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Rumo à Rota da Seda, casal de Simão Pereira percorre o mundo de moto

Aos 63 anos e com 74 países no mapa, Sergio e Dani seguem rumo aos cem antes de completar 65


Por Mariana Souza

15/07/2026 às 15h39

Casal de Simão Pereira da volta ao mundo de moto - Arquivo PessoalCasal de Simão Pereira da volta ao mundo de moto - Arquivo PessoalCasal de Simão Pereira da volta ao mundo de moto - Arquivo PessoalCasal de Simão Pereira da volta ao mundo de moto - Arquivo PessoalCasal de Simão Pereira da volta ao mundo de moto - Arquivo Pessoal
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Dani Moro e Sergio Tarcitano, moradores de Simão Pereira, transformaram a pergunta "se não for agora, quando?" em uma volta ao mundo (Foto: Arquivo Pessoal)

“Se não for agora, quando?” A pergunta, feita por duas pessoas que já haviam aprendido que a vida nem sempre segue o roteiro previsto, acabou se transformando em estrada. Foi a partir dela que Dani Moro e Sergio Tarcitano, moradores de Simão Pereira, a 30 quilômetros de Juiz de Fora, decidiram dar a volta ao mundo. Hoje, na Turquia, o casal percorre a histórica Rota da Seda com Olivia, a motocicleta que se tornou companheira de travessias, fronteiras e recomeços.

Dani e Sergio se conheceram em um aplicativo de relacionamento, em 2015.  Àquela altura, ambos reconstruíam a vida depois de outros casamentos e carregavam histórias semelhantes às de muitos casais da mesma geração: haviam se casado cedo, tido filhos e dedicado boa parte dos anos à busca por estabilidade.

Foi no encontro entre os dois que surgiu também uma paixão compartilhada. “Logo descobrimos algo em comum: gostávamos de viajar de moto e conhecer o mundo.”

Quando a vida muda de rota

Antes dos cem países, havia um desejo mais simples: viajar. O casal planejava iniciar as primeiras grandes jornadas em 2021, mas a pandemia adiou a partida e alterou os caminhos antes mesmo que Dani e Sergio colocassem o pé na estrada.

Na época, os dois viviam em Curitiba, no Paraná. Com familiares espalhados por cidades da Zona da Mata, decidiram retornar a uma região que Sergio já conhecia e escolheram Simão Pereira para construir uma casa.

Durante a obra, porém, a vida voltou a mudar de direção. Sergio sofreu um acidente e quase perdeu a mão esquerda. Por algum tempo, a possibilidade de voltar a conduzir uma motocicleta pareceu distante. “Em alguns momentos, nós dois acreditamos que eu nunca mais conseguiria pilotar.”

Ainda em recuperação, ele percebeu que esperar pelas condições ideais talvez significasse adiar indefinidamente os próprios sonhos. “A vida pode mudar de uma hora para outra.”

A constatação acelerou uma decisão que já vinha sendo amadurecida. Antes mesmo de saber se voltaria a segurar um guidão, Dani e Sergio resolveram colocar a viagem em prática.

Em uma volta ao mundo de moto, o casal de Simão Pereira percorre a Rota da Seda rumo à China e mira os cem países antes dos 65 anos de Sergio.
Depois de um acidente que quase custou a mão esquerda de Sergio, Olivia, uma Harley-Davidson adaptada, marcou o retorno do casal à estrada (Foto: Arquivo pessoal)

O caminho de volta ao guidão

Para fazer o sonho caber na vida cotidiana, o casal reorganizou também o trabalho. Os dois passaram a conciliar as atividades profissionais com a estrada: Dani, nas áreas de marketing e vendas; Sergio, então gerente de banco.

A primeira grande viagem começou pela Ásia. Diante da distância percorrida, o plano cresceu. Em vez de retornarem pelo mesmo caminho, seguiram pelo Pacífico e voltaram pelo Atlântico. Ao longo de oito meses, atravessaram cinco continentes e completaram uma volta ao mundo. 

Foi durante essa jornada, na Indonésia, que Sergio voltou a pilotar. “Alugamos uma scooter porque era praticamente o único meio de se locomover por lá. Foi quando percebi que conseguiria pilotar novamente uma moto automática. Voltamos ao Brasil com essa ideia.”

Depois de algumas adaptações em uma Harley-Davidson, Olivia entrou para a história. Com ela, o casal decidiu percorrer por terra o maior trecho possível entre Ushuaia, no extremo sul da Argentina, e o Alasca, nos Estados Unidos.

Pelos caminhos da Rota da Seda

A princípio, a viagem terminaria no Alasca. Depois de percorrerem por terra o caminho iniciado em Ushuaia, Dani e Sergio planejavam voltar para casa. Mas, quando chegaram ao destino, perceberam que ainda não queriam encerrar a jornada. Foi desse desejo de continuar que surgiu o desafio seguinte: atravessar a histórica Rota da Seda e seguir em direção à China.

Mais do que uma única estrada, a Rota da Seda foi uma extensa rede de caminhos terrestres e marítimos que, durante séculos, conectou diferentes regiões da Ásia e da Europa. Por essas rotas circularam seda, especiarias e outros produtos, mas também conhecimentos, religiões, tecnologias, costumes e modos de compreender o mundo.

Do Alasca, o casal seguiu para o Canadá, de onde despachou Olivia. O reencontro com a motocicleta aconteceu na França. Depois, Dani e Sergio partiram de Portugal para iniciar a nova travessia.

Desde então, passaram por Espanha, França, Itália, Áustria, Eslovênia, Croácia, Sérvia, Hungria, Romênia e Bulgária, até chegarem à Turquia, onde estão atualmente. O planejamento ainda inclui Geórgia, Rússia, Cazaquistão, Uzbequistão, Quirguistão, China e Mongólia. A Armênia também pode entrar no percurso, assim como outros países que surgirem pelo caminho.

Para Sergio, a dimensão histórica torna esta a viagem mais complexa já enfrentada pelo casal. “Provavelmente, este é o maior desafio das nossas vidas. Ao mesmo tempo, é impossível não pensar: como eles conseguiam fazer tudo isso há mais de dois mil anos? Só de imaginar aquelas caravanas atravessando desertos e montanhas já dá para ter uma dimensão da grandiosidade da Rota da Seda.”

A travessia também aproxima passado e presente. Para ele, os caminhos evocam histórias de “As mil e uma noites”, cidades antigas, mercados, desertos e culturas preservadas ao longo de milhares de anos. Mas ajudam ainda a compreender como as relações comerciais entre Oriente e Ocidente atravessam a história.

“Hoje se fala muito sobre a força da China na economia mundial, mas isso não começou agora. Há mais de dois mil anos, pessoas já atravessavam continentes para negociar, falando idiomas diferentes, sem tradutor, GPS, internet ou qualquer uma das facilidades que temos”, analisa. 

Para Sergio, olhar para essas viagens antigas também relativiza os limites impostos pelo presente. “A maior força nunca foram as ferramentas, mas a vontade das pessoas. Às vezes, pensamos que só conseguimos fazer alguma coisa porque hoje tudo é mais fácil, mas a história mostra o contrário. As grandes conquistas aconteceram porque alguém quis fazer acontecer.”

Uma rota, uma rotina

Por trás das paisagens, fronteiras e estradas, existe uma rotina organizada para que a viagem continue possível. Dani mantém o atendimento aos clientes na área de marketing. Sergio, agora aposentado, cuida das redes sociais do casal e planeja os trajetos.

As segundas e terças-feiras são reservadas ao trabalho. De quarta-feira a domingo, Olivia volta para a estrada.

É Sergio quem desenha a maior parte dos percursos. Mais do que chegar às capitais ou cumprir listas de pontos turísticos, ele prefere buscar cidades menores e observar de perto o cotidiano de quem vive nelas.

“As cidades grandes e turísticas acabam se parecendo muito. Nas pequenas, o povo mantém a própria rotina. O restaurante faz comida para o vizinho, para o parente. É onde conseguimos conversar com quem mora ali, com pessoas mais acessíveis, que não estão apenas tentando vender alguma coisa.”

Foi seguindo essa lógica que o casal chegou a Edirne, na Turquia, onde decidiu permanecer durante os dias de trabalho. Conhecida no passado como Adrianópolis, a cidade recebeu o nome em referência ao imperador romano Adriano e foi capital do Império Otomano entre os séculos 14 e 15.

Ali, Dani e Sergio conheceram a Mesquita Selimiye, considerada a obra-prima do arquiteto otomano Mimar Sinan e reconhecida como Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

O domo simétrico e a dimensão do edifício impressionaram Sergio. Mas foi a história encontrada fora dos roteiros mais óbvios que reforçou a escolha pelas cidades menores. “Quem vai de avião direto para Istambul nem imagina tudo isso.”

Nas paradas entre um país e outro, Dani e Sergio costumam ficar em campings. Além do ambiente mais familiar, os locais permitem que permaneçam próximos de Olivia. Na estrada, os horários são definidos pelo clima.

“Se está frio, saímos mais tarde. Se está muito quente, começamos cedo e paramos nas horas de maior calor. Em dias quentes, quatro horas de estrada já são suficientes. Mas, quando foi necessário deixar o Espaço Schengen, chegamos a rodar oito horas em um único dia.”

Por isso, Sergio prefere medir as viagens pelo tempo, e não pela distância. “Coloco sempre em horas porque a quilometragem depende muito da estrada. Às vezes, você percorre 400 quilômetros em quatro horas. Em outras, anda apenas 150.”

As fronteiras que ainda virão

Em uma volta ao mundo de moto, o casal de Simão Pereira percorre a Rota da Seda rumo à China e mira os cem países antes dos 65 anos de Sergio.
Rumo à Ásia Central, o casal enfrentará idiomas e alfabetos diferentes até alcançar o Cazaquistão pela Rota da Seda (Foto: Arquivo Pessoal)

Aos 63 anos e com 74 países visitados, Sergio reconhece que nem todos os lugares despertaram o mesmo encantamento. A Bulgária, até agora, foi o país com o qual o casal menos se identificou. Ele pondera, porém, que a passagem foi rápida, limitada pelo tempo disponível antes da saída do Espaço Schengen, e promete dar uma nova chance ao destino.

Entre os lugares que mais surpreenderam está o interior da França. “É completamente diferente de Paris. As pessoas ajudam, dão dicas e acolhem. Já conhecíamos muita coisa da Europa, mas passar de moto pelas cidadezinhas muda tudo.”

À medida que avançam em direção à Ásia Central, os desafios também ganham novas formas. O casal espera encontrar dificuldades com os idiomas e com alfabetos diferentes nas placas de trânsito.

Segundo Sergio, a passagem pelo Irã foi descartada, o que exigirá um desvio do traçado mais tradicional da Rota da Seda. Depois da Turquia, eles devem seguir pela Geórgia, atravessar parte da Rússia e chegar ao Cazaquistão.

As tensões envolvendo a Rússia despertaram preocupação. Antes da viagem, Sergio conversou com um amigo russo que mantém uma oficina em Moscou. “Ele me perguntou: ‘Você cruzou a América Central e está com medo da Rússia?’”

O casal pretende atravessar o trecho russo em cerca de dois dias, distante da fronteira com a Ucrânia, até alcançar o Cazaquistão. Ainda assim, não descarta voltar ao país em outro momento e percorrer a Ferrovia Transiberiana entre a Mongólia e Moscou.

Apesar das incertezas, é da Turquia em diante que Dani e Sergio esperam se aproximar ainda mais dos vestígios históricos da rota. A expectativa é encontrar, sobretudo no Uzbequistão, antigos mercados e cidades que preservam marcas dos caminhos comerciais do passado. 

Depois de tantos quilômetros, países e mudanças de rota, Sergio acredita que viajar transformou também a maneira como o casal enxerga as diferenças. “Acho que viajar é uma forma de derrubar preconceitos e entender que o mundo é muito mais parecido do que imaginamos.”

Mais do que acumular destinos ou alcançar a marca dos cem países, Dani e Sergio querem mostrar que os sonhos não deixam de existir quando a juventude passa ou quando as responsabilidades ocupam grande parte da vida.

“Depois de anos dedicados aos filhos, ao trabalho e às responsabilidades, ainda é possível realizar sonhos que ficaram guardados por décadas. Nunca é tarde para começar um novo capítulo.”

Entre um país e outro, a pergunta que deu início à viagem continua acompanhando o casal. A resposta, por enquanto, vem em forma de estrada.

*Estagiária sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy

Tópicos: Simão Pereira