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Poeta do pouco


Por Marisa Loures

20/08/2016 às 08h00- Atualizada 25/08/2016 às 14h21

Foto: Leonardo Aversa
Foto: Leonardo Aversa

Adriana Calcanhoto é uma poeta do “pouco”. Econômica ao compor, econômica ao falar. Nossa conversa, na última quarta-feira, não demorou mais que sete minutos. No entanto, concluímos aqui na Redação que o “pouco” que ela diz, diz sorrindo. “Ela tem várias marcas, trabalha muito com repetições e listas. Trabalha com uma economia restrita, usa o pouco. Onde aparecem os excessos, que a encantam também, eles aparecem sobretudo nos arranjos, no modo de cantar. Ela tem uma maneira de lidar com os sentimentos, com a questão amorosa, com os lugares, as pessoas. Ela tem uma poética muito dela”, reflete o escritor Eucanaã Ferraz.

Poeta e ensaísta, Eucanaã já organizou o livro “Letra só” (Companhia das Letras, 2003), de Caetano Veloso, e agora volta a viver experiência semelhante com “Pra que é que serve uma canção como essa?” (Bazar do Tempo, 192 páginas), obra que reúne 91 letras de Adriana, sendo 18 inéditas e 73 sucessos, agrupadas em cinco seções. “Você” apresenta composições de temática amorosa; “Agora” traz canções sobre o momento presente; “Onde” joga luzes para a presença de lugares, paisagens, cidades; “Olhar” dá ao leitor textos que giram à roda de pessoas; “Verso” tem como temática a própria canção, a palavra, o verso.

livro

“Quando componho, música e letra vêm juntas. É paralelo, é como um tricô. Cada música, na verdade, é inaugurada de uma forma diferente. Cada uma nasce de um jeito”, conta a cantora, que, inicialmente, resistiu à publicação e, quando decidiu, não pensava em outro nome para estar à frente da obra que não fosse o daquele escritor que lhe fora apresentado pelo também poeta Waly Salomão. “Dei uma revisada no livro porque o Eucanaã tinha algumas dúvidas, mas o deixei trabalhar solto. Acho bonita a divisão que ele fez. Não é um livro de letras convencional, com ordem cronológica. É realmente o olhar de um poeta sobre um trabalho de letras”, diz ela, dona de um estilo repleto de “combinações desassombradas”, conforme aponta Eucanaã no ensaio que abre o livro. “Adriana transita entre dois lados de um lado; ela gosta de opostos. Mas mais do que de opostos, ela parece gostar de fundi-los, de vê-los tornarem-se uma única coisa complexa – como um sabor agridoce ou um movimento de vaivém.”

Tribuna – Por que a resistência inicial em lançar “Pra que é que serve uma canção como essa?
Adriana Calcanhotto:  Em geral, tenho alguma resistência para gastar um tempo, vamos dizer, em que eu poderia estar pensando numa coisa para frente, fazendo uma canção nova, olhando as antigas. E eu achava que não era hora ainda, que não tinha (material) suficiente. O Eucanaã há cinco anos não me convenceu dessa ideia, mas aí eu fiz mais algumas letras, reli o texto dele mais de uma vez e acho que era agora. Cinco anos antes era cedo.

Tribuna- A ideia de Eucanaã neste livro é fazer suas letras sobreviverem sem o apoio da melodia. Isso é possível?
Adriana: Como não faço letra sem ser a serviço de alguma melodia, minha ou não, não consigo separar. Olhar o livro e esquecer a música. Para mim é impossível, mas ele tem uma técnica que o faz lembrar ou esquecer da melodia conforme ele quer. Então, acho superbacana que ele ache que as letras façam algum sentido mesmo que você não conheça a música.

Tribuna – Foi difícil fazer as composições terem vida própria no papel?
Eucanaã: Sou muito musical, mas sou um poeta de livro. Consigo fazer um esforço de esquecer a melodia, a música, e olhar para o poema, ouvir o poema soando no silêncio da folha do papel. Não foi difícil porque as letras dela têm muita qualidade, são, de fato, poemas. Quando você vê aquilo no papel, você vê que tem uma escrita de verdade.

Tribuna – No ensaio que abre o livro, você diz que existe um estilo Adriana Calcanhotto. Que estilo é esse?
Eucanaã: Adriana tem uma poética muito dela. É uma compositora muito próxima da poesia, da literatura, tem um diálogo muito forte com os poetas Ferreira Gullar, Augusto de Campos, Waly Salomão e Fernando Pessoa. É uma compositora que é, antes de tudo, uma leitora. Acho que a grande referência musical dela é Caetano.

Tribuna – O livro traz uma foto da avó e da mãe da Adriana. É a foto que o poeta Waly Salomão queria para a capa do disco “Fábrica de poema”, o terceiro álbum dela. Agora, você volta a essa mesma imagem. Por quê?
Eucanaã: É uma foto linda, estranha, enigmática. Aquelas duas mulheres com aqueles cabelos enormes, aquelas roupas brancas, quase véus, parecem personagens saídas de outro tempo, parecem deusas, musas, são quase que mulheres atemporais. Aquilo parece muito antigo, mas poderia ser uma foto feita hoje. Parece uma cena de filme, um quadro, e é um mundo muito feminino. A Adriana tem uma escrita com a qual as mulheres se identificam.

Tribuna – Por que a divisão em temas?
Eucanaã: Foi uma maneira de dar conta do universo de temas que aparecem nas canções dela e também de fazer com que as canções aparecessem de maneira não cronológica. Eu quis abandonar o formato de CDs, porque isso seria um pouco voltar ao mundo da música. O fã da Adriana ia ouvir aquela música, lembrar dela, ouvir a outra, a outra, e ia ficar com a música na cabeça. Eu queria limpá-lo para que ele se tornasse um leitor e não um ouvinte. Quero que as pessoas consigam ler, como se aquilo tivesse o frescor de uma coisa nova.

Tribuna – Suas crônicas em “O Globo” traziam questões, às vezes, íntimas. Até que ponto as motivações íntimas despertam a sua criação? O que te inspira?
Adriana:  Os textos no “Globo” trazem um olhar de crônica, uma prosa ligeira. No jornal, no dia seguinte, aquilo já se foi. Gosto desse gênero. Já vi muitos compositores dizerem isso. Todos nós entendemos quando um outro fala que aquilo que ele escreve é um pouco da vida, um pouco inventado, um pouco copiado. Enfim, é uma mistura de coisas. Às vezes, você lê um poema, e aquilo te inspira a fazer um filme, um desenho, uma coreografia. Qualquer coisa me motiva.

Tribuna – Há algum projeto em andamento?
Adriana:  Sabe que tenho mais projetos de coisas para criança, de antologias, de textos bacanas? Já fiz uma antologia de poetas brasileiros, depois fiz uma antologia de haikai. Gosto muito de fazer esse tipo de trabalho. Em novembro, vai sair uma coletânea de poetas contemporâneas, de uma geração que é influenciada pelo Eucanaã. Eles também fazem parte das minhas referências. Tenho visto a quantidade de livros que saem de poesias e a qualidade deles. Não só em livros, mas tem poemas em blogs, nas revistas eletrônicas, nos saraus. É muita produção. Então, fiz esse arranjo assim, como se eu fosse, em vez de levar quarenta livros para as férias, levar um só.

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