Em busca do saci
Ainda não era agosto, mês do folclore, mas o assunto da noite era o Saci. Na escuridão dos jardins do parque do Museu Mariano Procópio, tudo que se via eram pequenos pontos luminosos, que rodopiavam por todo canto, as lanternas dos meninos e meninas ávidos em capturar o moleque perneta, na Caça ao Saci. Na terceira edição da iniciativa, promovida pela Funalfa em parceria com o museu no dia 13 de julho, mais de 50 crianças compareceram ao museu para procurar o negrinho mais consagrado da cultura popular brasileira, imortalizado, sobretudo, nas histórias de Monteiro Lobato. A ideia é fazer uma nova leitura do mito, em que as crianças vivenciem a busca pelo Saci, tão contada e recontada nas histórias infantis. É a cultura acontecendo, explica a autodenominada sacióloga Margareth Assis Marinho, idealizadora da atividade.
A paramentação para a caçada segue à risca a orientação dada por Tio Barnabé a Pedrinho no livro O Saci e inclui acessórios como peneiras, garrafas e rolhas, indispensáveis à captura do moleque. Se não pegar com a peneira e guardar na garrafa tampada com rolha, ele foge, ensina Marina Neto Micheli, de apenas 5 anos, mostrando domínio na técnica.
A largada é dada, e os olhinhos atentos percorrem cada centímetro da trilha escura, procurando por pistas deixadas pelo negrinho, como gorro e cachimbo e mesmo pegadas unitárias. Achei, achei!, é um coro que se repete, vibrante, durante toda a caminhada, enquanto os pequenos recolhem os objetos deixados para trás. Encontrei e consegui pegar várias pistas, mas estou dividindo com os amigos para eles também poderem guardar de lembrança, conta Igor César Botezini, de 11 anos.
Como se não estivessem instigados o suficiente, uma gargalhada histérica seguida de Ninguém me pega incita ainda mais a meninada, que corre em busca do traquinas de uma perna só: Olha lá o Saci!’. O trajeto é marcado por diversas aparições do personagem e permeado por orientações dos guias, que vão contando lendas e histórias atribuídas a ele. Se alguma coisa some em casa, pode ter sido uma travessura do Saci, que adora esconder as nossas coisas, diz Margareth à criançada, que não hesita em reproduzir a recente descoberta aos pais e responsáveis, que acompanham todo o percurso. Viu, mãe? Meu livro que sumiu deve estar com ele, conclui Jéssica Oliveira, de 8 anos. Na edição de julho, uma sexta-feira 13, fantasmas também marcaram presença no trajeto, o que só fez com que os caçadores mirins de Saci se sentissem mais corajosos por estarem engajados na empreitada.
Ao final da caminhada, quando o grupo se reúne novamente no ponto de partida, finalmente uma luz que não a das lanternas é avistada, no lago do museu, acompanhada pelo já conhecido riso, trilha sonora da caçada. É ele próprio, o Saci, que passa a bordo de uma gôndola, gabando-se de não ter sido capturado, ao que anuncia Margareth. Não foi dessa vez que conseguimos pegá-lo, vamos ter que combinar de vir outra vez. E os pequenos, frustrados? Nem pensar. Já achei o cachimbo dele, da próxima vez vamos prendê-lo garante Gabriella de Campos Paiva, sem qualquer sinal de dúvidas.
Mix de imagens culturais
Para o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, além do resgate da cultura popular brasileira, a Caça ao Saci permite a criação de um hábito de associação de bens culturais. Depois de hoje, certamente eles vão querer procurar livros sobre o Saci, descobrir mais sobre essa figura folclórica. O repertório cultural acaba se expandindo e entrando em relação com outros ícones. Hoje ouvi um deles dizendo que só faltava aparecer o Jason, porque era sexta-feira 13. É uma associação sem fim de imagens que começa com uma atividade prazerosa.
O diretor do Museu Mariano Procópio, Douglas Fasolato, destaca também que atividades como esta despertam as crianças para a relação com o patrimônio histórico e cultural da cidade. É uma forma divertida de eles estarem no museu, e, para muitos, o ponto de partida para que retornem e passem a frequentar o parque e participar de outras atividades que realizamos. De fato, os olhos de muitos dos participantes acaba se voltando para o cenário, mais do que a caça em si. Gostei mais de ter passeado à noite no parque, a paisagem fica muito diferente e bonita, conta Bernardo Machado, de 13 anos. Douglas ressalta, ainda, a importância da iniciativa como lazer compartilhado pela família. Os pais vêm e se envolvem na diversão dos filhos. É um momento que precisa ser sempre resgatado e incentivado.
Entre pais e crianças, é difícil saber quem mais se encanta na busca pelo negrinho. As crianças precisam deste tipo de diversão, que também as enriquece culturalmente, procuro levar minha filha em todas as iniciativas que aparecem e vejo que ela adora, diz a advogada Suzana de Castro, mãe de Luiza. Reiterando a opinião da mãe, Luiza mal pode esperar pela próxima aventura. Adoro vir aqui, a caçada é muito legal. Vou voltar em todas.
Safari mitológico
Se somente o negrinho de uma perna só já é capaz de encantar os pequenos, a reunião de outras figuras do folclore deve despertar ainda mais o interesse deles pela mitologia nacional e os diversos produtos culturais relacionados a ela. Pensando nisso, a Funalfa reúne, além de Sacis, fantasmas, lobisomens, mulas-sem-cabeça, cucas e iaras no parque do Museu Mariano Procópio, no próximo dia 31, às 19h, em um evento chamado Safari mitológico, que fecha as atividades de agosto. O sucesso da caça ao Saci foi tanto que achamos que era hora de expandir os horizontes, trabalhando com outros personagens, explica Margareth. A ideia é investir ainda mais nessa receita, de vivenciar as lendas, ver o folclore vivo, acontecendo ali, completa Toninho Dutra.
Ainda na programação deste mês, a Biblioteca Municipal Murilo Mendes promove a exposição Viagem literária pelo folclore brasileiro , além de tardes de contação de histórias e atividades recreativas. Amanhã (Dia do Folclore), às 15h, a pedagoga Vera Lúcia de Almeida comanda a Tarde de brincadeiras folclóricas, seguida pela professora Juliana Damasceno Rodrigues de Oliveira, que no dia 23, às 15h, apresenta Contos populares à criançada. Encerrando o cronograma da biblioteca, no dia 29, às 15h, Margareth Marinho volta a falar do moleque perneta, tão procurado nos jardins do museu, apresentando o Dossiê Saci, livro de sua autoria, aos meninos e meninas, formando, possivelmente, novos caçadores.









