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No escurinho…. da sala de casa


Por MÁRCIO CORINO

16/10/2012 às 07h00

Balas, refrigerantes, burburinho, filas para comprar ingressos e aquele inconfundível cheirinho de pipoca. É impossível não associar essas imagens e sensações a um dos hábitos mais comuns da sociedade moderna: ir ao cinema. Entretanto, essa hegemonia da sétima arte como espetáculo coletivo, que reúne centenas de pessoas em uma mesma sala escura, diante de uma tela iluminada, vem sendo constantemente ameaçada. No cenário atual, com o reinado da internet e da pirataria, renovam-se as formas de se assistir a um filme, e as opções estão cada vez mais diversificadas. Há aqueles que preferem fazer download e armazenar os filmes no HD de seu computador pessoal, os que assistem a filmes on-line (em streaming), os frequentadores das tradicionais videolocadoras e, claro, aqueles que não dispensam a magia da sala escura e da tela grande. Essas diferentes práticas, todas motivadas pelo amor ao cinema, convivem entre si, levantando debates entre os admiradores da sétima arte.

Nesse cenário, destacam-se os novos serviços de filmes digitais, que oferecem desde download autorizado com prazo de validade a exibições on-line. Para que se possa escolher entre as diversas opções disponíveis, é preciso saber, primeiramente, a diferença básica entre download e streaming. Fazer o download de um filme significa encontrar o arquivo na internet ou na locadora virtual e baixá-lo para o próprio computador. Já no caso do streaming, o arquivo é carregado simultaneamente à sua exibição e não fica guardado na máquina. Um exemplo da popularização desse sistema é a Netflix. A empresa norte-americana, fundada em 1997, começou como uma locadora física que entregava filmes pelo correio e migrou para a internet devido ao fortalecimento da banda larga, atingindo inúmeros países em todo o planeta. Hoje, ela oferece cerca de 20 mil títulos diferentes, seja com legendas ou, até mesmo, áudio em português. A tecnologia streaming possibilita o uso da Netflix em smartvs, e alguns modelos já possuem o aplicativo, bastando ligar a TV na internet (via cabo ou wi-fi) para ter acesso a essa locadora virtual.

O arquiteto Wenderson Fontenelle Lobo não dispensa o conforto de sua casa e a variedade de ofertas da Netflix. "Descobri esse sistema logo que ele desembarcou no Brasil. Já conhecia seu sucesso nos Estados Unidos, e como eles davam um mês grátis para experimentar, entrei para testar. Assisto quase que diariamente, seja na TV (via PS3), no smartphone ou no tablet", conta. Grande parte dos títulos disponibilizados pela empresa tem imagem em HD, e muitos possuem som 5.1. Para poder assistir aos filmes com toda essa qualidade, o assinante precisa ter uma boa conexão banda larga de internet. Para filmes em HD, bastam cinco mega, e para filmes em SD (standard definition), apenas dois. "A vantagem é você ver quantos filmes quiser, por apenas R$14,99 mensais, além de poder parar no meio e continuar outra hora", explica Wenderson.

A experiência de se assistir a um filme em tela grande, com todo o envolvimento proporcionado pela qualidade de som e imagem é tão fascinante que o empresário Ricardo Tuboly decidiu reproduzir esse ambiente em sua casa. "Em um ambiente menor, a distribuição do som atinge o espectador com mais intensidade, e a sensação de envolvimento proporcionada é acentuada, mas é preciso que se tenha um tratamento acústico adequado. Além disso, a qualidade da imagem é digital, ao contrário da maioria das salas de cinema, que ainda adotam o sistema analógico", argumenta o cinéfilo de carteirinha, que é proprietário de uma loja especializada na ambientação de espaços para ver cinema em casa. "Essas salas domésticas vêm sendo chamadas pelos arquitetos de ‘family room’, devido a seu caráter familiar. É muito bom poder reunir parentes e amigos em casa, sem abrir mão da qualidade encontrada no cinema", destaca Ricardo.

O empresário dá algumas dicas para quem pretende montar uma boa sala de TV em casa, sem gastar muito e sem ter que abrir mão da qualidade de som e imagem. "É preciso reservar um espaço da casa para essa função, uma sala ou quarto exclusivamente para isso. Com um bom aparelho blu-ray, uma TV full HD e um home-theater básico, você já tem à disposição um ambiente adequado. Tudo isso custa cerca de R$ 3 mil, no mínimo."

 

 

Experiência coletiva

Desde a invenção do cinema, no final do século XIX, assistir a filmes se consolidou como uma experiência coletiva, assim como o teatro e a ópera. A primeira sessão de cinema, realizada no subsolo de um café em Paris, em 28 de dezembro de 1895, reuniu 33 pessoas que, durante 20 minutos, dividiram seu medo e surpresa com a imagem do trem que "ameaçava" sair da tela e atingir a plateia. Seja nos esforços do partido nazista para convencer a audiência de seu projeto político ou na tentativa americana do pós-guerra de difundir o "american way of life", o cinema se notabilizou por arrastar multidões às salas escuras de todo o mundo. Essa realidade começou a se transformar a partir dos anos 70, com a chegada do videotape e, mais tarde, com a popularização da internet e oferta de equipamentos de áudio e vídeo domésticos a um preço acessível.

Mesmo com todas essas facilidades de acesso aos filmes proporcionada pelas novas tecnologias, ainda há quem não abra mão da experiência de frequentar a sala de cinema e dividir, com outras pessoas, as sensações provocadas pelos filmes. "Não se assiste a um filme apenas por um motivo e em uma situação específica. Busca-se diversão, conhecimento, fuga, medo, reflexão. Depende, então, da intenção e do interesse. Ver um filme ‘engraçadinho’, blockbuster, comercial, para mim tanto faz se for no cinema ou em casa. Se procuro no filme uma experiência de fruição artística, estética e emocional, aí só no cinema mesmo, de preferência com som, luz e conforto de acordo", comenta Cristiano Rodrigues, professor da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal de Juiz de Fora. Cristiano destaca as diferenças de se assistir a um filme na sala de casa e no cinema, chamando a atenção para o aspecto social e coletivo inerente à experiência do espetáculo."Gosto muito do espaço físico e do ritual do cinema. Chegar, ver os cartazes, comprar ingresso, pipoca, encontrar amigos ou conhecidos e perceber em seus olhos as expectativas que depois se transformarão em sustos, lágrimas e sorrisos. Isso mostra que somos uma comunidade de seres sensíveis."

Para a professora do Instituto de Artes e Design da UFJF, Karla Holanda, o efeito causado no espectador é a principal característica que faz da sala de cinema o lugar privilegiado para a exibição. "A concentração é total, a nossa percepção para todos os elementos que estão na tela – fotografia, trilha sonora, ruídos, enquadramentos, figurino, sotaques – é absoluta. No cinema, não atendemos telefone (não se deveria, pelo menos), não paramos o filme, usufruímos dele no tempo em que foi concebido para ser usufruído, com a duração dos planos como pensada pela direção. É na sala de cinema que o filme é visto em sua plenitude", argumenta.