Querido (e atual e virtual e onipresente) diário
Março de 2016. Escrevo enquanto pesquiso a lista dos livros mais vendidos da última semana. Paro. Observo que na contagem do portal PublishNews, especializado no mercado editorial, três títulos que se baseiam em diários ocupam a lista geral, de obras nacionais e internacionais, na segunda semana deste mês. Retorno às palavras até ser fisgado pelas redes sociais, onde acompanho os últimos passos das pessoas em minha volta. Detalhes, sórdidos ou não, opiniões, válidas ou não, que acabam por fazer parte da minha vida, também exposta, ainda que numa medida que encaro como menor. Faço esse diário de bordo, em primeira pessoa, espelhando essa realidade que incorporou e naturalizou os registros de vida como linguagem contemporânea.
Bel completou 9 anos na última sexta-feira. Seria uma criança como todas as outras não fosse o fato de ser conhecida e acompanhada por milhões de outros pequenos que ela sequer viu. Com seu canal “Bel para meninas”, no YouTube, alcançou mais de 1,5 milhão de inscritos e pouco mais de 600 milhões de visualizações, três vezes mais que a população brasileira. Nos vídeos que variam de dois a 30 minutos, a carioca Bel ensina receitas culinárias, maquiagens e brincadeiras, além de contar trivialidades de sua infantil rotina, como um tombo no shopping por estar andando de tênis com rodinhas.
“É um conteúdo totalmente controlado por mim e pelo pai dela. Não vai nada para o YouTube que a gente não queira. Nas redes sociais, sou eu quem respondo e eu quem faço os vídeos com ela”, conta a mãe, Fran, que também assina o livro “Segredos da Bel para meninas” (Editora Gente). Lançada em fevereiro, a obra já é o quinto título brasileiro mais vendido no país. “Ela sempre falou que queria ser famosa, e o YouTube serviu para saciar essa vontade dela. O foco do canal é influenciar de forma positiva. Aos 6 anos, por exemplo, ela cortou o cabelo, que já estava na cintura, para doar para crianças com câncer. Ela tirou uma foto segurando o cabelo e centenas de meninas, por iniciativa dela, também cortaram.”
Ana de Cesaro também conquistou mais de dez milhões de visualizações com seu canal “Tá, e daí?!” tentando servir de exemplo, ou, segundo suas palavras: uma influenciadora e criadora de conteúdo. “Sei que as pessoas se atraem pela minha história por causa da identificação que têm comigo. Elas se veem em mim, nos meus problemas, nas minhas lutas e vitórias”, diz a mulher de 27 anos, que perdeu quase 40kg aos olhos de toda a rede de computadores e agora lança o livro “Ta, e daí?! – A vida por mim”. Desconfortável? “Expor minha vida da forma como faço (há 5 anos e com tantos detalhes) é lidar constantemente com o desconforto de ter pessoas julgando cada passo que dou, se engordo ou emagreço, onde vou ou o que faço. Porém, é o ônus do bônus.”
Tempos de selfie
“A prática dos blogs que são associados aos diários íntimos engendra elementos verbais e não-verbais que retomam, na qualidade de ruínas do enunciado genérico, a intimidade pressuposta na prática diarista, mas segundo efeitos de poder distintos. Diferentemente da ‘busca de si’ e do distanciamento do olhar alheio, o funcionamento discursivo dos blogs visa à busca do outro, com a finalidade de fazer ver e ser visto na rede”, defende a professora do departamento de estudos linguísticos e literários da Unesp, Fabiana Cristina Komesu, em sua tese de doutorado intitulada “Entre o público e o privado: um jogo enunciativo na constituição do escrevente de blogs da internet”.
“A profusão de textos sobre as vidas individuais dos sujeitos na internet”, segundo a pesquisadora, “não implica variedade de aspectos ou perspectivas, mas a raridade de modos de dizer a vida e de refletir sobre as relações com o outro na sociedade. Esta análise aponta, portanto, para a necessidade (incessante) de falar de si, radicalmente fundada na impossibilidade (histórica) de dizer o novo, o revolucionário, o libertário na e pela linguagem, como esperado em textos veiculados na internet.” Para Rudá Ricci, doutor em sociologia, a proliferação de “diários públicos” é um preocupante fenômeno.
“É um fenômeno de uma superexposição como se fosse uma novela ou um teatro. É um selfie, e não é normal porque é algo posado, que se confunde muito com a ideia de dramaturgia”, aponta Ricci, defendendo que “o que menos o mundo é é real”. Diferentemente do que advoga vlogueiros e blogueiros, Ricci fala de uma realidade construída a reforçar espelhamentos e repelir diferenças. “A gente começa a ter importância e medir o sucesso pelos números e não pelo impacto do feito no comportamento. Essas pessoas ficam presas às imagens que estão vendendo”, comenta. “É um diário construído.”
Tempos de fúria
A Ana de “Ana de Amsterdam” é a mesma Ana que assina Ana Cássia Rebelo. O livro, que estourou em Portugal e chega ao Brasil pelo selo Biblioteca Azul, da Editora Globo, revela um diário que, pela despretensão em tornar-se relevante faz-se, então, urgente. A narrativa que ocupa menos de 200 páginas é extraída do blog homônimo que a moçambicana radicada portuguesa criou para organizar consigo os resultados de um casamento tóxico. Uma escrita que nasceu como fôlego, nada mais. “Atrás deste livro, está uma mulher cheia de falhas, que se expõe cruamente, não raro com uma certa dose de autoflagelação, uma mãe que deu mil voltas ao seu interior e tem coragem de nos revelar espontaneamente o seu inferno íntimo e o que de mais secreto ele tem”, destaca João Pedro George, organizador da edição brasileira.
Sensível e delicada, a obra revela uma mulher, sobretudo, humana. Raridade. De acordo com o sociólogo Rudá Ricci, a regra tem sido outra, conforme aponta o livro “Smart”, de Frédéric Martel, que mostra que a cada 48 horas criamos on-line tantos conteúdos quantos foram criados desde o surgimento da humanidade até 2003. “Ele prova que, ao contrário do que se pensa, a internet gerou mundos fechados, completamente paralelos e competitivos. Vivemos em tribos fechadas, que não dialogam entre si. Socialmente, temos seguidores fanáticos e ídolos intolerantes”, defende Ricci, chamando atenção para uma juventude que se cria “fluida, provisória, sem densidade, iconoclasta, espetaculosa e pouco reflexiva”.
As vidas nos “diários públicos” apontam, segundo Ricci, para uma geração que fala em moralidade, mas agride o que não é espelhado. Atual, não?! “Essa lógica é autocentrada e pouco reflexiva, justifica-se por si mesma. É um raciocínio e uma linguagem circular. Destruímos, portanto, o conceito de sociedade e civilização e substituímos por comunidades competitivas.”
‘Dá saudade ter um pouco de privacidade’

Kéfera soma mais de 600 milhões de visualizações no YouTube
Ela está com reforma em casa. Não alterou nada no quarto, mas resolveu mexer na sala. Tem pregado prateleiras, lixado parede, tampado buracos, passado massa corrida, feito todo o trabalho de “mulher da obra”. E tem, por isso, morrido de sono. Há pouco tempo, um cara na esteira ao lado da dela disse que ela corria feito mulherzinha, e o tempo fechou para ele. Ela anda com álcool em gel para onde vai por ter “nojinho” de (quase) tudo. Bastam três vídeos para saber algumas intimidades de Kéfera Buchmann, uma curitibana de 23 anos cujo canal no YouTube – “5incominutos” – reúne superlativos 7,8 milhões de inscritos e soma mais de 600 milhões de visualizações.
Presente no Facebook, Instagram, Twitter, Vine e Google+, Kéfera também acaba de chegar às prateleiras com seu “Muito mais que 5inco minutos”. Publicado pelo selo Paralela, do gigante grupo editorial Companhia das Letras, o título já encabeça a lista dos best-sellers nacionais de janeiro, com o terceiro lugar na categoria não-ficção, atrás, somente, de duas obras do Padre Marcelo Rossi. Muito? Ainda não! Kéfera também prepara um filme e assina uma série de produtos, de comidas fit a jóias, passando pelos esmaltes que acabam de ser anunciados para este mês. Em entrevista por e-mail à Tribuna, a vlogueira, formada atriz, com passagens pela telinha e pela telona, fala do surpreendente poder da internet – de alçar rotinas normais a eventos de grandes proporções – e conta: “Sim! Já fui muito tímida!”.
Tribuna – Em algum momento sua exposição na rede lhe causou desconforto?
Kéfera Buchmann – Às vezes, dá saudade de ter um pouco de privacidade e ser tratada de uma maneira mais normal… Às vezes, você precisa de um momento que seja seu e do seu namorado, por exemplo, um cinema… E aí faz falta ser desconhecido e poder curtir esses programas numa boa.
– O que te desperta o desejo de gravar um vídeo? Tudo pode ser um tema?
– Tudo pode ser um tema! Totalmente! Já fiz vídeos falando de diversas coisas, desde assuntos mais sérios até coisas “bobas”. O que me desperta o desejo é saber que tem muitas pessoas que esperam por isso ansiosamente toda semana. Eles me cobram bastante, não posso ficar sem postar jamaissssss.
– Você é um dos maiores nomes da internet brasileira. Essa é linguagem da sua geração?
– Não sei o que as pessoas estão entendendo como linguagem da nova geração… Trouxemos um formato diferente e novo através da internet, mas não somos os únicos que podem ensinar coisas.
– O que te diferencia dos astros de TV?
– A proximidade que acabamos tendo com quem nos assiste.
– As artes cênicas te ajudam a encarar o vídeo? Há muito da atriz nos vídeos?
– Ajudaram a vencer a timidez (Sim! Já fui muito tímida! hehehe). Nos vídeos tem a Kéfera que dá opinião e a que brinca de atuar.
– Como foi escrever um livro?
– Foi maravilhoso. Eu me senti conectada com o público. Adorei ouvir o feedback deles.
Confira entrevista completa com as vloqueiras Ana de Cesaro e Fran Cerer, mãe da Bel.










