Ouça agora

Viagem à música antiga


Por MARISA LOURES

24/07/2016 às 07h00- Atualizada 25/07/2016 às 13h47

5793c5bc87ca9

O 27º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga dá as boas vindas ao público juiz-forano neste domingo, quando à beleza do Cine-Theatro Central se juntará o som produzido, exclusivamente, por instrumentos de época da Orquestra Barroca Collegium Musicum Den Hagg. À frente da formação holandesa, está o casal de brasileiros Claudio Ribeiro e Inês d’Avena. Pela primeira vez no país, o grupo traz, no ano em que comemora uma década de fundação, repertório que fará uma síntese da música barroca europeia. Com o recital, a cidade inaugura mais uma temporada de concertos gratuitos espalhados por teatros, igrejas, museu, além de oficinas com músicos nacionais e internacionais. A programação segue até 31 de julho com entrada gratuita.

Já que a vinda ao Brasil coincidiu com as celebrações dos dez anos de aniversário, o CMDH trará na bagagem a apresentação de “L’Europe Réunie”, tema que faz referência ao primeiro álbum do grupo e uma alusão à coleção de concertos de câmara “Les goûts-réunis”, de Francis Couperin. Compositor da Paris de fins do século XVII e início do XVIII, Couperin Le Grand, como era conhecido, ousou unir os estilos francês e italiano que, na época, eram considerados rivais. “Como é uma orquestra que reúne gente do mundo todo, apesar de ser baseada na Holanda, pensamos em fazer uma apresentação mais ampla, inclusive algumas peças são as mesmas desse primeiro CD”, conta Ribeiro, que preparou a suíte “La Musette”, de Georg Philipp Telemann, para a abertura do programa.

A viagem à música antiga continua com o “Concerto RV 566”, de Antonio Vivaldi, “Concerto OP. 2 nº 1”, de Evaristo Felice dall’Abaco, “Concerto BWV 1057”, de Johan Sebastian Bach, “Sinfonia Op. 5 nº 6”, de Johann Adolf Hasse, e “Fantaisie”, de Jean-Féry Rebel. “Somos dedicados ao barroco tradicional. Usamos somente cópias de instrumentos de época e originais”, comenta Ribeiro, apontando para a singularidade da arte que defende no palco. “A música antiga é praticamente um idioma. É uma linguagem que funciona muito bem para o músico moderno, apesar de ser antiga. Ela é viva”.

Bate-papo ligeiro

A conversa da Tribuna com Claudio Ribeiro aconteceu na tarde de quinta-feira e foi bem ligeira, pois o maestro se preparava para uma apresentação, ao lado da esposa, no Espaço Cultural Cachuera!, em São Paulo. Com ela, ele forma o duo Lotus (flauta doce e cravo), já apresentado aqui em Juiz de Fora em outra edição do festival e que também voltará a ser apreciado na programação desde ano, no dia 29, na Igreja do Rosário.

O regente conta que se radicou na Holanda em 2000, encontrando por lá terreno fértil para o trabalho que queria desenvolver. “Eles nos receberam bem, porque a Holanda é um país propício para a música antiga. O público é fantástico e tem um alto nível crítico. É um país internacionalizado nessa área. Muitos vão para lá estudar e trabalhar, assim como nós”, diz o também cravista do Lotus e ainda diretor da Companhia de Música (Brasil) e membro, na Europa, do La Cicala, Bakopera Amsterdam e Radio Antiqua. Além de ter se formado em regência pela Unicamp, passou por mestres, como Eduardo Navega, Henrique Gregori, Edmundo Hora e Jacques Ogg.

Uma experiência musical e de vida

Foi depois de seis anos morando na Holanda que Ribeiro fundou o CMDH, tendo sob sua batuta jovens talentosos vindos de várias partes do mundo com experiência adquirida nos mais renomados conjuntos de música antiga. O entrosamento das várias culturas faz surgir uma obra única. “Cada um traz na bagagem uma experiência muito rica, não só musical, mas de vida. Além disso, muitos estudaram na Holanda, então possuem uma linguagem musical muito próxima um do outro. Fora isso, trabalhamos para unificar nossa interpretação”, assegura o regente, destacando que, durante o festival, Juiz de Fora poderá conferir, também, um concerto de solistas da orquestra, no dia 27, no Teatro Pró-Música. Por aqui, quatro solistas do grupo ainda ministrarão cursos de flauta doce, violino barroco, violoncelo barroco, cravo e música de câmara.

“Participar de eventos como este é uma experiência muito importante, porque temos contato com outros alunos, temos a oportunidade de ver outra maneira de tocar e trazer a prática atual da Europa”, assevera o maestro, vislumbrando o retorno de uma temporada maior para o evento juiz-forano. “No momento, a única fonte de recursos é da universidade e local, o que acaba limitando o festival e a organização também. Ele precisa ser maior, mas isso só vai se realizar quando tiver mais apoio da iniciativa privada, quando as empresas de Minas participarem mais. Esse é um patrimônio imaterial do Brasil inteiro.”

De acordo com Marcus Medeiros, supervisor do Centro Cultural Pró-Música, até o início da semana passada, cerca de 300 alunos já haviam se inscrito em uma das oficinas oferecidas pelo festival, número maior que o do ano passado, quando o festival aconteceu, também num formato menor, porém em novembro. A procura só não supera as edições que duravam 15 dias. “Esse aumento é reflexo das férias. No mês de julho, as pessoas têm mais facilidade para participar. Em relação à antiga configuração, reduziu, o que é natural, porque diminuímos o número de oficinas. Antigamente, como o patrocínio era muito maior, tinha ofertas de cursos de instrumentos de música antiga e contemporânea. Vivemos um momento de cortes, por isso focamos no recorte antigo e colonial.” Juiz de Fora, segundo Medeiros, continua abraçando a temporada musical.

Os interessados em participar de uma das oficinas do 27º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga podem se inscrever, gratuitamente, até este domingo, através do site http://promusicaufjf.com.br/festival. De 25 a 31 de julho, serão oferecidos cursos de instrumentos antigos, canto, dança barroca e de educação musical com destaque para o fortepeano, ministrado pelo músico Pedro Persone, responsável por reintroduzir o piano histórico no circuito musical brasileiro da atualidade durante o ano Mozart 1991.

COLLEGIUM MUSICUM DEN HAGG

Concerto da orquestra barroca holandesa

24 de julho, às 20h

Cine-Theatro Central

Entrada gratuita