Outras ideias: com Maria do Carmo Gomes Barbosa

Há 30 anos, artista dá aulas individuais de desenho e pintura
O tampo e a base da mesa redonda, bem como a estrutura e o estofado das cadeiras, são de um azul usado por Van Gogh. Uma paleta que faz lembrar o quadro “A noite estrelada”, do pós-impressionista. Sobre a mesa, um vaso azul escuro com girassóis de plástico. Faz lembrar a famosa série “Doze girassóis numa jarra”, do mesmo pintor. Sobre os pés, um tablado de madeira, pintado de amarelo. Ao fundo, uma parede em azul royal, com uma grande janela que dá vista para a Halfeld, na altura da esquina com a Batista de Oliveira. A luz que adentra o ambiente faz tudo parecer pintura. Sem erro. Tudo o que cerca Maria do Carmo Gomes Barbosa, uma simpática senhora prestes a completar sete décadas de vida, ou é desenho ou é pintura.
Nas telas, DuCarmo, mesmo nome do qual a chamam três gerações que conheceram a sala de sua casa, onde aprenderam a transformar o branco do papel com um desenho. “Em 1979, amigas me pediram para dar aulas para os filhos delas, ensinando a desenhar. Em 1986, montei o primeiro curso e levamos a mostra para o público, que começou a se interessar. Com os desgovernos do Brasil, peguei uma época, o Governo do José Sarney, quando não havia o fomento da arte, e o interesse era muito maior pelo futebol. Nosso povo vem empobrecendo”, recorda-se a mulher, política no discurso e na resistência do ofício. Política na mania de transformar lixo em decoração. Política no lamento por uma cultura tão desestimulada.
“Apenas bato papo e ensino as técnicas. As ideias são deles. Eles são meus filhos. Tenho alunos que estão em Paris, fazendo história da arte em Sorbonne. Alguns seguiram arquitetura”, enumera ela, que nas últimas três décadas vive entre a própria produção e o incentivo ao trabalho do outro. Orgulhosa, aponta para um desenho que um deles fez de seu rosto, em grafite, e outro desenho, grande, a criticar a igreja. Embranquecidos os fios dos cabelos, o brilho nos olhos mantém-se o mesmo. “Atualmente estou com a Sara, que é irmã da Débora, que foi minha aluna, que é filha da Clara Maria, e neta de outra, que também foram minhas alunas. Peguei três gerações. Estou velhinha”, ri.
Menina descalça
Na tela que fica logo na entrada de seu apartamento, onde o irmão lhe construiu uma espécie de galeria para suas obras, DuCarmo mostra o quadro de uma menina sentada na carteira da escola, sem sapatos. “Sou filha de farmacêutico. Meu pai tinha dinheiro, mas ele falava: ‘Vocês vão todos para colégio público, para sentir o que é a vida'”, lembra a filha de Santos Dumont, que chegou a Juiz de Fora aos 19 anos, para concluir o científico no Granbery. “Estava me preparando para fazer medicina, mas não fiz e acabei virando enfermeira. Também trabalhei em escritórios e, em 1968, fiz Normal. Acabei não fazendo curso superior”, diz a artista sem professores. “Autodidata pura e simples”, sorri ela, que formou sua própria Patotinha – A Patotinha da DuCarmo. “Fui na onda da Simoni”, brinca.
Natureza-morta
Num outro canto, paisagens habilmente pintadas a óleo. Como moldura, escolheu uma espécie de janela. DuCarmo olha o belo. Coisa de família. “Mamãe teve quatro filhos que desenham. A gente tem paixão. Sou de família de muitos artistas músicos, mas eu não toco nem galinha. Muitos desenhistas também. Mamãe brincava que, quando ela era menina, em qualquer aniversário dela chegava uma banda ou uma orquestra, porque todos tocavam algum instrumento. Ela mesma era voltada para o canto lírico”, conta ela, que dá aulas individuais. “Todos se sentam à mesa para desenhar. Meus alunos acham a mesa mágica, mas é o talento deles. Quando é pintura a óleo ou acrílica, eles começam técnicas de cavalete e tudo mais”, explica. A didática, ao longo dos anos, não se alterou. A paisagem, porém, é outra hoje. “Tenho pouquíssimos alunos, oito apenas, entre adultos e crianças.”
Retrato de um menino
Premiado no Japão, um dos quadros que ela preserva em sua casa revela sua generosidade. Um retrato de uma criança entristecida. “Esse garoto era um menino de rua. Foi trazido para mim em 1980. Ele perguntava: ‘Hoje tem xoja (soja)?’. E eu respondia: ‘Hoje vamos de comida vegetariana e tem soja sim’. Era um menino muito pobre, que vinha com as roupas rotas. Como eu tinha muitas avós a quem dava aula, elas davam a ele bermudas, camisas, cuequinhas. Mas ele voltava sempre maltrapilho. Um dia perguntei: ‘Querido, porque você vem com essas roupas velhas, se nós te damos roupas boas?’ Ele falou: ‘Minha mãe vende para nós comermos'”, conta DuCarmo, que apresentou ao pequeno a fotografia, a Coca-Cola, a pipoca e a arte. “Encontrei com ele na rua. Um rapaz bem vestido, trabalha, é marceneiro. Fiquei feliz.”









