Ouça agora

Sentimento na ponta dos dedos YAMANDU COSTA E LUIS LEITE


Por JÚLIA PESSÔA

25/07/2012 às 07h00

Se é verdade que popular e erudito se esbarram, se fundem e se reconstroem na linguagem musical, Yamandu Costa e Luis Leite serão célebres personagens de um destes encontros, no Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga. Na noite de hoje, os dois violonistas se apresentam no Cine-Theatro Central, como um dos destaques do evento, interpretando repertório marcado pela brasilidade, mesclando músicas autorais de ambos e composições de nomes como Pixinguinha e Dilermando Costa. Yamandu alerta, entretanto, que a seleção prevista não deve ser levada ao pé da letra, já que, entre um acorde e outro, é a emoção que comanda o tom de seus concertos. "Não me prendo a repertórios antecipados, sempre me deixo levar pelo clima da plateia. Alguma surpresa há de ter."

Trazendo diversidade ao festival, que prioriza a música antiga, os dois instrumentistas têm exatamente a mesma posição ao comentar sua participação, com foco em gêneros mais populares. "A música é uma só." Para Luis, é possível, inclusive, traçar semelhanças entre o estilo primordial do evento e a música instrumental brasileira. "O senso comum associa generalizadamente erudição a um refinamento de fraseado, conhecimento de estilos antigos e polimento de sonoridade, e a música popular à capacidade de improvisar, conhecer bem harmonia, entre outras. Mas elas não são tão diferentes conceitualmente. Primeiro pela presença das improvisações em ambas, e, depois, pela figura do compositor como intérprete de si mesmo."

Na noite de hoje, é Luis quem dá os primeiros acordes, executando quatro de suas composições, além de "Tempo de criança", choro de Dilermando Reis. "Sou um feliz refém do inconsciente musical coletivo brasileiro, que ouve canções populares e regionais desde a barriga da mãe. A brasilidade está no sangue e nos ouvidos." Seguindo a trilha do parceiro, Yamandu apresenta seis canções suas, intercaladas por uma de Gentil Montaña, ícone da música folclórica colombiana, e por "Carinhoso", clássico de Pixinguinha. "Meu universo musical está no folclórico, no choro, no samba, nos chamamés e nas músicas de fronteira, essa é minha essência. E na hora de tocar, vem todo o sentimento junto", conta o músico. O encerramento será feito com performance inédita dos dois músicos, amigos de longa data. "É a primeira vez que tocaremos juntos no palco, uma grande alegria", comenta Luis Leite.

 

‘Tudo é possível’

Para Yamandu, eventos como o Festival de Música Antiga transcendem as barreiras classificatórias dos gêneros musicais. "A musicalidade e a qualidade dos profissionais supera estes limites. Com a música, tudo é possível." De fato, foi ela que tornou possível que o gaúcho de Passo Fundo, cidade com menos de 200 mil habitantes, se tornasse referência mundial na interpretação da música brasileira e um dos instrumentistas mais conceituados pela crítica internacional. "O Brasil é um dos maiores celeiros musicais do mundo. Se você for para o interior do país, com certeza encontrará maravilhas que jamais serão escutadas e vistas. Infelizmente, para um músico se destacar, diversos outros fatores são necessários, inclusive sorte."

No mesmo tom, Luis Leite destaca que parte do aperfeiçoamento profissional de um instrumentista passa pela exploração de novas sonoridades e novos recursos musicais, muitos proporcionados pela tecnologia. "Estamos em um momento em que a revolução da informação trazida pela internet permitiu acesso às mais diversas referências e possibilitou intercâmbios de ideias com uma velocidade que seria impensável há alguns anos. O contato com esse material ‘ilimitado’ pode acelerar a formação do músico, jovem ou não, se usado de forma consciente", opina o violonista, defendendo, aliás, que o aprendizado de um músico deve ser constante. Carioca de berço, Luis, atual professor do bacharelado de violão da UFJF, tem encontrado no ofício um novo caminho para adquirir conhecimento. "Ensinar sem estar disposto a isso me parece uma perda de tempo. A meu ver, esse é um canal que deve estar sempre aberto, o do fazer artístico, o do ensinar, trocar."

Hoje, comentário didático com Rodolfo Valverde, às 19h30, e concerto, às 20h30. Ingressos disponíveis na portaria do Teatro Pró-Música.