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Entrevista/João Roberto Ripper, fotojornalista


Por RENATA DELAGE

19/08/2012 às 07h00

As pessoas têm uma teimosia maravilhosa. Uma dignidade incrível em resistir. Convicto de sua crença no respeito aos direitos do ser humano, João Roberto Ripper persegue o belo em suas incursões ao redor do mundo. Em cada comunidade, o fotógrafo descobre fazeres, realizações de sonhos. Mesmo em contextos conflituosos, Ripper é capaz de enxergar humanidade, que vibra em cores, luz e sombra. As pessoas são bonitas independentemente do que sofrem, afirma. Fotojornalista há mais de 20 anos, atuou em grandes jornais, agências de notícia e revistas do país e do exterior, a exemplo de O Globo, Veja, Washington Post, New York Times e Le Mond. Ripper ministrou, ao longo da última semana, a oficina Fotografia documental humanista: Bem-querer, realizada pelo projeto Foto12.

O fotógrafo é fundador do projeto Imagens da Terra, centro de documentação que faz circular nacionalmente dados da realidade de violência urbana e rural. O projeto é inspirador do Imagens do povo, iniciativa que, desde 2004, incentiva o debate e a pesquisa fotográfica na Favela da Maré, no Rio de Janeiro, formando e inserindo fotógrafos populares no mercado de trabalho. ONG nenhuma salva ninguém de nada. As pessoas é que se salvam. O resultado do trabalho se transforma em um banco de dados que retrata da vida do homem do campo ao habitat indígena, da seca do Nordeste ao ambiente urbano, do trabalho escravo de carvoeiros às crianças no Mato Grosso do Sul.

Para Ripper, tão importante quanto denunciar é mostrar a beleza das populações que sofrem algum tipo de censura, segregação e estigmatização. Quando você denuncia algo, mostra uma pessoa. Uma pessoa que vive, que anda, se alimenta, sente o vento, ama. Sempre vai existir uma expressão, um sentimento. Quem é retratado estará sempre na mesma luz que qualquer outro. Só é preciso aprender a olhar.

– Tribuna de Minas – A sensibilidade do olhar pode ser trabalhada? Como exercitar esse olhar para si e para o outro?

– João Roberto Ripper – Sim. É possível trabalhar esse olhar a partir de um questionamento: como você pode se colocar dentro da vida do outro, diante de sua dor e de sua alegria? Você fotografa o outro e você é sempre o outro de alguém. Trabalhar a sensibilidade é se abrir para entender que a fotografia documental é a fotografia na qual você aprende e reconhece valores. Cada pessoa tem várias histórias. O perigo de uma história única é ela se tornar a única verdade divulgada sobre uma pessoa, uma comunidade, um povo. Um exemplo muito claro disso é o conceito que fica sobre favela. A sociedade aprendeu a ver a favela – e várias outras comunidades, como índios, quilombolas, trabalhadores rurais – pela ausência de quase tudo e pela presença da violência. Como se fossem eles, ao invés de vítimas, agentes dessa violência. Na verdade, cerca de 0,5% da população favelada está envolvida em alguma ilegalidade. Não é um número muito diferente da população em qualquer outro ponto da cidade.

– De que forma é possível quebrar esses estereótipos?

– Buscando o que existe de bonito nessas comunidades. Não só físico, mas bonito no fazer. Os fazeres são as realizações dos sonhos dessas pessoas. A gente está acostumado a entender como beleza o padrão da classe média, mas ela existe em todas as classes. As pessoas que são informadas – e são informadas por nós, jornalistas – absorvem conceitos da sociedade. Quando você só recebe um tipo de informação, vai formar seu conceito baseado nessa informação. Se não tem outras histórias, acaba concordando com medidas tão fortes tomadas pelos governos e pelos poderes, como aceitar a existência de um caveirão. O que faz a informação circular só de determinada maneira é o poder das classes econômicas, das classes políticas, entre outros. E esse poder é costurado pela mídia. Para quebrar isso, é preciso buscar novas histórias, permitir que aflorem essas belezas.

– E como extrair beleza da realidade?

– Um trabalho lindo dos fotógrafos populares do Imagens do povo teve como tema as lajes construídas nas favelas. Uma das críticas é que é um absurdo não haver arquitetos e engenheiros construindo as casas. Qual é um dos principais direitos do ser humano? O direito à habitação. Os pedreiros que constroem as casas de todo mundo são os mesmos que constroem as casas na favela, porque muitos são moradores das favelas. Essas lajes também são espaços de cultura, lazer, encontro de arte e resistência. Se a família crescer, está preparada para subir mais um andar. Tudo depende da forma de ver. Se quiser olhar pela exclusão, vai estar sempre condenando.

– Qual é o elo fundamental entre fotografia, comunicação e direitos humanos?

– Essa busca do belo como uma das ferramentas para se quebrar estereótipos. A comunicação é um direito humano fundamental. Ele está representado de duas maneiras: o direito adquirido e legítimo e sagrado do jornalista, que deve ser respeitado, e o direito de investigar, de querer saber sobre o que você quer se informar, um direito universal. Um direito não pode ser censura do outro.

– Que características dos fotógrafos populares formados pelo projeto Imagens do povo destacaria?

– A alegria. É um trabalho estupendamente alegre, mesmo quando documenta contextos sociais fortes. É, por exemplo, o registro do pai guardando a filha no colo para correr nos confrontos com a polícia. Existe uma proteção, um carinho nessa imagem, que são maiores que a violência. São retratadas as pinturas sacras dentro das favelas, também as não sacras, o esporte, as casas, as relações, as pessoas. Eles têm esse olhar fraterno quando saem da favela e vão buscar representar as realidades brasileiras. No fundo, são iguais a qualquer pessoa, mas com uma conquista muito grande, porque as oportunidades são poucas nesse território. Nenhuma organização tira ninguém de nada. Você se salva ou vive a sua vida feliz porque você quer.

– Qual é o espaço ocupado pela fotografia humanista na cena contemporânea?

– É um espaço de teimosia. Se a gente documenta pessoas que têm a fantástica teimosia de resistir, é preciso teimar que essas imagens têm que ter espaço. São elas que nos fazem refletir sobre o belo das pessoas, sobre as injustiças, enfim, sobre a vida. Qualquer arte deve fazer refletir, seja conceitual, contemporânea, humanista. Arte não tem que disputar nada, nem sair no tapa. Elas têm que se abraçar.