Continuar é preciso
Parceria e continuidade. Com estas duas palavras, a nova diretora do Forum da Cultura, Márcia Falabella, define como será sua gestão, que começou, oficialmente, no final de junho. Em 1986, a então assessora de comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora chegou ao casarão da Rua Santo Antônio, que abrigava a antiga Faculdade de Direito, com o único objetivo de realizar o sonho de fazer parte da trupe do Divulgação. Depois de acumular mais de 50 peças no currículo, incluindo prêmio como melhor atriz no Festival Nacional de São José do Rio Preto, pela montagem de A escada de Jacó, e ter concluído o pós-doutorado em Estudos Teatrais na França, a atriz recebe aquele que é considerado o papel mais desafiador de sua vida: dirigir um centro cultural, que abriga ensino, pesquisa e extensão em um só lugar. Desfecho de um espetáculo que entrou em cartaz há 26 anos. A gente sempre tem uma ansiedade, porque nunca foi um projeto meu. O que eu sinto nesse momento, além do peso e da responsabilidade, é um sentimento de estar servindo à UFJF. Se eu puder ser a universidade nesse sentido, é o que eu me proponho a fazer.
Durante 14 anos, o espaço foi conduzido pelo professor e diretor do Divulgação, José Luiz Ribeiro. Neste período, a casa foi sede do Centro de Estudos Teatrais Grupo Divulgação, que está lá desde 1971, abrigou o Museu de Cultura Popular, a Galeria de Arte, o Coral Universitário e, recentemente, o curso de Especialização em Comunicação e Arte do Ator. Como ocorre em toda troca de postos de confiança, fica a cargo da nova gestão decidir se os próximos anos irão se pautar pela permanência do que já foi realizado ou pela mudança. Posso dizer que eu testemunhei aqui uma prática cultural das mais felizes, das mais vitoriosas. O meu anseio é estar à altura de continuar com aquilo que já é feito. A gente tem dois caminhos. Primeiro é a preservação do patrimônio. É uma construção antiga, que requer um olhar especial. Quanto à política e produção cultural, a ideia é de continuação. Não vejo motivo para mudar aquilo que já está dando certo há algum tempo. É continuar e, dentro das possibilidades, ampliar estas ações.
Segundo Márcia, um dos méritos da gestão anterior foi transformar o Forum num espaço integrado – quando o público vai ao teatro, passa pelo Museu de Cultura Popular e pela Galeria de Arte – e, consequentemente, numa vitrine. Temos uma equipe formada, que vai de vigilantes a bolsistas. Todos que estão aqui vestem a camisa da casa. Eu acho que é assim que tem que ser, começar primeiro com o que está aqui dentro e depois levar até as pessoas. Isso faz com que o Forum da Cultura seja, hoje, uma grife dentro da universidade e da cidade.
Apesar de o local estar em plena atividade, há vários anos sofre com problemas de infraestrutura, como falta de elevador e ar-condicionado, o que acaba gerando dificuldades de acessibilidade. Com o projeto pronto, faltando somente a parte elétrica, Márcia Falabella diz que a obra deve durar cerca de seis meses. De acordo com a diretora, tudo já está direcionado para que a reforma seja feita, mas a greve dos funcionários da universidade é um obstáculo para sua realização.
Aposta em sala de vídeo
Márcia Falabella destaca que o fechamento do calendário do Forum, no segundo semestre, depende do andamento dos trabalhos. As salas estão completas. O museu necessitaria de, pelo menos, mais um andar. Precisaríamos também triplicar o número de funcionários. Gostaria, sim, de colocar em prática um desejo antigo do Zé (José Luiz), que é ter uma sala de projeção de filmes. Como o Forum tem o perfil de ensino, pesquisa e extensão, poderia criar outras vertentes em cima disso. É uma ideia antiga que acho totalmente viável.
A abertura do teatro para novas companhias se apresentarem é, na visão da atriz, uma questão a ser discutida, pois o espaço é mantido com o suporte dado pelo Grupo Divulgação. Não temos técnico de som, nem de palco. Todas as vezes que tivemos outros grupos aqui, eles acabaram afetando o patrimônio. Nós tivemos uma companhia que cortou o cabo de aço do teatro, e, quando fomos refazer a cena de uma procissão, em um dos nossos ensaios, as barras de ferro da cenografia caíram. Também tivemos casos de pessoas que trouxeram lâmpadas queimadas para trocar pelas do nosso spot. Neste sentido, da parte do teatro, é o Divulgação que dá todo o apoio e não a universidade. A nossa expectativa com a reforma é que tenhamos essa equipe técnica para podermos intensificar a programação e reaproveitar o espaço.
Conforme José Luiz Ribeiro, a pauta do teatro, quando tudo está funcionando normalmente, é de 122 espetáculos por ano, o que significa que a produção da casa está sendo escoada. Como a cidade tem pelo menos 14 outros locais, eles precisariam também encher de tal maneira que pudessem escoar. E que as pessoas, também, pudessem lutar pelo Paschoal Carlos Magno, que está completando 30 anos de espera, diz o diretor do Divulgação.
Construir a própria casa é o melhor caminho para se ter um teatro de qualidade, aponta Márcia Falabella, ressaltando o trabalho pioneiro do Divulgação, que transformou o antigo salão nobre da Faculdade de Direito em um teatro. Os outros grupos também deveriam cavar seus espaços. É claro que, quando tivermos possibilidade na programação da casa, suportes técnico e humano para isso, haverá a possibilidade de discutirmos a abertura do espaço. Mas é muito legal quando vemos, por exemplo, a luta do Marcos Marinho no Mezcla, que é um espaço que tem a cara dele. Os meninos do Gutierrez fazendo o trabalho deles em uma casa no Granbery. É extremamente enriquecedor você criar várias vertentes, estéticas, linguagens, identidades para aquilo que é o teatro de Juiz de Fora.
Exemplo a ser a ser seguido
Ao contrário do que algumas pessoas podem pensar, a mudança não altera em nada a vida de Márcia Falabella. Apesar de ter se tornado diretora somente agora, frequentar o Forum da Cultura, diariamente, já faz parte de sua rotina. Hoje, ela se divide entre os palcos e as aulas na Faculdade de Comunicação da UFJF e no Centro de Estudos Teatrais Grupo Divulgação. Vou seguindo o modelo do Zé, que esteve aqui este tempo todo e foi professor e ator. Eu acho que é possível conciliar tudo, uma vez que estamos aqui na casa o tempo inteiro. O Forum atualmente é mais a minha casa do que onde eu moro.
Mesmo não estando mais à frente da direção, José Luiz permanece no Forum da Cultura. Além de continuar como diretor do Grupo Divulgação, a convite do reitor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Henrique Duque, ele vai trabalhar em um projeto, dentro de um plano de desenvolvimento para assessorar a nova diretora. Recebo uma bolsa para fazer trabalhos com ações específicas nesse campo da cultura. A professora Márcia vai ficar com todo o tino administrativo, e eu vou pensar ações que possam ser realizadas aqui. Eu continuo como membro dos projetos, porque eles são uma integração entre o Centro de Estudos Teatrais, a Faculdade de Comunicação e o Forum da Cultura. Como responsável pelo Centro de Estudo, continuo dando aula, mesmo porque a metodologia utilizada com a terceira idade foi criada aqui e faz parte da cartografia do teatro brasileiro. Pesquisa não se interrompe.
José Luiz considera a escolha de Márcia Falabella para o cargo como uma gentileza por parte do reitor da UFJF, pois é uma coroação do trabalho que já vem sendo desenvolvido há anos. Ele também enxerga, nesta mudança, uma possibilidade de renovação. Sobre uma possível influência direta na nova administração, ele é taxativo. A Marcinha pensa e manda de uma maneira direta, que não é a minha maneira de pensar. Embora as pessoas achem que, pelo fato de eu estar aqui, ela vai fazer o que eu mandar, isso não é verdade. A gente também discorda muitas vezes. Eu acredito que o Forum ganha com a chegada dela. Eu fui, num certo sentido, a continuação de uma outra gestão. Já ela está sendo escolhida pelo reitor. Talvez seja mais ouvida, no que diz respeito a conseguir material, por exemplo. A minha influência sempre será positiva. Posso dizer que senti um alívio ao passar o bastão. Durante este tempo todo, eu me preocupei em dar uma cara para a casa, e, com isso, o teatro ficou em segundo plano. Quem mais olhou pelo Divulgação, claro que eu não deixei de olhar, foi a Marcinha. Ela capitaneou muitos projetos. Agora, chegou a hora de trocar. É uma situação muito feliz. A Marcinha tem um outro olhar e sabe dizer não com mais simpatia, finaliza.









