Acima de tudo, resistir

Com a proposta de se firmar autossustentável, grupo de artistas abriu O Andar de Baixo, para sediar oficinas, pequenos espetáculos, instalações, intervenções e exposições

O diretor Marcos Marinho mexe no seu bolso e no dos amigos para produzir “Canastra real”, pedindo a compra do ingresso antecipado a R$ 25
Abaixo, uma oficina. Acima, uma igreja. Ao centro, um espaço voltado a ações culturais. Ainda assim, O Andar de Baixo. O nome, pensado há algumas semanas nunca esteve tão pertinente. Localizado na Rua Floriano Peixoto 37, próximo à esquina com a Avenida Francisco Bernardino, numa área publicamente desprestigiada, o novo empreendimento erguido (ou melhor, reformado) por cinco artistas locais parece dizer de como todo o setor cultural tem se sentido nas últimas semanas.
Das muitas discussões que irromperam após a extinção do Ministério da Cultura e sua incorporação como secretaria no Ministério da Educação, decisão revogada neste sábado (21), a dependência do setor em relação ao Poder Público é uma das mais calorosas. Ainda que a reformulação não resulte em cortes orçamentários, o discurso subjetivo, o significado intrínseco, serve como dilema. Autonomia, então, é um passo seguro. E a criação de um espaço próprio, como O Andar de Baixo, é coragem, é risco e, também, caminho. “Cada um tem seu sonho e sua utopia, e nós estamos juntando isso”, aponta o diretor e pesquisador teatral Hussan Fadel, um dos idealizadores do amplo galpão.
Alugado e transformado com recursos próprios, o espaço servirá como sede da companhia teatral Corpo Coletivo, fato incomum em Juiz de Fora. Com a proposta de se firmar autossustentável, mesmo que no início não apresente lucro, o local, cuja inauguração acontece na próxima quinta, 26, com festa a partir das 17h, espera sediar oficinas, pequenos espetáculos, instalações, intervenções e exposições.
“É um lugar de criação, de troca, onde queremos que aconteçam eventos públicos, que estejam de acordo com o que temos aqui dentro. Não é um espaço com recursos como os de um teatro, mas pode abrigar a nossa arte e outras artes, desde que dialoguem com essas paredes, com esse teto, com essa estrutura”, observa a atriz e produtora Carú Rezende, anunciando a primeira oficina, pautada no pensamento teatral e filosófico de Brecht.
Arriscado, não?!
Mais que ousadia da opção por “um lugar para chamar de seu”, o que desperta atenção em O Andar de Baixo é a aposta no público principal fomentador de atividades culturais, como nos crescentes projetos de crowndfunding que se espalham pela rede. “Tem gente que vai consumir o espaço. Claro que tem mais gente que escuta o que toca no meu MP3”, brinca Rafael Ski, autor de importantes instalações artístico-tecnológicas recentes, como “O quarto de Van Gogh”.
“Essa é a nossa resistência diante da nossa própria escolha de vida. Resistência, persistência e teimosia. Vamos investir no que a gente acredita e percebemos que existem pessoas como nós que querem e precisam de espaço para ver, fazer e trocar”, completa Carú. “É uma coragem de se assumir artista. Potencializamos o que temos como artista para trazer as pessoas para perto de nós”, reforça o ator e produtor Vinícius Cristóvão.
Para Hussan, a própria cena local indica demanda. “Juiz de Fora tem vivido um momento cultural muito interessante, de boas produções, na literatura, no teatro, na dança, na música. É um momento propício para que movimentos como o nosso aconteçam”, avalia, para logo completar: “Mesmo nosso trabalho não sendo profissional, buscamos alcançar a qualidade de um trabalho profissional. Esse é um momento de aposta.”
Quem quer, banca
“Olha, estamos começando nossa produção através dos amigos”, dizia a mensagem que o ator, diretor e produtor Marcos Marinho enviou aos mais íntimos no início do mês. O recado era seguido de um pedido para a compra do ingresso antecipado (no valor mínimo de R$ 25) do espetáculo “Canastra real”, que deve estrear em junho. Experiente, o artista mais uma vez lançou mão da autonomia para viabilizar a peça baseada na obra de Willian Shakespeare e na biografia do dramaturgo inglês Christopher Marlowe, contando com a simbologia dos naipes do baralho.
Em muitas de suas produções, incluindo “Meu dia perfeito”, de 2010, Marinho também preferiu a independência de financiamento público. E deu certo. A peça conquistou o público, a crítica e viajou pelo país e fora dele. “Na estreia, cada um colaborou com o que quis ajudar. Isso deu uma alavancada. Foi mais informal, mas, desta vez, estamos fazendo via plataforma de colaboração, porque assim atinge mais gente, inclusive quem não conhecemos”, conta.
Dirigido mais uma vez por Ricardo Martins e dividindo a cena com a artista visual e atriz Fernanda Cruzick, Marinho ainda aposta num projeto inscrito num site de financiamento coletivo (“Numa certa forma estamos testando o público, para sentir até que ponto interessa a ele entender que a arte é tão importante quanto comer um cachorro-quente na esquina. Se ele quer assistir uma peça de teatro, precisa entender que tem que investir. Não dá para ficar esperando só o Estado. Para produzir sempre mexi no meu bolso e no dos amigos.”
No mesmo andar que Marinho, Carú, Hussan, Rafael, Vinícius e Bia (os últimos, de O Andar de Baixo), estão outros artistas locais, como o quadrinista Raphael Salimena, que há cerca de um ano inscreveu-se na plataforma norte-americana de financiamento coletivo Patreon (patreon.com) para criar suas tirinhas do Linha do Trem (linhadotrem.com.br). Atualmente, recebe U$ 230 (cerca de R$ 805) por mês para lançar duas tiras por semana.
Enquanto para o mercado há saídas possíveis, para a cultura que não envolve cifras autonomia não é palavra de ordem. Assegurando a força e a continuidade do órgão que gere a cultura no município, o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, é direto ao defender a presença do Poder Público. “Cultura não é só organizar eventos, é mais que isso, é o registro da história do homem. Estamos falando da preservação da memória. Há ações que precisam ser subvencionadas pelo Estado”, defende.
Ainda que o processo da Lei Murilo Mendes de 2015 tenha atrasado, com os artistas recebendo a segunda e última parcela nas próximas semanas, como espera o superintendente, o edital da edição desse ano deve sair até o início do segundo semestre. Afirmando a força da instituição local, o gestor acena para o crescimento do orçamento real da pasta em 2016, quando as obras do Museu Mariano Procópio e do Teatro Paschoal Carlos Magno acresceram a verba, mesmo diante de uma queda na arrecadação do município e, por consequência, no repasse à pasta. De acordo com Dutra, o temor com a nova paisagem federal é que “o quase nada (de repasse) pode virar menos ainda”.









