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Repeteco em terras francesas


Por Júlio Black

21/04/2016 às 07h00

Curta filmado em primeira pessoa e em único plano-sequência, '1602' vai repetir a trajetória de 'Azul' e '2 segundos'
Curta filmado em primeira pessoa e em único plano-sequência, ‘1602’ vai repetir a trajetória de ‘Azul’ e ‘2 segundos’

O cinema brasileiro tem comemorado, nos últimos dias, o anúncio de que o longa “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, foi selecionado para a disputa do prêmio principal do Festival de Cannes, a Palma de Ouro. Por outro lado, seguindo a tradição de que mineiro trabalho em silêncio, o quarteto feminino da Submerso Produções (Mia Mozart, Shayra Monteiro, Anna O. e Fernanda Rebelatto) foi selecionado pelo terceiro ano seguido para participar do evento, que acontece na cidade francesa entre 11 e 22 de maio. O curta-metragem “1602”, dirigido por Mia Mozart, foi selecionado para participar da mostra não competitiva Short Film Corner, a exemplo do que havia acontecido em 2014, com “2 segundos”, e em 2015, com “Azul”. A confirmação do repeteco cinematográfico em terras francesas veio há poucos dias. “Ficamos emocionadas, claro, mas a informação veio de um jeito mais tranquilo. Nas outras ocasiões, estávamos meio perdidas, agora é mais o sentimento de gratidão”, diz Mia.

Assim como nos outros anos, “1602” – que tem 13 minutos de duração – foi rodado durante a semana de carnaval, que este ano caiu no início de fevereiro. “Tivemos uma ajuda imensa do Luis Filipe Pontes, que foi nosso assistente de direção, e uma das coisas que ele tirou da cartola foi um apartamento que estava abandonado. Ele conseguiu as chaves, mobiliamos o local, passamos a semana ensaiando, preparando o cenário, e filmamos tudo em apenas um dia”, conta.

Segundo Mia Mozart, a ideia inicial era fazer um filme em primeira pessoa, mas com a visão de diversos personagens, até se chegar ao formato em que tudo seria visto a partir do olhar de apenas um personagem, interpretado por Victor Sobral – além dele, Shayra Monteiro e Fernanda Rebelatto interpretam os personagens principais, sem se esquecer da cerca de meia dúzia de parceiros que toparam fazer figuração na produção. “Não tivemos, novamente, a pretensão de construir uma história fechada. Fizemos pela primeira vez em um único plano-sequência e em primeira pessoa. A história, basicamente, é sobre ir a uma festa e rolar uma briga. Agora, se a briga é o mais importante nessa festa cada um é que vai decidir. Por isso preferimos a (filmagem em) primeira pessoa para termos um só foco. Ela representa o nosso espectador. Quando fizemos o filme, é o olho da pessoa que está assistindo a ele. É para experimentar a liberdade de ‘andar’ dentro do filme.”

Com isso em mente, a ideia original do curta acabou se modificando. “No início seria uma história de convívio naquele apartamento, mas depois resolvemos mudar para uma festa que estaria acontecendo lá”, explica. “Então essa pessoa (Victor) chega e as coisas começam a se desenrolar ao redor dele, incluindo uma briga na qual ele pode decidir fazer parte. Mas em nenhum momento ele é um dos motivadores da confusão.” O curta-metragem teve dois takes gravados para que um deles fosse o escolhido. “Foi um trabalho bem grande do editor, o Tadeu Carneiro, que teve que fazer o tratamento de imagens, escolher a melhor hora para começar e terminar, e equalizar o balanço e a altura das músicas – somente marchinhas de carnaval – porque dependia da movimentação do Victor.”

 

Cabeças pensantes e pouca grana

Mia Mozart lembra ainda que, apesar de haver uma base pensada para a produção, o roteiro foi desenvolvido na base da colaboração coletiva. “A gente gosta de abrir a criação para quem estiver participando, o elenco é muito participativo. Não gosto de fechar um roteiro e só entregar. Dessa vez havia uma história original, a Fernanda e Shayra me ajudaram a criar o motivo e os demais iam criando o motivo de cada um dos personagens. Por isso prezamos mais ensaiar do que gastar tempo com as filmagens. A direção foi bem no esquema da interação, porque também participo como figurante, e era preciso ter um olhar bem atento sobre os elementos-chave. Quando não estava atuando ficava atrás do Victor dando um toque sobre para onde deveria ir. Não era essa coisa de parar e dizer que fazer, a direção era feita na hora mesmo.”

Se os dois primeiros curtas tiveram custos de produção que sequer pagam as águas minerais de muito astro de Hollywood (“2 segundos” custou R$ 15, e “Azul” R$ 150), desta vez Mia Mozart diz que o custo foi praticamente zero. “A produtora ParaRaio cedeu parte dos equipamentos, o restante foi com o Luis Filipe. Além disso, a padaria Maxi Pão ajudou com a parte da alimentação, e o bar Pró-Copão ajudou a pagar algumas despesas. O Salão Sônia & Equipe pagou a inscrição para o festival, enquanto que o mobiliário foi arrumado por todo o elenco. Na verdade, não gastamos nada.”

 

Novos planos

Apesar da moral em participar pela terceira vez do Festival de Cannes, a equipe da Submerso Produções não estará na França durante o evento, repetindo a ausência de 2015. O motivo são os novos e maiores planos das jovens cineastas. “A gente fez o curta para pegar o festival, mas ele é um encerramento de ciclo, de trajetória, porque decidimos que seria o último filme apenas com apoios eventuais”, explica. “Para avançar e realizar um longa-metragem, precisamos de apoio de outro porte para produções maiores. Vamos tentar a Lei Murilo Mendes este ano, além de outros editais fora da cidade e do estado. Estávamos esperando ter certeza de que saberíamos o que fazer com mais dinheiro, amadurecer nossas ideias, estar mais envolvidas no meio para que soubessem que não estamos brincando com dinheiro. Hoje muita gente pensa que dinheiro para arte não é necessário, e não quero dar motivo para que pensem assim. Há muita gente precisando de recursos, e não quero ser vista como alguém que usa para banalidades, mas sim para algo que vale a pena.”

 

Tudo ‘Azul’

As realizadoras da Submerso Produções estão felizes com os resultados obtidos após a exibição do curta “Azul” em Cannes. “Nós conseguimos ‘vender’ o ‘Azul’ para o canal Cine Brasil e estamos nos inscrevendo em diversos festivais. E conseguimos passar no Festival Primeiro Plano, aqui de Juiz de Fora, ano passado. Foi um passo enorme para nós, fiquei muito nervosa com a possível repercussão das pessoas, não sabia o que poderiam achar. Fiquei muito feliz com a recepção, todos foram muitos amáveis e apresentamos o filme para ver se participamos em outros festivais. É muito gostoso ter esse retorno dentro de nosso país, nossa cidade.”