Ouça agora

Parte (invisível) baixa


Por Mauro Morais

21/08/2016 às 07h00- Atualizada 22/08/2016 às 14h37

Ponto de prostituição e mendicância, parte baixa da cidade teve sua imagem construída após degradação da arquitetura e economia da região (Foto: Fernando Priamo)

Pâmela Braga tem 45 anos, seios, nádegas e rostos preenchidos pelo silicone. Há quanto tempo está aqui, na “parte baixa” da Marechal? “20. Com intervalo, porque vou e volto da Europa”, responde. Pâmela é Brenda e muitas outras travestis que, em roupas curtas, vendem o sexo nas ruas da “parte baixa” da cidade. Brenda é uma personagem teatral, encarnada pela atriz Pri Helena em “Floriano Parte Baixa”, espetáculo que deu o que falar nas últimas semanas e volta em cartaz em novembro, no espaço cultural O Andar de Baixo, que fica justamente na área onde Pâmela aguarda seus clientes.

Pâmela, você se sente a cara dessa região? “Não me sinto, não. Por mim não estaria aqui. Estou aqui por necessidade”, diz, com os olhares atentos aos carros que passam numa rua já escurecida pela noite. “Sou maquiladora e cabeleireira formada. Mas ganharia menos do que na prostituição. Como, bebo e pago aluguel com o dinheiro da rua”, completa ela, numa humanidade que a peça de Rodrigo Portella expõe ao defender a margem como um conjunto muito maior, para além dos contextos geográficos.

Para moradores e comerciantes do trecho de Juiz de Fora compreendido entre as avenidas Getúlio Vargas e Francisco Bernardino, a prostituição e a mendicância evidenciam a decadência do lugar. A margem, assim, é apontada, até mesmo, estando na margem. Para a história, o movimento noturno das ruas que comportam um comércio variado à luz do dia, do popular ao erudito, é síntese da construção recente da cidade. Para a montagem teatral, a ocupação pelos invisíveis diz respeito, também, à parte alta. Daí o olhar de Pâmela para os carros que passam.

Segundo o arquiteto e urbanista Rogério Mascarenhas, “quando o trem chegou, aquela parte era a mais valorizada para o comércio e para os hotéis, porque estava perto da estação”. Prova de um passado ilustre desses endereços é a escolha feita por imigrantes sírios, libaneses, portugueses, italianos, judeus e espanhóis, que ao desembarcarem na Juiz de Fora do início do século XX escolheram a “parte baixa”. “(A localização privilegiada) lhes possibilitava vender aos passageiros que não podiam ir muito longe, porque geralmente o trem voltava dentro de duas horas para as regiões de onde vieram”, destaca a pesquisadora Juliana Gomes Dornelas em “Na América, a esperança: os imigrantes sírios e libaneses e seus descendentes em Juiz de Fora, Minas Gerais (1890-1940)”.

“Há cerca de 50 anos, quando os trens perderam sua importância para os ônibus, toda a região entrou em processo de decadência e, por consequência, degradação urbana”, pontua Mascarenhas. “Ironicamente, a região que se valorizou foi destruída, e, no local, construíram uma nova cidade. Os casarões da Rio Branco vieram abaixo e fizeram surgir prédios, muitos deles sem qualidade arquitetônica”, afirma o profissional, destacando, ainda, que o Rio Paraibuna, poluído e, portanto, inútil, constituiu-se, também, como elemento degradante para a “parte baixa”. “Isso fez com que esses dois equipamentos separassem a cidade, tornando a região desfavorecida, mais barata e, consequentemente, mais acessível para a camada da população marginalizada, excluída econômica e socialmente.”

 

Trânsito caótico, fiação confusa e ausência de padronização de placas ajudam a conferir face deteriorada da região (Foto: Fernando Priamo)

Rua de liberdades

Pâmela não escreveu a história. Quando chegou às ruas da “parte baixa”, a fama do local já estava estabelecida. “Na minha época, era mais difícil. Não existia lei para a gente. Não tinha esse negócio de Parada Gay. A gente não tinha direitos, porque a gente é minoria, você sabe, né?! Minha mãe é nata de Bicas, e meu pai é carioca. Resolvi vir para cá por causa dela e não me adaptei em Bicas, por ser uma cidade muito pequena. Mudei para Juiz de Fora e trabalhava antes numa serralheria. Dali, ia para a Floriano, depois para a Marechal, para a Santa Rita. Já trabalhei na Independência. Não escolhi. Foi meu destino”, conta.

Os nomes das ruas onde Pâmela conheceu seu destino evidenciam a mudança de rumo da região. O que era a Avenida Municipal tornou-se Francisco Bernardino, em homenagem ao político juiz-forano que se elegeu presidente da província do Piauí em 1877. A chamada Rua da Liberdade ganhou o nome do militar Floriano Peixoto, conhecido como Marechal de Ferro por sua postura ditatorial. Controvérsias que o espetáculo teatral evidencia ao retratar vidas que negligenciam e são negligenciadas. Histórias como a do religioso que reprime a filha por ter sentido prazer e se entrega a uma casa de prostituição.

“O texto joga na cara o que está bem na nossa frente mas tentamos não enxergar por ser mais cômodo”, comenta a atriz Pri Helena, certa de que a representação do teatro contribui para debater a fama que em nada auxilia na revitalização da região. “Para a minha geração, aquele local não merecia ser frequentado”, acrescenta o ator Marcus Amaral, um dos 22 do elenco, contando ter crescido com a história da tia que chegou a apanhar do pai por passar na “parte baixa” da Floriano.

Com cenas potentes e enredo inteligentemente construído ao redor do espectador, “Floriano Parte Baixa” acaba por revelar uma rua fundamentada na história local e absolutamente universal. “A arte oferece o caráter humano, muito mais do que o estatístico. E quando a representação se integra ao lugar do qual se fala, ganha ainda mais sentido e força”, destaca Rafael Coutinho, que contribuiu para a formatação da dramaturgia da peça.

A iluminação como demanda e como metáfora: revitalização precisa incluir e não excluir ocupação atual (Foto: Fernando Priamo)

A região que aguarda luz

Proprietário de duas lojas na cidade, uma na parte alta e outra na “parte baixa” da cidade, as duas distantes em cerca de 1km, Iran Martins é otimista quanto ao futuro do local hoje degradado, mas lamenta a pouca iluminação da área, ainda que nunca tenha vivido situações de perigo iminente ou constrangimento. A ausência de uma luz mais intensa serve, no entanto, como metáfora para o local. De acordo com o arquiteto e urbanista Rogério Mascarenhas, a iluminação viria por um incentivo à ocupação.

“Eventos na Praça da Estação e arredores, bares e espaços isolados, vão levando público para aquela região, mas é um processo muito incipiente. Em Barcelona (Espanha), a área do porto começou seu processo de revitalização atraindo estudantes, que são um público de altíssimo valor agregado, mas com pouca exigência. Levou escolas, faculdades e cursos diversos, liberando-os de impostos, para renovar”, sugere Mascarenhas.

Para o profissional, não se trata de dar vazão a um processo de gentrificação, inserindo um grupo e expulsando o outro. “Cidade rica é cidade misturada, sem guetos, com as pessoas convivendo com as diferenças. Os imóveis degradados na área central podem dar suporte às populações marginalizadas. Um dos acertos é o fato de a Prefeitura assumir o prédio da Pantaleone Arcuri (esquina da Getúlio Vargas com Espírito Santo), em decadência, para acolher idosos”, aponta Mascarenhas.

“Essa região da cidade é a melhor para que a boa convivência seja despertada. É onde as linhas de ônibus convergem, onde todos se encontram, onde a arquitetura é eclética como a sociedade”, completa o arquiteto e urbanista. Pâmela também não queria estar ali. “Essa região conhecida pela prostituição ficou muito perigosa. Não só durante o dia como à noite. Eu, como profissional do sexo, trabalhava até de madrugada. Hoje em dia não trabalho mais, com medo. A gente não tem segurança”, comenta ela, enquanto passa uma viatura policial, com o motorista batucando jocosamente na porta. Onde queria estar, Pâmela? “Amor, morei muitos anos na Suíça, depois morei na Itália, em Roma, na Toscana. Viajei a Europa toda. Conheço a Alemanha, a França, a Espanha, Portugal.” Queria continuar na rua? “Sinceramente?! Queria abrir uma boate gay para mim, superlegal. É o que me faria parar de vez”, responde ela, que, como a região, deseja ser parte, apenas. Nem alta, nem baixa.