Ouça agora

Novos métodos para antigas manifestações


Por RENATA DELAGE

16/06/2012 às 07h00

A arte é um olhar sobre a cultura, assim como a cultura é um olhar sobre a vida. Enquanto a arte assume o compromisso com a estética e a reflexão, a educação traça caminhos para a transformação. Desta forma, se arteiro é aquele que faz arte, as conotações pejorativas para o termo poderiam ceder lugar a outros significados, que serviriam para designar aquele que movimenta, cria, propõe, reflete. Quando o educador e filósofo brasileiro Paulo Freire – declarado patrono da educação brasileira em abril – propôs aos alunos trocar a sala de aula pela sombra do baobá, a "árvore da vida", infinitamente mais representativa e lúdica aos olhos dos aprendizes africanos, o termo "arte-educação", talvez, não fosse o mais debatido. Contudo, já vigorava o pensamento de que seria possível o educando criar e seguir o rumo de seu aprendizado, cabendo aos educadores ampliarem os conceitos e as formas para se chegar até ele.

Dando voz aos crescentes diálogos ao redor do mundo, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), promoveu, pela primeira vez, a Semana Mundial de Arteducação. Instituído na quarta semana de maio, o debate, que aconteceu na França, abordou o tema e suas influências, ações no novo século, construções de novas metodologias e transformações sociais. "O Brasil aparece como um dos articuladores desse pensamento que toma a cultura como um conceito mais amplo. Novas políticas passam por novas metodologias, que passam pelas linguagens artísticas. A cultura é a manifestação da construção de uma sociedade, ligada a princípios, hábitos e também a estética", expõe a arte-educadora e atriz Gabriela Machado, membro da Rede Brasileira de Arteducadores (Abra). "Neste mundo de grandes mudanças e inseguranças, saber que alguns estão apostando em novas formas de criação e convívio é bem motivador", completa.

 

Das margens ao centro

Aos 5 anos de idade, Marcelo Andrade ganhou um cinema do avô. Dos 5 aos 13, suas peças de teatro, inspiradas nos livros também herdados, alimentaram a caixinha do grupo escolar da pequena cidade mineira de Cajuri, próxima a Viçosa. O toque precoce da arte, contudo, não passaria impune e apontaria direções na vida de um dos arte-educadores e diretores teatrais mais atuantes no país. Professor de matemática e teatro, Andrade descobriu que as disciplinas não eram tão distantes quanto aparentavam no primeiro momento. Crônicas e poesias passaram, então, a ser lidas todos os dias no início das aulas. "A aula não rendia sem esse ritual", conta. A aprovação no conteúdo que lida com os números saltou de cerca de 40% para aproximadamente 90%. "Foi a descoberta da força da arte no aprendizado", resume.

As oficinas culturais ministradas aos alunos de escolas públicas de Viçosa, criadas por Andrade nos anos 90, foram patrocinadas, e hoje, nos 11 anos à frente do Tim ArtEducAção, mais de 50 mil crianças, de 12 cidades da região, passaram pelo projeto. "Quando você tem uma ideia, é preciso desenvolvê-la", encoraja.

Também pelas mãos de Andrade, o projeto "Grandes escritores" levou a Viçosa – e a outras cidades de Minas, Rio de Janeiro, Bahia e Espírito Santo – nomes consagrados da literatura no país, como Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti. "Calçar uma sapatilha é andar na vida com outros passos", observou Marina, sobre o simples – e mágico – ato de preparação para a dança. "As atividades artísticas desenvolvem a capacidade crítica, a criatividade, a socialização e, claro, o aprendizado. Cultura é a vida pulsante", argumenta Andrade.

Por também acreditar que a cultura deve caminhar de mãos dadas – e não de forma paralela – com a educação, a Escola Municipal José Calil Ahouagi, no Marilândia, tendo como eixo pedagógico norteador diversos estudos antropológicos, apostou em inserir a arte em todo o currículo escolar. Na contramão da agenda "imposta" por datas oficiais, a instituição abraçou a diversidade e a cultura popular. "Por que só é permitido falar de folclore – e exaustivamente – em agosto? Por que abordar sempre os mesmos personagens, as mesmas histórias?", indaga a coordenadora pedagógica e professora Gisela Pelizzoni.

Neste mês, a escola, que funciona em tempo integral, se prepara para a Festa do Bumba-Boi, que celebra São João nos ritmos do Maranhão, e também para a Festa da Lanterna, apropriação da tradição europeia para a chegada do inverno, no qual alunos e funcionários se unem à comunidade em uma procissão cantada pelas ruas do bairro.

Valorizando, sobretudo, as temáticas afro-brasileiras, foram levantadas mais de cem canções de roda, que fogem às tradicionais e unem crianças e jovens em uma só brincadeira. Também foram incentivados os jogos lúdicos, instrumentos de auxílio no aprendizado em sala de aula, construídos pelos próprios alunos. Caso do "kalah", jogo utilizado na matemática, que se baseia na tradição africana da transferência de sementes. "Todos os trabalhos são arquivados e preservam a memória da nossa escola", explica a também coordenadora pedagógica Andréa de Medeiros, que levou as experiências diárias no ensino à academia, a partir da tese de doutorado "Memória de crianças em crônicas de escola: modos de lembrar, modos de narrar, modos de ser", orientada pela professora doutora Sônia Regina Miranda na Faculdade de Educação da UFJF.

 

Transformação universal

"Se você perder a referência de onde vem, se perde, morre", sentencia Marcelo Andrade. É preciso conhecer e, acima de tudo, respeitar as manifestações culturais já existentes antes de impor determinada atividade artística a uma comunidade, segundo o arte-educador. "Devemos valorizar os pólos culturais, as lideranças já atuantes da cultura e envolvidas com a história e a memória do lugar", acrescenta Gabriela Machado.

Criada em 2007, a Casa de Cultura Evailton Vilela, no Bairro Santa Efigênia, atende mais de 600 pessoas, de faixas etárias diversas. Aberto a moradores de diferentes bairros da cidade, o espaço oferece oficinas de cultura e esporte, como hip-hop, balé, violão, artesanato, capoeira, além de oferecer aulas de inglês, informática, alfabetização e pré-vestibular. "O projeto tenta preencher as lacunas deixadas pelo poder público. É um alento para a comunidade contar com parceiros que possam prepará-la para o futuro", diz o fundador e diretor do espaço, Jefferson da Silva Januário, o Negro Bússola. A iniciativa vive de doações e de um incentivo mensal da Funalfa, além de parcerias de instituições privadas em determinados projetos. "Vamos construir um laboratório digital para a comunidade, com o apoio do Centro Digital Integrado (CDI), do Rio de Janeiro, em parceria com a mineradora Pedra Sul", conta.

Além das oficinas, a Casa de Cultura propõe debates que pretendem transformar a realidade do bairro. Nesse sentido, está sendo planejado o primeiro Fórum da Zona da Mata de Violência Urbana. "Queremos que, a partir de uma iniciativa popular, seja criada um Secretaria de Segurança Pública na cidade", explica. Vão participar do debate lideranças comunitárias de municípios da região e de diferentes partes do país, como o coordenador da ONG AfroReggae, José Júnior.

Para Gabriela, é indiscutível o poder transformador da arte. "Mas esse poder não se resume apenas às comunidades carentes, menos favorecidas social e economicamente. Ele é transformador para todos. Por isso se discute a necessidade da arte na política com ‘P’ maiúsculo. É a cultura no centro das relações", avalia. "Quando a arte chegar a todos, o mundo será outro", vislumbra Andrade. "Quando comecei a falar de arte-educação, me sentia muito sozinho. Mas não estamos mais sozinhos. Existe uma consciência chegando. O que falta é articulação, para que haja troca, e dez pessoas não tentem fazer a mesma coisa sozinhas."