O que é, o que não é – e o que passou a ser

‘Entre o sonho e a força: Eis a força dos símbolos’, de Merien Rodrigues, 2016
A arte pode estar em qualquer lugar, ser criada a partir de qualquer objeto; para tanto, basta ao artista, ao criador, deixar fluir sua inspiração por meio dos mais inusitados formatos que podem lhe ser oferecidos. É a partir dessa perspectiva – que foge da visão ortodoxa que muitos têm em relação ao fazer artístico – que o Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) recebe a mostra coletiva “Palavra+Imagem”, que fica no local até 12 de junho. São 46 artistas de diversas partes do país que criaram obras de arte a partir do livro, que deixa de ser objeto em que podem ser encontradas palavras e ilustrações para dar vazão à criatividade, conferidas na mostra por meios dos mais diversos formatos, tamanhos, cores e propostas de criação.
O projeto surgiu de uma disciplina oferecida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), chamada “Tópicos especiais em processos criativos – Livro de Artista” e realizada em 2010 e 2013 pelas professoras Sylvia Furegatti e Lúcia Fonseca, que também são as curadoras da mostra. Sempre recebendo obras a cada nova exposição (que já passou, além de Campinas, por Uberlândia e Goiânia), a exposição em terras juiz-foranas conta com trabalhos de ex-alunos (Renato Almeida, Laura Françoso, Giuliano Baroni) e também de artistas convidados (Guto Lacaz, Vani Barini, Edith Derdyk).
A professora Sylvia Furegatti explica que o tema central das obras, o Livro de Artista, surgiu durante o Renascimento e voltou a ter destaque a partir da década de 1960, quando a experimentação era o norte de muitos artistas da época. “O livro vem desde o mundo antigo, e no Renascimento muitos artistas passaram a criar ideias, invenções, obras de arte, a partir da ideia do livro, combinando esse formato em que se dava importância à imagem e à palavra”, explica. “Então chegamos aos anos 1960, numa onda de experimentação material e conceitual muito grande que faz com que os artistas investigassem o livro como uma linguagem artística. O Livro de Artista ganha importância nessa época porque passa a ter um tom mais marginal, mas já no início do século vários artistas trabalhavam com isso, como Marcel Duchamp, Henri Matisse e Pablo Picasso, porém com outro olhar, mais lírico e subjetivo.”
“Quando a gente fala de Livro de Artista no mundo atual, não fechamos o livro como referência imediata”, acrescenta. “Os formatos variam muito, vários sequer têm palavras e imagens no sentido convencional das duas coisas. Abrimos assim um universo muito vasto, criativo, híbrido, que é algo muito presente na arte contemporânea. A ideia desse diálogo interlinguagem não é uma exclusividade, mas, desde que o Livro de Artista surgiu, ele sempre foi propositor de diálogo com outras linguagens.”
De acordo com Sylvia, é preciso entender o livro, ainda, “como um objeto da cultura, algo raro, que tem poder, plasticidade, e que organizou as sociedades até pouco tempos atrás. O desejo de saciar nossas vontades com imagens por meio da TV, internet, é bem recente.”
Encontro entre a academia e o circuito de arte
A união de tantos artistas com visões diferentes oferece um desafio: tentar encontrar um ponto que possa dar característica única à exposição. “Uma das características especiais para mim e para Lúcia está no fato de fazermos uma proposta que combina alunos com artistas profissionais do país inteiro. É um grupo de pesquisa que se torna uma exposição que roda o Brasil, e esse trabalho ganhou um carinho especial porque abreviou o caminho entre a sala de aula e o circuito artístico. Ajuda a repensar essa aproximação entre a universidade e a sociedade, de que forma podemos aproximar a formação do artista visual com a realidade do circuito. E vimos que isso seria possível com a disciplina, já na época começamos a formular como seria possível fazer a troca entre alunos e artistas.”
Sylvia comentou, ainda, como se deu o desenvolvimento da disciplina e do processo criativo. “Durante as aulas, falávamos sobre como aquele suporte pode se adequar às questões poéticas do aluno, e fomos ajudando-o a adequar ao seu formato, fazendo uma construção poética. Primeiro vinha o interesse dele em fazer a disciplina, depois trabalhamos priorizando a sensibilidade poética que ele iria desenvolver, e os melhores resultados foram convidados a fazer parte da exposição”, explica a professora, que espera iniciar uma nova turma ainda em 2016.
PALAVRA+IMAGEM
Segunda-feira, do meio-dia às 18h, e de terça a sexta-feira das 9h às 18h. Até 12 de junho
Mamm
(Rua Benjamin Constant 790)









