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Entrevista/Luiz Ruffato, escritor


Por RENATA DELAGE

24/07/2012 às 07h00

Luiz Ruffato já foi, nesta ordem, pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro mecânico, jornalista, sócio de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor de livros autônomo, novamente jornalista e escritor. A cidade natal Cataguases e as referências e os amigos de Juiz de Fora – onde se formou em comunicação social pela UFJF – nunca o abandonaram por completo, ainda que radicado há 20 anos em São Paulo. O autor esteve na cidade, na tarde do último dia 4, para participar da estreia do projeto Ave, Palavra, da Livraria A Terceira Margem, que trará a Juiz de Fora nomes de destaque da literatura contemporânea nacional.

Ao lado do poeta Iacyr Anderson Freitas – primeiro convidado da cidade a participar do projeto, que, a cada encontro, também contará com um autor local -, Ruffato refletiu sobre suas obras e carreira. "Me espanta quando escuto prosadores dizerem que não gostam de ler poesia. Não conseguiria me dedicar à prosa sem inserir os artifícios primordialmente da poesia", respondeu o autor à pergunta de Iacyr sobre quando se deu a opção pelo gênero prosa, destacando dois recursos poéticos essenciais: o ritmo e o cuidado com o uso da linguagem.

As escolhas e a visão crítica de Ruffato também foram questionadas por ocupantes da plateia, que lotaram o segundo piso da Galeria Pio X. "Minha memória é muito boa, para o bem e para o mal. Anoto em meu corpo o que vejo no cotidiano, e isso é para sempre", esclareceu sobre a criação de personagens e histórias de seus livros. Neste sentido, cita identificar-se com Pedro Nava. "Ele dizia que à medida que escrevia as coisas, elas iam sumindo da memória."

Contabilizando indicações e prêmios com suas obras, o autor alcançou em 2001 projeção internacional com "Eles eram muitos cavalos". Começava, então, uma trajetória de reflexões sobre o proletariado, a classe média baixa brasileira, tema pouco abordado na história da literatura nacional. A obra abriu as portas para que Ruffato mergulhasse na temática e desse início à pentalogia "Inferno provisório", encerrada no fim do último ano, com "Domingos sem Deus". "Ainda estou na ressaca desse lançamento, ainda impregnado", confessa. O escritor rejeita rótulos. "Nunca deixei que me vissem como o escritor que só fala sobre determinado assunto. Não me interessa mais tratar desse tema. Agora me sinto livre para escrever sobre coisas completamente diferentes", revela.

"Duas coisas acabaram virando uma espécie de mantra no Brasil. Uma, é que brasileiro não gosta de ler. O que é um absurdo. E, segundo, que livro é caro. Ambas são verdades relativas", defende. Sobre o mercado editorial no país, Ruffato vê uma expansão promissora. "Muitos dizem que há excesso de publicações. Não há excesso, nem falta. Nos últimos dez anos, o número, não só de publicações, mas também de novos autores, aumentou, assim como a quantidade de festivais literários", argumenta. "Para se ter ideia, em 2003, existiam cinco grandes feiras e festivais literários no país. No ano passado, foram 75."

Neste ano, mais uma vez, Ruffato figura entre os indicados de dois dos mais conceituados prêmios literários com sua última obra "Domingos sem Deus", o Portugal Telecom de Literatura e o São Paulo de Literatura. Ainda assim, o escritor não se envaidece. "Prêmio é acidente. Se não fossem os três que escolheram o ganhador de determinada premiação, se fossem outros três, o resultado certamente seria diferente", acredita. "Não escrevo para ganhar prêmio, nem para lançar livro no exterior. Escrevo, porque quero escrever. O prêmio te dá uma projeção, valoriza o seu ‘passe’. Mas isso não me fez mudar um centímetro o meu modo de trabalhar."

O autor se posiciona inteiramente contra as reservas de cotas de mercado para autores locais em escolas e universidade do país. "É um absurdo você achar que por ser autor local tenha que ser lido. Assim, você não vai dar oportunidade de as pessoas verem que alguns autores locais são medíocres. Deve ser lido o bom autor local", ressalta.

 

Tribuna – Como motivar a leitura em um país onde o preço dos livros é tão alto?

Luiz Ruffato – Já existe um projeto no sentido de ampliar o acesso aos livros. Existia uma mentalidade no Brasil de que você só pode ler um livro se comprar esse livro. Na verdade, você pode ler um livro se encontrá-lo na biblioteca. Há alguns anos tem-se feito um esforço grande para que as bibliotecas adquiram mais obras. Seja através de projetos do Governo federal, que coloca livros nas bibliotecas escolares, seja através de projetos de alguns governos estaduais, que compram, através de convênios, publicações para bibliotecas públicas, abertas à comunidade. O livro é caro? É, mas não o suficiente para que as pessoas não possam comprá-los. Se você for, por exemplo, neste momento, na livraria Cultura, em São Paulo, ela estará absolutamente lotada.

 

– Como incrementar o cenário editorial, sobretudo, em cidades de pequeno e médio porte?

– Há uma grande concentração editorial em São Paulo e no Rio de Janeiro porque tais centros representam 50% ou mais de toda a economia do país. A cultura também é um bem econômico. Essa concentração é, sim, um problema. Mas alguns lugares têm feito esforços para mudar essa realidade. O maior exemplo para mim é o Rio Grande do Sul. Porto Alegre sempre foi uma cidade com uma produção cultural muito forte, porque, além de incentivar a produção, existe um amplo consumo dessa cultura. Acredito que é preciso haver mecanismos que auxiliem essa produção local – caso da Lei Murilo Mendes -, mas também deve haver uma demanda. Não há consumo sem demanda. Infelizmente, Minas Gerais é um estado muito problemático, tem uma relação ruim consigo próprio.

 

– Como escritor que alcançou reconhecimento internacional, que dicas daria aos novos escritores da cidade?

– O autor não deve escrever pensando que tem que ter uma projeção. A escrita tem que ser algo importante para ele. Naturalmente as coisas vão acontecer. Não acredito que em algum lugar do país exista um gênio incompreendido. Isso é uma grande balela. Ou você faz o seu trabalho, acredita nesse trabalho e vai lutar por ele, ou não. Não existe outra solução. Escrever é um saco. As pessoas ficam querendo glamorizar a vida do escritor, mas não existe esse glamour. É um trabalho solitário, dói o corpo ficar horas sentado, não há a possibilidade de conferir com alguém se está bom ou não. Então, se você acredita que esse é um trabalho que você quer fazer, vá batalhar por ele. Participar de concursos, mandá-lo para jornais e revistas literárias, mostrá-lo para pessoas que você acha que vão te dar algum apoio.

 

– Como vislumbra o futuro da literatura com a chegada de novas plataformas virtuais?

– Muita gente tem medo das novas plataformas. Eu penso exatamente o contrário. Só temos a ganhar. O livro virtual dá acesso a quem nunca teria acesso ao de papel. Não só pelo fato de o livro ser relativamente "caro", mas também por existir um difícil acesso, o que de fato é verdade. Muitas publicações têm baixa tiragem, não chegam a todos os lugares. Com maior acesso, há maior democratização. Isso é muito importante. Eu não vivo de direitos autorais. Eles são uma parte pequena do meu ganho. Vive-se de tudo que gira em torno do mercado autoral: participar de feiras e festivais, no Brasil e no exterior – que pagam cachês -, dar palestras, escrever sobre determinadas demandas. É polêmico porque é a defesa da ideia do livro como uma coisa sagrada, o que acho uma babaquice. Coisa sagrada é para meia dúzia de pessoas. Eu quero que meu livro chegue a todo mundo.

 

– Qual é a importância da adoção nas escolas de livros de literatura – e não apenas didáticos – de autores da nova geração?

– Muita gente na universidade usa aquela máxima que autor bom é autor morto. Não é questão de comparar os autores antigos com os autores de agora. Discutir literatura contemporânea é discutir o Brasil contemporâneo. E você tem que ter coragem para encarar isso. É muito cômodo falar que o Guimarães Rosa é um autor fantástico. Sim, é claro. Mas as universidades devem ter coragem de enfrentar esse desafio. A USP, para dar um exemplo genérico, parece que parou na década de 1950. Adotar novos autores não significa esquecer o passado. Pelo contrário. Valorizar o passado e a tradição é importantíssimo, mas é preciso entender que a tradição só é tradição porque tem uma continuidade.

 

– O livro "Domingos sem Deus" encerra o projeto de reflexão sobre a evolução do proletariado brasileiro. É realmente o fechamento da série "Inferno provisório"? Como avalia essa trajetória de reflexões?

– É de fato o desfecho. Tinha um projeto muito claro quando comecei: escrever sobre um tema que não tinha sido tratado – ou tratado de maneira muito obscura – na literatura brasileira. Mas não sabia muito bem como fazer isso. Só depois de escrever "Eles eram muitos cavalos" – livro que me deu projeção e me permitiu largar o jornalismo para me dedicar à literatura -, percebi qual era a forma que queria dar ao projeto. A partir daí, era claro para mim que seriam cinco volumes, e sabia como terminavam. Não sabia exatamente como seriam as histórias, estaria mentindo se dissesse o contrário. Mas sabia que ia fechar um ciclo, não só romanesco, mas um ciclo de interesse. É um projeto que terminei, dever cumprido. Agora me sinto livre para escrever sobre outras coisas. Sobre o quê, ainda não sei.