Deborah Vieira lança ‘A Indonésia fica em Bali?’ pela editora Macondo

Autora radicada em Juiz de Fora lança coleção de plaquetes inspirada em viagem à Indonésia e em reflexões sobre consumo, política e deslocamento


Por Beatriz Bath*

22/03/2026 às 06h37- Atualizada 23/03/2026 às 15h44

O título “A Indonésia fica em Bali? pode causar estranhamento a princípio. A pergunta, que nasce de um equívoco geográfico, é o ponto de partida da coleção de poemas lançados em plaquete escrita por Deborah Vieira, que analisa as lógicas de consumo que marcam a sociedade e a percepção de mundo. Lançado pela editora Macondo, o livro é marcado pela experimentação e invenção e já está disponível para compra no site.

Escolhido para o lançamento da edição, o formato plaquete – livros pequenos que comportam quase todo tipo de texto -, dialoga com a história da editora, que se reafirma no mercado como uma casa editorial aberta a experimentar também vai ao encontro do processo de Deborah Vieira. A autora, ao discutir temas como o deslocamento político e o consumo, abre espaço para o questionamento e o erro como instrumentos de sua escrita.

‘O início de outro universo’

A temática de “A Indonésia fica em Bali?” surgiu através da viagem que Deborah realizou para a Indonésia e da reflexão motivada pela obra de Olga Tokarczuk, “Escrever é muito perigoso”. Apesar de não ter escrito nenhum poema durante sua estadia no país asiático, a autora explica que fez muitas anotações e fotos. “Meu processo também passa bastante por aí, de observar, espantar, registrar, regurgitar, decantar e nisso algumas imagens vão tomando forma até ir pro papel e seguir por mais outros processos de escrita e reescrita.”

Deborah conta que leu Tokarczuk para uma disciplina de escrita literária ministrada pela professora Prisca Agustoni na UFJF. O texto que mais chamou a sua atenção foi o primeiro, que falava de um viajante, em referência a uma gravura do astrônomo francês Camille Flammarion.

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Gravura que serviu de inspiração para Deborah (Foto: Reprodução/Reddit)

Para Tokarczuk, a imagem representa um homem que chega ao fim do mundo e coloca a cabeça para fora para ver o cosmos. Isso dialogou perfeitamente com Deborah que, em sua viagem para a Indonésia, sentia um certo distanciamento ao conhecer a história daquele povo. “Aquele fim do mundo me parecia na verdade o início de outro universo”, conta.

“Então, com essa imagem de um viajante colocando a cabeça em outro cosmos para seguir explorando, comecei a pensar na minha experiência de estrangeira na Indonésia, e sobre como poderia vislumbrar na forma literária.”

Em seus poemas, Deborah explora como o deslocamento é algo que ultrapassa o físico, sendo também sensorial e político, abordando religião, política e outros. Além disso, seus textos também se tensionam em torno de temas como às formas como certos países são imaginados — e consumidos — a partir de fora.

A plaquete: experimentação e risco

Para Deborah, o interesse em estudar e explorar formas híbridas em projetos literários, que conversam com as plaquetes, só cresce. Por isso, publicar em uma editora como a Macondo foi um “encontro precioso”.

A autora explica que o processo de publicar um livro já é um processo desafiador quando se trata de uma narrativa tradicional. Em um projeto como o de Deborah, que “mal se encaixa” em uma categoria para o campo editorial e em concursos literários, costumam ter a publicação mais restrita justamente por seu caráter experimental.

Por isso, “viver esse processo de experimentação com um editor como o Otávio Campos, na editora Macondo, que se mostra aberto à poesia e a projetos mais experimentais, acaba sendo um desses encontros preciosos”. A ideia de publicar como plaquete veio de Campos, que busca retornar às raízes editoriais da Macondo, que se iniciou como uma “fábrica de plaquetes”.

“Para se adequar ao tamanho da plaquete, alguns textos e imagens precisaram sair… e isso não me doeu em nada”, explica Deborah. Para ela, além de ser natural que haja cortes durante o processo de edição, surgiu aí uma oportunidade de utilizar o material que não foi utilizado de outras formas e com outra materialidade.

Sobre a autora

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Deborah Vieira, autora de “A Indonésia fica em Bali?” (Foto: Arquivo pessoal)

“É bastante clichê…” começa Deborah Vieira sobre sua trajetória no mundo literário. Desde criança eu brincava de ser escritora e assinava algumas reescritas de histórias que eu lia ou me contavam como “autora Deborah”, cortava as folhas, as grampeava, fazia capa e escrevia atrás numa quarta capa “editora Deborah”.

Graduada em Letras na Universidade Federal de Pelotas, ela chegou a Juiz de Fora para fazer mestrado e, atualmente, cursa o doutorado em Literatura na UFJF, pesquisando escrita literária, gêneros híbridos e poesia expandida. Entre suas inspirações, a autora cita nomes como Adélia Prado, Patrícia Lino, Matilde Campilho e Patti Smith.

Para ela, a velha curiosidade não só pela escrita, mas “pelo processo de se pensar como esse texto vai vir ao mundo” é o seu guia criativo.

*Estagiária sob a supervisão da editora Carolina Leonel