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Reinventando sons seculares


Por JÚLIA PESSÔA

15/07/2012 às 07h00

Embora a abertura oficial do 23º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga de Juiz de Fora, com o concerto da Orquestra Ouro Preto, seja hoje, os juiz-foranos mais atentos puderam ver seus primeiros sinais ainda na semana passada. Basta ter um olhar mais apurado ao caminhar pelo Centro. Eles estão lá, carregando seus instrumentos em cases de tamanhos variados: os músicos, indo e vindo de ensaios que culminarão na realização do que hoje é o maior evento brasileiro inteiramente dedicado à música historicamente informada. Alguns destes instrumentistas, com carreira de projeção internacional, integram um dos pilares do festival, a Orquestra Barroca, que neste ano grava seu 13º álbum, consolidando a mais longa discografia brasileira de música erudita, que vem imortalizando, ao longo dos anos, obras europeias do barroco ao clássico, além de peças representativas do período colonial brasileiro. "A Orquestra Barroca é uma marca do festival, que tem repercussão internacional muito grande, sobretudo com a gravação do CD, abrindo espaço para a música antiga, que não é um gosto musical padrão, mas que vem crescendo, e a orquestra tem um papel importante nisso", observa o regente do grupo e diretor artístico do festival, Luís Otávio Santos.

Na edição deste ano, os 25 músicos homenageiam o barroco alemão, executando obras de Georg Philipp Telemann, Johann Sebastian Bach e Johann Gottlieb Graun, ícones do período. "O barroco italiano e o francês são dois estilos muito marcantes desta época, e o alemão é uma síntese destas duas escolas. Então, de certa forma, estamos fazendo um resumo do universo deste estilo", explica Luís Otávio. O repertório, gravado na semana passada, será apresentado em um concerto nesta segunda, às 20h30, no Cine-Theatro Central.

Um dos diferenciais do grupo é a execução das peças com instrumentos de época, que garantem musicalidade característica às peças selecionadas. "É uma forma de resgatar a vivacidade de uma música secular, respeitando as técnicas e os recursos da época, mas sempre chegando a uma interpretação renovada", destaca o violinista juiz-forano Pedro Couri, veterano em participações na orquestra.

Além do tributo aos compositores alemães, o grupo também gravará "Tercio", de Emerico Lobo de Mesquita. "Única obra brasileira composta no fim do século XVIII, "Tercio" foi escrita em português, e tivemos acesso a seu manuscrito, o que permite a interpretação dos músicos a partir da fonte original." Ainda conforme o regente, a peça é emblemática tanto por apresentar traços essencialmente brasileiros e mineiros da música colonial quanto por ilustrar as diferenças entre Brasil e Europa. "É completamente díspar em relação ao barroco alemão, então o CD acaba por mostrar o abismo social e musical entre a realidade brasileira e a europeia."

 

Amadurecimento

Para seus integrantes, que se reúnem apenas uma vez por ano durante o festival, a trajetória da Orquestra Barroca, que completa 16 anos em 2012, vem proporcionando um amadurecimento não apenas da orquestra em si, mas da formação individual dos músicos como intérpretes de música antiga, já que muitos fazem parte do grupo desde seu início. "Viemos aprimorando o modo de interpretar este estilo musical, orientados pelas técnicas históricas, mas sempre com um produto final muito atual, que confirma a atemporalidade destas obras", pondera o argentino Diego Nadra, que toca oboé barroco.

Já o violista Luiz Henrique Fiaminighi, de Santa Catarina, destaca que a dedicação dos instrumentistas em torno de um objetivo comum é um dos segredos para o encantamento que a orquestra proporciona, bastando ouvir a primeira nota. "A permanência do trabalho da orquestra e o envolvimento dos integrantes na pesquisa criteriosa sobre seus instrumentos é determinante para o sucesso que se vem obtendo. Não basta dar outra roupagem ao repertório antigo, o trabalho envolve a busca por técnicas musicais e conceitos que possam fazer estas peças centenárias soarem novas." Fazendo coro com os outros músicos, Luís Otávio acredita que a orquestra, inserida na totalidade do festival, tem cumprido o papel a que sempre se propôs. "Antes a música antiga era um universo restrito, que, com a documentação, a divulgação e o aprimoramento das técnicas que a orquestra e o festival vêm realizando, tem se expandido, e vamos continuar sempre neste caminho, enquanto houver repertório a ser resgatado."

 

ORQUESTRA BARROCA

Nesta segunda, às 20h30

Cine-Theatro Central

 

Tango sinfônico para abrir a programação

A abertura do festival terá tempero mineiro, mas com toque latino-americano. Neste domingo, às 20h30, a Orquestra Ouro Preto faz concerto, no Cine-Teatro Central, baseado na obra de seu fundador e compositor residente, o músico argentino radicado no Brasil, Rufo Herrera. A apresentação conta também a história do tango, executado não como uma música de baile, mas por orquestra. "O concerto inclui arranjos de orquestra para os temas do tango, de sua história até o tango moderno", explica o maestro da orquestra, Rodrigo Toffolo. "Para Juiz de Fora, vamos trazer coisas novas, e podemos nos dar este luxo. Isso nos ajuda a moldar nossos músicos e polir melhor o trabalho."

 

ORQUESTRA OURO PRETO

Hoje, às 20h30

Cine-Teatro Central