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25 anos sem Drummond


Por MARISA LOURES

17/08/2012 às 07h00

Carlos Drummond de Andrade contava com 28 anos de idade, quando publicou, em 1930, com recursos próprios, 500 exemplares de Alguma poesia – obra que inaugurou um legado de mais de cinco décadas de produção literária. Um desses exemplares pertence ao acervo da Biblioteca Municipal Murilo Mendes. Além de ser uma obra valiosa, já amarelada com as marcas do tempo, ela ainda contém uma dedicatória de próprio punho do poeta para o amigo e também literato mineiro Martins de Almeida:Ao Almeida sempre pensado com a velha e grande amizade, do Carlos. B Horizonte, 1-5-30.

Como se isso não fosse suficiente para enriquecer o patrimônio cultural da cidade, a instituição ainda conta com um exemplar da primeira edição de Poesias, de 1942, e outro de Confissões de Minas, de 1944. Ambos também autografados pelo autor, sendo o primeiro para o mesmo amigo Martins de Almeida – Ao querido Almeida, com um abraço de Carlos – e o segundo para o escritor francês Henri de Lanteuil – A Henri de Lanteuil, com a simpatia e admiração do seu confrade.

As preciosidades, guardadas no Setor de Memória, são motivos de orgulho para juiz-foranos. Foi por meio de uma doação da comunidade, há aproximadamente seis anos, que encontramos as três primeiras edições de livros autografados por Drummond, o que enriquece ainda mais nosso acervo, diz a documentalista responsável pelo Setor de Memória, Heliane Casarin. Para marcar os 25 anos da morte do escritor itabirano, completados hoje, a Biblioteca Municipal inaugura, no próximo dia 24, a exposição A mineiridade em Drummond, reunindo obras e recortes de textos do autor.

Literatura atemporal

O maior legado de Drummond é colocar em poesia a sensibilidade de seu tempo. Não se pode pensar em Minas Gerais e Brasil do século XX sem se lembrar dele, diz o professor e escritor Affonso Romano de Sant’Anna, autor da tese de doutorado intitulada Carlos Drummond de Andrade, o poeta gauche, no tempo e espaço, transformada em livro pela Editora Record. Sempre me intrigou a maneira como Drummond articulava o passado, o presente e o futuro. Eu costumo dizer que a obra dele é como se fosse uma peça de teatro dividida em três atos: eu menor que o mundo, eu igual ao mundo e eu maior que o mundo.

Apesar de o autor de mais de meio século de literatura ter se despontado no cenário brasileiro em 1930, em plena repercussão do primeiro movimento modernista no Brasil – estilo literário marcado pelo desejo de renovação das artes -, sua atuação vai além das amarras de períodos históricos, pois seus textos refletem os anseios do homem de todas as épocas. Drummond conversa tanto com a tradição lírica da poesia clássica quanto com a atualidade. Sua obra expressa toda uma necessidade, ansiedade que o homem atual tem, mas que os antigos também tinham. A poesia dele propõe uma investigação das possibilidades da linguagem hoje. Como a gente ainda não terminou de viver o processo histórico, que se iniciou com o crescimento e consolidação do modo de produção capitalista e suas consequências e crises, não só econômicas mas também existenciais, este poeta tem sempre uma palavra a dizer para quem quer usufruir de sua estética e de sua crítica, afirma Terezinha Scher, professora de literatura brasileira da Universidade Federal de Juiz de Fora .

Josyane Malta Nascimento, doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora e autora de uma dissertação de mestrado baseada na trilogia Boi Tempo, de Drummond, também faz coro com os dois professores. Às vezes, pergunto-me sobre como os escritores brasileiros contemporâneos gostariam de ser lembrados amanhã. São todos herdeiros de uma crítica pós-colonial e de um tempo pós-ditadura. E pergunto-me sobre Drummond, sobre como ele pode continuar tão atual, tão grandioso. Penso em como a obra dele, após 25 anos de sua morte, continua sendo tão importante para discutirmos questões tão caras à nossa sociedade. Recordo que Carlos Drummond de Andrade continua sendo gauche, ainda hoje, e penso que é exatamente dessa forma que ele gostaria de ser lembrado.

Poesia engajada

Terezinha Scher enfatiza que ainda em seus primeiros livros, Alguma poesia, 1930, e Brejo das almas, 1934, o poeta já apresentava uma literatura atenta ao mundo que o cerca, relutando a sair do seu espaço e a falar do que não é dele. Suas anedotas faziam um recorte das tensões de acontecimentos históricos e culturais. Drummond está sempre se relacionando com o mundo de uma maneira muito forte, ele tem um olhar penetrante e crítico para o que está a sua volta e, ao mesmo tempo, não abre mão de fazer uma poesia marcada pelas conquistas da linguagem do modernismo.

A professora destaca que, num segundo momento, por meio de obras como Sentimento do mundo, 1940, e Rosa do povo, 1945, o engajamento político do escritor tornou-se ainda mais evidente, pois seus textos refletiam fenômenos históricos importantes, como a Segunda Guerra Mundial e o perigo do totalitarismo que ameaçava as liberdades e os projetos democráticos de sua época. Era um poeta antenado com os assuntos contemporâneos a ele e que se associava às multidões na luta contra o medo e a opressão, não se recusando a se unir aos que desejavam um novo tempo.

A rebeldia inicial vai se transformando em ímpeto revolucionário, que pode ser identificado em outros escritores seus confrades, perseguidos pelo terror da ditadura. Além da auto-ironia e da crítica ácida aos ditadores, o poeta reservava um tom especial entre o irônico e o incisivo para os proprietários, os burgueses, os senhores em geral que impedem o trabalho da mudança revolucionária, analisa Terezinha.

Nas poesias de memórias, escritas já em sua terceira fase literária, o autor propõe um retorno a suas origens. Seus poemas começam a tratar de sua vinculação com o mundo do campo, do filho do fazendeiro e das Minas Gerais. No entanto, Terezinha afirma que esta Minas Gerais presente em sua obra é um local subjetivo e alegorizado, porque reflete a situação de um poeta crítico num momento histórico específico e num mundo bastante complicado. Seria um regional que capta todo o universal. O gauche ainda é capaz de se encantar com a memória da infância, com a recuperação problemática de Itabira e do pai. O tom volta ao quase anedotário das reminiscências que elaboram as perdas por meio da linguagem. O doloroso reconhecimento da origem, da filiação inegável, o sentimento de pertencimento a um mundo que, afinal, já se esboroou, não impedem o retorno de um humor, agora trabalhado quase prosaicamente.