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‘A vida pode abraçar muitos pensares’


Por MARISA LOURES

21/05/2016 às 07h00

A cantora e escritora Bia Bedran lança livro e faz show em Juiz de Fora, durante o Maio Cultural

A cantora e escritora Bia Bedran lança livro e faz show em Juiz de Fora, durante o Maio Cultural

Era uma vez uma menina que nem sabia ler e já se encantava pelas histórias que ouvia da mãe. Dona Wanda Bedran era professora e tocava um vilão que fazia a filha viajar por aquele mundo do faz de conta. Essa menina cresceu, fez-se escritora, cantora, compositora e contadora de histórias. “Tenho certeza de que essa primeira narradora me levou a amar a leitura cada vez mais. Através das histórias dela, eu já estava lendo o mundo”, afirma Bia Bedran, em entrevista para o quadro “Sala de leitura” que vai ao ar neste sábado, às 10h30, com reprise na segunda-feira, às 14h30, na Rádio CBN Juiz de Fora (AM-1010).

Autora de 14 livros, Bia se dedica, no momento, à escrita do 15º, que deve ganhar as prateleiras em 2017. Por enquanto, ela segue com palestras, shows e trabalhando na divulgação dos outros 14 títulos, incluindo o recém-publicado “O mundo dos livros” (Nova Fronteira). A obra, que foi incluída no Catálogo de Bolonha/2016 – uma das mais importantes feiras de livros infanto-juvenis do mundo – será lançada, em Juiz de Fora, no dia 30 de maio, às 19h, na Biblioteca Municipal Murilo Mendes, dentro do Maio Cultural. Nas 44 páginas, a autora mostra que, no mundo dos livros, cabem aventuras, calmaria, tristezas, alegrias, viagens, encontros, saudades e personagens de todo tipo.

“Consegui o que eu queria, que era atingir os maiores de 9 a 11 anos. Eles estão rejeitando os livros com ilustrações para mostrar que já são grandes, mas, quando abrem, dizem: ‘Meu Deus, o que eu estava perdendo!'”, comenta ela, que continua por aqui no dia 31 para apresentar o show “Fazer um bem”, marcado para as 15h, no Pró-Música. O ingresso deve ser trocado por um livro de literatura em bom estado de conservação, no dia e local do evento.

“Meu show é uma mistura entre narrativas. Tem a palavra cantada, daqui a pouco a falada, daqui a pouco só a presença de bonecos. É uma performance da minha história com as canções. Por isso, o tema do meu mestrado foi a arte de contar histórias. Esse é o tema da minha vida”, diz a também professora, graduada em musicoterapia e educação artística.

Esses cerca de 40 anos de carreira, iniciada lá na década de 1970 com o grupo Quintal Teatro Infantil e depois com o Grupo Musical Bloco da Palhoça, resultaram em nove CDS (o décimo está prestes a sair do forno) e a apresentação dos programas “Canta-Conto” e “Lá vem história”, transmitidos pela TVBrasil/RJ e TV Cultura de SP nas décadas de 1980 e 1990. No bate-papo, ela detalha como é o “mundo dos livros” e conta porque o próximo álbum pode ser encarado como um reencontro com o início de toda essa história ligada à música.

 

Mais literatura

Na programação literária do Maio Cultural, promovido pela Funalfa até dia 31 deste mês, em comemoração ao aniversário de 166 anos da cidade, ainda estão previstos o “Chá com poesia”. O sarau literário, com participação de Thiago Miranda, ocupará o Museu Ferroviário no dia 26, a partir das 10h. No dia 28 de maio, às 11h, no Parque Halfeld, a Liga dos Escritores, Ilustradores e Autores de Juiz de Fora (LeiaJF) seguem em “Passeata Literária” em direção ao Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, onde haverá contação de história. No mesmo dia, às 22h, também no CCBM, ocorre a programação cultural com arte, música, gastronomia e literatura. A programação completa inclui shows, espetáculo de dança, exposições, teatro, entre outras atrações, e está disponível em facebook.com/funalfa.

 

Tribuna – Como é o “Mundo dos livros”?

Bia Bedran – Nesse meu novo projeto, eu quis contar a história para as crianças que já nasceram no mundo muito virtual. Quis contar a história da chegada do livro físico ao mundo. Então, eu falo da primeira máquina tipográfica que foi inventada pelo alemão Johannes Gutenberg, na Alemanha. Conto isso de maneira que a criança possa entender que havia um mundo sem livros, que as pessoas registravam suas ideias, às vezes, até em casco de tartaruga e em papiro. É um grande livro de onde saem todos os personagens, de Dom Quixote a Robinson Crusoe. Faço minha homenagem à minha paixão pelos livros. Alguém tem que falar um pouco sobre isso, até como uma forma de resistência, como um movimento de memória. Não que a gente esteja negando o mundo virtual. Isso ninguém pode negar mais, porque as crianças já nascem passando o dedinho nas páginas virtuais.

 

– Por falar nas crianças, vivemos num país dividido politicamente. Devemos politizá-las?

– Se é para discutir política com uma criança, acho que tem que discutir o que é o valor da cidadania. Para mim, política, na infância, não deve ser partidária. Acho certo explicar tolerância, trabalhar com a tolerância de gênero, não achar que todo mundo tem que ser como foi ensinado que tem que ser. Aceitar a diversidade das pessoas. Saber o que é ser justo no mundo. É a política do bem, a aceitação do outro. Entender que o outro não é mal e eu sou a boa. Não há herói, não há vilão. Falar que a vida pode abraçar muitos pensares.

 

– Você é adepta dos e-books?

– Não sou avessa a eles. Apenas não trabalho nessa linha. Tenho uma biblioteca imensa. Só penso no papel, independentemente da questão ecológica, porque a gente tem também o plantio especial para se conseguir a celulose sem destruição de florestas. Não gosto de ler em tela. Tenho quase certeza de que as crianças sentem uma paixão quando veem o livro, quando alguém abre uma página e diz “Era uma vez”. Fisicamente, ela sente até a pincelada do ilustrador. O objeto livro é ainda, como diz Ziraldo, o objeto perfeito, porque ele não liga na tomada e não descarrega. Claro que pode ter a traça, mas ela também gosta de ler. Ela come o livro.

 

– O que sua história não pode deixar de ter?

– O meu livro tem que ter uma situação-chave, que é o que a gente chama de tema. Um bom enredo é aquele que consegue ser resumido em três linhas. Por exemplo, vou contar a história de um menino que se influencia toda hora pelo que falam para ele. O desenvolvimento da história é o que é mais importante para mim. Meu livro tem que ter muita poesia, e não estou falando da estética poética de rimas. Tem que ter imagens poéticas, muita subjetividade, para que a criança possa ter várias leituras e uma conclusão diferente da do outro amigo que o leu.

 

– Como vai ser seu show?

– “Fazer um bem” é o nome de um livro meu lançado há uns dois anos, que eu vou levar para o show. Sempre levo todos meus livros para qualquer evento que eu faça. Tem a presença do Guilherme Bedran tocando violino e rabeca, tem o Tadeu Santiago na sanfona e no teclado, tem o meu violão, tem a minha voz e o Paulão Menezes na percussão. O show é o nome do meu livro, mas não vou contar o livro inteiro não. Chama “Fazer um bem” pelo conceito, porque todas as minhas canções estão sempre pensando no bem, na alegria, na união, na paz, na busca da serenidade, na natureza.

 

– Tem previsão de lançar novos trabalhos?

– O que vem aí é o meu novo CD que se chama “Bloco da palhoça”. Esse é o nome do meu trabalho musical, o primeiro da vida. Em 1979, nós lançamos um LP. Éramos um grupo de músicos, criamos uma linguagem de cantar para a criança. Tudo o que sou hoje aprendi muito no teatro que fazia, mas também com Ricardo Medeiros, Victor Larica e todos os outros músicos que foram entrando no bloco. A gente lançou pela gravadora Continental um LP chamado “Bloco da palhoça – Música para brincar e cantar” e, agora, 40 anos depois, nós nos reencontramos. O Victor Larica é o pai das minhas filhas. Estamos separados há muitos anos, mas unidos pela música e por nossas filhas que já têm 35 e 31 anos. Tantos anos depois, nós estamos fazendo esse reencontro com novas e velhas canções. O lançamento vai ser nos dias 8, 9 e 10 de julho, num teatro da Universidade Federal Fluminense, em Niterói. Depois, vamos correr o Brasil com esse show. É para crianças de todas as idades.

 

BIA BEDRAN

Lançamento de Livro

30 de maio, às 19h

Biblioteca Municipal Murilo Mendes

(Praça Antônio Carlos)

Show “Fazer um bem”

31 de maio, às 15h

Pró-Música

(Av. Rio Branco 2.329 – Centro)