Mais um dado na soma

Se Juiz de Fora reagiu perplexa e incomodada com penas de gesso formando um tapete no coração da cidade, a Rua Halfeld, no início de junho deste ano, como reagirá ao ver uma mulher toda vestida de grama perambulando pelas ruas mais movimentadas? A resposta, a unidade juiz-forana do Sesc está disposta a conhecer. Uma provocação com o desejo de ser soma. Realizada pela sergipana Maicyra Leão, a performance programada para o dia 29 de agosto, na qual a artista se utiliza de uma roupa formada por pedaços de grama sintética, traz à cidade, pela primeira vez, um projeto desenvolvido pelo Sesc no Brasil há cerca de 20 anos. Sucedida por uma mesa de debates com a autora da intervenção, no dia 30 de agosto, a proposta representa o momento de maior atenção da instituição com sua sede em Juiz de Fora, erguida há quase cinco décadas e hoje ocupando um espaço nobre, na região central.
A agenda que passa por aulas de canto e teatro também inclui sessões de cinema com uma curadoria muito exata, além de debates e apresentações que se desejam mais efetivas, considerando ainda os artistas locais e a produção da região. Bastante completo, atendendo atividades esportivas e de lazer, o prédio exibe paredes pintadas recentemente e grande organização desde a recepção, ainda que as cadeiras do Teatro Clara Nunes, com capacidade para cerca de 150 lugares, estejam deterioradas e as paredes descascando. Num tempo de aridez e dificuldades se sobrepondo aos anseios, o movimento da entidade mantida pelos empresários do comércio de bens, serviços e turismo pode representar novo vigor à cena local.
Segundo o gerente de cultura do Sesc em Minas, o venezuelano radicado há 20 anos no Brasil Jorge Cabrera, o programa de cultura da instituição tem se diversificado nos últimos anos, e a meta é incrementar a oferta de linguagens artísticas, além de conferir relevância e impacto à cultura proposta. “Nossa ideia é melhorar os equipamentos nas unidades. Investir é necessário. Normalmente, a gestão das unidades tem um planejamento e uma ordem das prioridades, mas já estamos nos movimentando para que o teatro possa ser revitalizado”, assegura ele, apontando para a perspectiva de no próximo ano oferecer uma agenda ainda mais diversificada, por consequência, ousada.
“Devemos trabalhar com a formação, por meio de cursos e oficinas, e apresentações, incluindo performances e debates. O desafio para 2017 é a gente se renovar na maneira como retratamos a questão das linguagens”, comenta Cabrera, pontuando que cada unidade deverá manipular cinco linguagens distintas, o que Juiz de Fora já ensaia ao apresentar, no próximo semestre, curso de audiovisual. Nesse sentido, os esforços da entidade no estado parecem se dirigir a um nível de excelência já visto há décadas em São Paulo, onde o Sesc define sobremaneira o fazer cultural da maior cidade brasileira, com diferentes espaços, no Centro e nas periferias, com agendas do erudito ao popular.
“São realidades diferentes. É muito difícil comparar um regional com o outro. Há diferenças, inclusive, de recursos. Nosso programa de cultura em Minas tem crescido muito. Hoje atendemos cerca de um milhão de pessoas ao ano, em todo o estado”, diz o gerente. “Dentro de Minas mesmo é complexo traçar comparativos. São maneiras distintas de abordar a missão social do Sesc, porque defendemos a cultura como uma ação social em sua essência, na medida em que nossa atuação visa valorizar a memória e os próprios artistas”, completa ele, certo de que formação de público é ato contínuo e múltiplo, distante do mundo dos números e perto do universo das subjetividades.
Ainda em 2016, segundo a programação do espaço na cidade, estão previstos projetos de fôlego como o desembarque da mostra Sonora Brasil, em sua 18ª edição reverenciando as modas de viola. Urgência nos planos culturais da entidade, a variedade de público – que até então era majoritariamente formado por idosos – também tangencia uma operação que se pretende com maior fôlego na cidade cuja cultura é em sua quase totalidade, comandada pela universidade e pela prefeitura. “O Sesc tem um programa para idosos diferenciado no estado. Eles têm o Sesc como referência e, por isso, são um público frequente. Os cursos de arte, contudo, trouxeram um público bastante jovem”, pondera Jorge Cabrera.
Sem perspectiva: sistema engole cultura
“As possibilidades são infinitas, e os limites são mais que infinitos”, diagnostica Toninho Dutra, superintendente da Funalfa. Convidado a integrar a roda de conversa “Instituições culturais locais: limites e possibilidades”, promovida pelo Sesc de Juiz de Fora na noite da última quinta-feira, ele falou das dificuldades que parecem se agigantar diante de uma máquina pública morosa e burocrática. A questão também foi tratada pela pró-reitora de cultura da UFJF, Valéria Faria, pela ex-superintendente de ações culturais da Secretaria de Estado de Cultura de Minas, Karla Guerra, e pela mediadora Cadija Costa, do Sesc/JF.
Prestes a completar oito anos à frente da instituição municipal, Toninho aponta para a situação do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas como um exemplar da situação. Com sugestão de interdição feita na última semana, o que fez com que o espaço na Avenida Getúlio Vargas cancelasse algumas de suas atividades, o CCBM espera, há 11 anos, a conclusão de um plano de incêndio e pânico. Segundo o superintendente da Funalfa, o projeto deveria contemplar todo o complexo, incluindo biblioteca, mercado, centro cultural e salas. Passadas nove licitações desde 2012, enfim uma empresa foi contratada na semana passada. Para tudo há um sistema a conferir dificuldade aos processos. “A gente vai domesticamente fazendo reparos no CCBM”, lamenta ele, que se prepara para entregar o Teatro Paschoal Carlos Magno, com as obras 70% concluídas. “Ainda temos um pouco de dúvida se ele ficará totalmente pronto até dezembro, mas ele será entregue”, garante.
De acordo com Toninho, o momento exige mobilização de toda a classe artística para que o prédio seja efetivamente voltado para atividades culturais. “É momento de marcar posição, precisa haver empoderamento, pertencimento”, diz. Para Valéria Faria, é justamente essa sensação que faz com que o Centro Cultural Pró-Música conquiste investimentos dentro da universidade. Nos preparativos para a 27ª edição do Festival de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, Valéria trabalha com dois espaços distintos: um Cine-Theatro Central completamente revitalizado e um Centro Cultural Pró-Música integralmente deteriorado. “A Rua da Cultura (entrada do espaço na Rio Branco) encontra-se em condições de risco de desabamento. Já conseguimos recursos para a reforma, mas espero conseguir revitalizar o teatro também”, pontua.
“A cultura é precária em dinheiro, mas fértil em movimento, em prazer, em inventividade. Não é por dinheiro que a gente faz cultura, mas isso não quer dizer que devemos fazer de maneira precária, com poucos recursos”, defende Karla Guerra, produtora cultural, professora e pesquisadora. Em seu olhar distanciado, Karla visualiza uma Juiz de Fora de muitos equipamentos e ações. Ouve das dificuldades, as mesmas que encontrou ao chegar ao Governo de Minas e fala de uma cultura que, a despeito do preço baixo, tem um valor muito alto, quiçá inestimável: “Não adianta falar de formação de público com gratuidade. O trabalho deve ser qualitativo. Não existe política pública sem diálogo.”









