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Alice reloaded


Por JÚLIO BLACK

20/05/2016 às 07h00- Atualizada 20/05/2016 às 08h24

O mundo nonsense criado por Lewis Carroll é revisitado pelos bonecos do Giramundo e pelos músicos do Pato Fu em espetáculo no Cine-Theatro Central

O mundo nonsense criado por Lewis Carroll é revisitado pelos bonecos do Giramundo e pelos músicos do Pato Fu em espetáculo no Cine-Theatro Central

“Alice no País das Maravilhas”, clássico literário nonsense do século XIX do britânico Lewis Carroll, rendeu inúmeras versões em filmes/quadrinhos/peças devido à riqueza de cenários e personagens imaginados pelo seu autor. Território mais que fértil para que dois grupos de atividades diversas unissem esforços, então, para levar ao palco o mundo fantástico retratado no livro publicado pela primeira vez em 1865: é o caso dos mineiros do Giramundo e Pato Fu, que apresentam, neste sábado, no Cine-Theatro Central, o espetáculo “Alice live”. A atração junta a tradição do teatro de bonecos do Giramundo, responsável pela adaptação do texto para o teatro, ao pop-rock fora de órbita do quinteto surgido nos anos 90, com o guitarrista John Ulhoa responsável pela direção musical de “Alice live” e Fernanda Takai emprestando sua voz para a protagonista.

“Alice live” é o passo seguinte de “Alice no País das Maravilhas”, que estreou em 2013 com a trilha sonora do Pato Fu executada em playback. A grande diferença do espetáculo anterior é que desta vez o grupo vai subir ao palco e interpretar as canções ao vivo, junto aos bonecos do Giramundo (65 bonecos, no total), vídeos de Ulisses Tavares, montagem de cena de Beatriz Apocalypse e a voz gravada do mutante Arnaldo Batista para o personagem Chapeleiro Louco. Serão mais de 20 pessoas no palco – entre músicos, marionetistas, atores e técnicos -, sob a direção de Marcos Malafaia.

Esta não é a primeira vez que o Giramundo e o Pato Fu dividem o palco. A trupe de teatro de bonecos foi convidada no início da década para participar da turnê do álbum “Música de brinquedo”, que prossegue até hoje. Para John, foi o desdobramento de uma amizade surgida há muito tempo. “Eu conheço os caras do Giramundo desde os anos 80, quando tinha outras bandas. A primeira vez que trabalhamos juntos, inclusive, nem foi com o ‘Música de brinquedo’, pois eles participaram com os bonecos do lançamento de um dos primeiros discos do Pato Fu, fazendo uma performance. Depois os convidamos para a turnê do ‘Música de brinquedo’, e aí ficou essa vontade fazer mais coisas juntos, e estamos realizando isso agora. É o outro lado da moeda do que realizamos com eles”, diz o guitarrista, em sua primeira aventura como compositor de uma trilha teatral. “Já fizemos outras coisas, como uma música para uma peça aqui, um efeito especial para outra ali, mas nunca algo desse tamanho.”

John ficou responsável por fazer a trilha sonora, que reúne mais de 20 canções (entre as músicas cantadas por Fernanda Takai e as que servem de background para a peça), e que teve participação dos membros de sua banda nas gravações. Desde o início, segundo ele, ficou a ideia de se fazer o espetáculo com o Pato Fu tocando ao vivo, o que só foi possível a partir de 2015. “Eles estrearam com a trilha gravada porque já seria complexo o suficiente dessa forma, devido ao tamanho do espetáculo. Tivemos que esperar o ‘Alice…’ assentar para então começarmos a aumentar a encrenca (risos), ver se poderíamos incluir mais alguma coisa”, conta.

Inspiração a partir de um ‘texto louco’

Para o guitarrista, o fato de contar com um texto rico como o de Lewis Carroll foi inspirador para compor a trilha sonora, até facilitando o trabalho. O mais difícil, acredita, era não ser mais um na multidão que já revisitou a obra do escritor inglês. “Você tem um ponto de partida muito rico”, afirma. “O desafio está em você não repetir o que já foi feito, pois não é a primeira vez que se faz uma montagem ou um filme ligado à história. Não é que seja um desafio criar música a partir de um texto como ‘Alice…’, pois ele dá milhares de ideias. Como é um texto louco, viajante, você pode viajar na música também.”

Nesse contexto, outro desafio seria saber se um ouvinte desavisado reconheceria de imediato o Pato Fu nosso de cada dia nas canções que fazem parte de “Alice live”. “Acho que há muitos elementos em comum, apesar de o Pato Fu ter um som muito versátil. Mas acho que a questão nisso aí é a Fernanda. Se você ouvir uma música diferente na voz dela vai saber que é do Pato Fu”, acredita. “De certa maneira, as músicas da peça parecem com as da banda.”

Surgido nos primórdios da década de 1990, o Pato Fu é o tipo de banda que consegue agradar todas as idades, e nisso John vê similaridades com o espetáculo que adapta o livro de Lewis Carroll. “‘Alice live’ é o tipo de espetáculo que tem o público infantil como alvo, mas atrai outros públicos também, assim como a música. Há muita referência à música pop e a coisas mais sérias também. Você pode ver e ouvir com olhos e ouvidos de criança, mas também de adulto”, analisa. “A história original tem vários níveis de entendimento, e é interessante porque os pais podem ir sozinhos também, e por isso você não vê pais apenas esperando o espetáculo acabar (risos).”

Um teatro que se reinventa

Conhecido pelo seu trabalho com teatro de bonecos, o Giramundo foi criado em 1970 pelos artistas plásticos Álvaro Apocalypse, Terezinha Veloso e Madu. Desde então, o grupo já apresentou 35 espetáculos marcados por uma evolução constante, fosse na pesquisa ou na incorporação de outros elementos ao trabalho, como música, animações, teatro de sombra, cinema, dança e escultura cinética.

O Giramundo define o seu trabalho como um “teatro plástico”, em que os elementos cênicos são criados a partir de desenhos, pinturas e esculturas a partir do ofício do marionetista. Além de clássicos da literatura, o grupo já produziu espetáculos baseados em óperas, eventos históricos, com viés ecológico e educativo, entre outros. Atualmente, as atividades do Giramundo não se resumem apenas ao teatro, incluindo museu, escola e estúdio de animação.

ALICE LIVE

Com Giramundo

e Pato Fu

Sábado, às 20h30

Cine-Theatro Central

3215-1400