Tempo oportuno
São João del Rei (MG) – Kairós é um tempo oportuno, propício, um momento de encantamento que ecoa na vida de alguém e pode ser determinante para escolhas futuras. Foi com estas palavras que o professor da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ), Ricardo Coelho, abriu o bate-papo com o artista Hilal Sami Hilal, fazendo referência à temática do 25º Inverno Cultural da universidade, Kairós, um tempo possível. Depois da passagem do cortejo pelas ruas de São João del Rei na manhã do último sábado, anunciando a chegada de mais uma temporada de cultura na cidade mineira, foi Hilal que, durante a tarde, deu o tom do início do festival. Fazer arte é isso: uma troca de oportunidades e experiências. Não adianta ficar só na contemplação, tem que trazer algo para sua vida, acrescentar a sua existência e, sempre que possível, à de outras pessoas. No campus da UFSJ, professores, alunos, participantes do festival e admiradores reuniram-se para ouvir o artista falar sobre sua trajetória nas artes plásticas, psicanálise, suas raízes árabes e sobre ser artista profissional.
Capixaba e morador de Vitória (ES), Hilal é descendente de sírios que se instalaram na cidade no início do século. Podia ter escolhido morar em um grande centro, mas não abro mão do sossego que tenho em Vitória. Morar em uma grande cidade envolve uma angústia constante de ter que conquistar aquele espaço diariamente. Além disso, minha família fez história em Vitória, e isso acabou causando efeito em mim e na minha arte. Trabalhando desde os anos 1970, Hilal sempre teve fascínio por papel e fez questão de aprender a fabricar o suporte, que usava na produção de aquarelas e gravuras, chegando a um resultado diferenciado do obtido com o material pronto. Intensifiquei as pesquisas sobre o papel nos anos 80, depois de uma viagem ao Japão, quando conheci uma artista francesa que tinha uma técnica, e aprendi a fazer papel, depois de várias tentativas consultando a Enciclopédia Universal, diverte-se o artista. Nesta época, ele nem desconfiava que o meio viria a se tornar a própria arte e a identidade de seu trabalho. Um dia um amigo meu me disse: ‘Hilal, você não é pintor. Sua arte é fazer papel’. Foi aí que percebi que era mesmo, e passei e me dedicar a isso.
As pesquisas sobre o material se aprofundaram também com um projeto de extensão idealizado por Hilal, quando era docente na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), o que acabou culminando na fundação da cadeira de Estudo do Papel na instituição. Por causa da universidade, estava sem tempo de me dedicar à arte, então pedi para cumprir parte da carga horária como pesquisador. Assim levei as duas coisas por muitos anos. O período como docente foi muito importante, porque trouxe uma carga reflexiva ao meu trabalho, com a qual eu nunca havia me preocupado. Eu queria era fazer as coisas. Em meados de 1990, com filhos criados, casa própria e a ‘vida encaminhada’, o artista decidiu ser ‘somente’ artista. Pensei: será que vou passar a vida sem saber o que é viver de arte? E resolvi correr este risco; pedi demissão da universidade e fui trabalhar no meu ateliê.
Raízes que gritam
Toda a obra de Hilal é marcada por traços subjetivos muito intensos, o que, para ele, é característica de qualquer expressão artística. No meu caso, é algo muito forte, meu olhar é muito ‘para dentro’. A influência da minha origem árabe, por exemplo, é algo que se impõe, mas de uma forma natural. Acho que isso é uma maneira de me construir como sujeito, por meio da arte, as raízes gritam. Tento escapar, mas não consigo, brinca. Muitas vezes, entretanto, a presença da memória afetiva é literal. Cheguei a fazer uma série de trabalhos com trapos de roupa dos meus familiares e amigos.
A escolha de matéria-prima, a princípio, inusitada, também é marcante no repertório do artista. Ao longo de sua carreira, Hilal vem trabalhando com uma diversidade de materiais, que dão origem a longos rendilhados de papel, com metros de comprimento, e instalações e peças feitas com folhas de ouro e cobre, que perdem todo seu peso de metal e transpiram leveza e sensibilidade. Parte destas obras integrou um dos trabalhos mais proeminentes do artista, a exposição Seu Sami, que bateu recorde de visitação no Museu Vale do Rio Doce, em Vila Velha (ES), com aproximadamente 23 mil pessoas em três meses de visitação, foi uma referência ao pai de Hilal. Percebi que falava muito do meu pai, que morreu quando eu tinha 12 anos. Essa exposição reflete matéria e vazio, luz e sombra, presença e ausência. Foi o pai que a arte realizou em mim.
Mil e uma noites
Com cerca de três toneladas e 300 livros, Sherazade, instalação de Hilal que foi aberta à visitação no sábado, no Centro Cultural da UFSJ, é um mergulho, um abismo no tempo, a marca de uma ânsia pela cronologia, na opinião de Ricardo Coelho, que assumiu a curadoria da exposição. Na obra, as páginas dos livros se misturam, como se um fosse a continuidade do outro, sendo impossível saber onde este ciclo começa ou termina. O tamanho, a extensão e o número de livros usados na instalação variam de acordo com o local da exposição. No centro cultural, a montagem passa por pilastras e toma uma sala inteira, dialogando com a arquitetura do imóvel, criando uma atmosfera de continuidade, eternidade.
Para Hilal, foi mais uma vez em que suas origens falaram mais alto, mesmo de forma não pretendida. Eu estava estudando Lacan a fundo na época e tive essa inspiração quando me deparei com muitas citações: eram livros que saíam de livros. Daí, minha intenção de homenagear o arquiteto Oscar Niemeyer de alguma forma. Mostrei a uma amiga, e logo ela associou à história de Sherazade, e não tive como dar outro nome. No folclore árabe, persa e indiano, Sherazade desposa um rei louco, que, depois de traído pela primeira esposa, casa-se com uma mulher a cada dia, matando-as na manhã seguinte. Para fugir deste destino, a rainha que batiza a obra de Hilal conta, quando anoitece, uma história ao rei, sem lhe revelar o fim. Encantando pelas narrações e curioso sobre seu desfecho, o rei poupa-lhe a morte noite após noite.
Assim como a dinasta da crença oriental, a Sherazade de Hilal não apenas encanta os olhos de qualquer rei ou plebeu que a contemple, mas convida a explorar, percorrer a trilha de livros, buscar o fim na infindável sucessão de páginas contínuas. A arte contemporânea permite que as obras saiam de suas ‘torres de marfim’ e que o público interaja mais e faça parte do objeto artístico, mais do que consegue com um quadro na parede. Não que o quadro não seja importante, porque é – e muito. Mas é preciso abrir outras possibilidades. Todas as possibilidades, defende Hilal.









