, como ressalta Gustavo Duarte: “Uma coisa importante é que eu abracei a música brasileira, o violão, a partir do Encontro, porque encontrei ídolos aqui. Para mim, eu já não diferencio muito mais essa coisa ídolos: amo João Bosco, amo o Guinga, mas também amo o Roginho (Roger Resende), o Renatinho (Renato da Lapa), o Kadu (Mauad). Para mim, estão no mesmo patamar, sabe?”
Por isso, Laura Jannuzzi conclui: “Eu acho que o Encontro renova a cena o tempo inteiro. É um espaço super democrático e eu sempre falo que Juiz de Fora é muito rica musicalmente e muito por causa do Encontro. Ele fortalece e renova, mensalmente, tudo o que é feito agora.” Enquanto Renato resume: “Eu acho que a importância do Encontro pra gente é muito maior do que a gente imagina”. E é seguindo nessa roda que o Encontro ganha vida longa, registrando o que acontece na música de agora e já vislumbrando resgate, memória e renovação.
Na segunda segunda-feira do mês tudo isso se renova, mais uma vez: a cada nome novo que surge no quadro; a cada nome que não apareceria há tempos e volta a aparecer; a cada mesa depois das apresentações (onde as ideias de encontro funcionam na prática) e a cada música feita pelos compositores da cidade sendo cantada em uníssono.