Documentário sobre o envelhecer e a memória negra é produzido em Juiz de Fora

‘Baobás: raiz firme faz a árvore forte!’ reúne entrevistas sobre histórias familiares de oito idosos


Por Mafê Braga*

17/08/2025 às 07h00- Atualizada 21/08/2025 às 14h03

Anezia da Silva
Anezia da Silva está entre os entrevistados do documentário (Foto: Anna Júlia Silva / Divulgação)

 “Baobás: raiz firme faz a árvore forte!” é um documentário que tem o objetivo de reecantar o olhar acerca do universo de ascendência africana, retomando sabedorias, mandingas, ditados, lembranças e afetos da velhice negra, conforme a direção do média metragem. O material se embasa em entrevistas genealógicas com oito idosos, que abordam histórias das famílias, tradições e detalhes de antepassados. A obra tem lançamento previsto para abril de 2026, em plataformas digitais gratuitas.

A produção critica os atravessamentos do capital e da estrutura do pensamento ocidental que, de acordo com a equipe, corroeram as perspectivas na vivências contemporâneas fazendo do envelhecer, em específico o de corpos negros, um processo marcado pelo descaso e pelo silenciamento. A obra é um sonho antigo da historiadora e professora Giovana Castro que teve adesão da mestre em história pela UFJF, Vanessa Ferreira Lopes, que viram algo em comum pelas suas interlocuções e pesquisas em torno da onipresença negra em Juiz de Fora. Assim, elas relatam que do encontro de duas apaixonadas por memória e ancestralidade, o documentário emergiu com toda sua vitalidade.

Uma produção reveladora

Realizado sob a coordenação geral de Vanessa Ferreira Lopes, o projeto envolve uma perspectiva memorialista e ancestral, mas que também é atravessada por uma urgência de uma contemporaneidade marcada pela fluidez e pela instantaneidade. A equipe do documentário destaca que, se a velhice é usualmente um lugar de descaso, a velhice negra, atravessada por questões de gênero e classe, é ainda mais vulnerável, juntamente com seu legado. Nesse sentido, o projeto se mostra urgente, pois há um atraso nessa corrida pelo direito à memória.

Lucia Vitorino da Silva
Helena Cassimiro relembra fotos antigas de sua família no documentário (Foto: Anna Júlia Silva/ Divulgação)

“O Baobá foi escolhido como figura símbolo, não só por sua força imagética como árvore sagrada trazida para o Brasil por ascendentes escravizados e que traz em sua estética elementos de força e sacralidade, mas também por todo significado que incorpora ao evocar um passado”, revela Giovana Castro.

A equipe de “Baobás: raiz firme faz a árvore forte!” revela que o documentário também vem de um encanto pela velhice negra, como um lugar de reencontro com histórias de outras épocas e é considerado como um mergulho num passado que parece cinematográfico e que se faz vivo nas narrativas. Os envolvidos definem que todo o processo é impactado também por uma angústia de como a ação do tempo oculta, sem dó, as vozes que precisavam ser ouvidas e que se perderam.

“É importante o entendimento de que ‘Baobás’ não é um filme sobre ser velho/velha. Ele é um filme sobre estar vivo, sobre amor, sobre angústias, reminiscências, medos, projetos de futuro, leituras de mundo. É um filme que transcende a ideia de que a única característica que o idoso tem é ser idoso, como se só o passado importasse, o presente fosse breve e o futuro, uma ilusão”, afirma.

Entrevistas marcantes e potentes

Os entrevistados do documentário têm idades a partir de 80 anos. São eles: Nilson Gonzaga, Helena Cassimiro, Efigênio Evaristo de Castro (pai de Giovana), Lúcia Vitorino da Silva, Jorge Paulo dos Santos, Anézia Silva, Nair Francisca Beline e a mais experiente do elenco, com 100 anos, Zuleika Vieira.

A seleção das pessoas para o documentário foi realizada por Giovana, pois ela já tinha mapeado idosos desde a sua pesquisa de doutorado e também por conversas com a sua mãe, falecida em 2023. Além disso, a equipe relata que ativistas do movimento negro foram consultados para indicar nomes e entidades de acolhimento de idosos, considerando que nem todos os idosos envelhecem com suas famílias.

A maioria das entrevistas foi realizada nas casas dos idosos, e a equipe buscou fotos, músicas, cenários e histórias que pudessem “servir como âncoras que puxem lembranças pouco alçadas”, conforme relato de Giovana, que relembra momentos marcantes nas gravações, como o relato de Zuleika sobre o enterro de Getúlio Vargas e o anúncio pelo noticiário de rádio Repórter Esso. Ela também conta sobre quando finalizaram a entrevista com Anezia da Silva e o namorado da entrevistada foi buscá-la pra almoçar “impecavelmente vestido”, uma ação que rendeu sorrisos mútuos do casal. 

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Nilson Silva e sua esposa em gravação de ‘Baobás: raiz firme faz a árvore forte!’ (Foto: Anna Júlia Silva/Divulgação)

“Há toda uma mudança física na forma como esses idosos se transformam ao falar e ao serem ouvidos com atenção, com gente jovem em volta e que pergunta atentamente, bebendo de tudo que eles contam. Para além disso há um jeito de olhar o mundo, principalmente esse mundo marcado pelas questões raciais, de classe e de gênero numa época em que isso não era algo veiculado com os termos que temos hoje e que trazem profundas reflexões sobre mudanças e permanências de formas elaboradas, mas ao mesmo tempo profundamente esclarecedoras”, discorre Giovana.

A equipe do documentário, composta em sua maioria por mulheres negras, é formada por Vanessa Ferreira Lopes, Giovana de Carvalho Castro, Luan Pedretti de Castro Ferreira, Letícia Aparecida da Silva, Maiteux Zanela, Camila do Nascimento Mathias, Anna Júlia Almeida Lourenço, Heloisa Cruz Carvalho e Isabela Ohana. Eles relatam que vem sendo profundamente impactados por esses encontros e que cada entrevista é um mergulho no mundo de sensorialidades, que os desnorteia devido à intensidade das gravações. 

Trabalhos entrecruzados

O documentário está parcialmente vinculado ao LABHOI (Laboratório de História Oral e Imagem) e ao grupo de pesquisa Afrikas, sob a chancela do projeto Juiz de Fora, Cidade Negra. “Desde 2018, o LABHOI/Afrikas vem desenvolvendo pesquisas e produzindo materiais que buscam por Juiz de Fora na rota das cidades atlânticas e de ancestralidade negra. A passos miúdos abrimos uma discussão até então inédita e que hoje corre pelas ruas e bocas da cidade de uma maneira cada vez mais usual”, informa Giovana que também coordena o projeto. 

“Penso que mensurar impacto é um tiro no escuro, mas o primeiro nos já atingimos quando mudamos a vida dessas pessoas e daqueles que as cercam. Agora queremos mais? Certamente. Queremos tudo, queremos por novas lentes, reencantar o olhar, amolecer corações, encher olhos d’água e por uma nova régua sobre a vida de quem assiste, de quem está na tela. É importante pra gente poder reivindicar o direito ao lembrar, o direito de colocar em evidência que a vida não é descartável.”

O projeto Juiz de Fora, Cidade Negra é aprovado e financiado pelo Edital Paulo Gustavo via Fundação Alfredo Ferreira Lage (Funalfa).

*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli