Designer fala sobre a evolução dos jogos de tabuleiro

Sérgio Halaban, que esteve em JF na semana passada, criou as versões de War Batalhas Mitológicas (2012) e Império Romano (2007)


Por Fabiane Almeida, estagiária sob supervisão da editora Isabel Pequeno

15/06/2019 às 06h19- Atualizada 17/06/2019 às 15h33

Ao contrário de diretores e escritores, muitas pessoas não conhecem quem está por trás da criação dos jogos de tabuleiro e como acontece essa produção. Presente na vida de muitos de nós desde a infância, esses games evoluíram e têm um mercado promissor no Brasil. O paulista Sérgio Halaban é autor de mais de 40 jogos vendidos em todo o mundo, entre eles, as versões do clássico War, Batalhas Mitológicas (2012) e Império Romano (2007). Halaban esteve em Juiz de Fora na semana passada e conversou com a Tribuna sobre sua carreira e o universo dos jogos de tabuleiro. Para ele, a cidade é um dos polos brasileiros na produção de games, já que abriga diversos autores e uma das grandes editoras do país, a Conclave. É através desta editora que o autor lança uma nova edição de seu jogo Fórmula E, com previsão para 2020, também com lançamento no Brasil.

sergio halaban priamo
Sérgio é autor de vário jogos, como Sheriff of Nottingham (2014) e Quartz (2015) (Foto: Fernando Priamo)

Filho de pais argentinos, Sérgio nasceu no Equador, mas se considera brasileiro por crescer e morar em São Paulo. Formado em engenharia mecânica, mas com grande bagagem em design de produtos, Sérgio uniu sua profissão à paixão por jogos de tabuleiro, iniciando uma longa carreira. Aos 55 anos, ele acumula lançamentos ao lado do parceiro André Zatz, como Sheriff of Nottingham (2014); Quartz (2015); e Hart an der Grenze (2006). Halaban também já se aventurou no universo infantil, produzindo jogos nacionais das franquias de Star Wars e Turma da Mônica. Seu jogo mais vendido é o Floresta Encantada (2001), com cerca de 380 mil cópias. Além dos jogos de mesa, Sérgio já chegou a ser consultor na TV Globo, criando games para “Video show”, “Domingão do Faustão” e o reality show “No limite”.

Tribuna – Como começou sua paixão por jogos? É algo de família ou mesmo muito pessoal?

Sérgio Halaban – Acho que todo mundo tem uma relação parecida com jogos. Quase todo mundo jogou na infância, nem que fosse dama ou dominó com seu avô. Depois vamos virando adolescente e abandonando esse lazer. Mais tarde, por ter essa lembrança forte, retomamos e descobrimos que, ao contrário do que a grande maioria das pessoas pensa, que o jogo de tabuleiro é um produto que não evoluiu, que são os mesmos de quando era criança, é um produto que tem muita inovação. Esses jogos como Sheriff de Nottingham, Catan, as novas versões de War são jogos com outros conceitos, que todos jogam ao mesmo tempo, estratégicos, podem demorar mais, exercitam outras habilidades.

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Floresta Encantada é seu jogo mais vendido, com cerca de 380 mil cópias (Foto: Reprodução)

Como foi o processo de iniciar na carreira até chegar onde está, com cerca de 40 jogos publicados pelo mundo todo?

Foi um processo de 20 anos. O primeiro jogo que publiquei foi em 1998, Corrida Presidencial, em parceria com André Zatz (jornalista) e Silvia Zatz (cineasta). O objetivo do jogo era vencer a eleição, o papel do jogador era ser estrategista de campanha, percorrendo o Brasil para arrecadar votos. Quando fizemos esse jogo, foi mais por diversão do que como objetivo profissional, mas deu muito certo. Então começamos a ver demandas e a explorar as possibilidades. Nos últimos anos, pude me dedicar mais aos jogos de tabuleiro e focar em publicar até fora do Brasil, mas não é minha única profissão.

“Como autor, acho que tenho mais facilidade de criar jogos familiares, para dar risada e causar reações nas pessoas”

Você contou que guarda mais de 300 jogos em sua coleção pessoal. Tem algum que te marcou na infância?

Lembro claramente a primeira vez que joguei Detetive, eu tinha uns 10 anos. Também tenho uma lembrança muito forte da primeira vez que joguei War, achei genial e comecei a juntar dinheiro com meu irmão para comprar em sociedade uma caixa do jogo. Dos jogos modernos, lembro quando joguei o Catan (1995) e viciei. Também jogava muito futebol de botão.

Como foi ter a oportunidade de fazer duas novas versões do War (Império Romano e Batalhas Mitológicas) e os desafios por trás da produção, com pesquisas sobre o tema?

war batalhas mitologicas
Sérgio criou a versão de War: Batalhas Mitológicas (Foto: Reprodução)

Essa foi uma oportunidade de duas encomendas da Grow. Durante o processo (de produção) foi muito divertido, porque tinha a possibilidade de mudar o mapa, os objetivos dentro de um outro contexto, estudar os mapas do Império Romano, ver aqueles que melhor se adaptavam e como dividir os continentes. Tinham vários desafios técnicos que foram muito bacanas. Já a emoção de fazer War foi um sentimento misto. Por um lado era: poxa, com tanta ideia nova surgindo, vou fazer War, que já é um jogo ultrapassado? Por outro lado, eu vivia até aquele momento uma situação em que algumas pessoas não conheciam meus jogos, agora quando alguém me pergunta que jogo fiz, posso responder: eu fiz War!

“A maior remuneração de todas é criar um produto, as pessoas jogarem e dizerem o quanto se divertem”

Como é o processo de criação do jogo de tabuleiro, do surgimento da ideia ao protótipo, antes de ser aprovado pela editora?

Na maior parte das vezes, eu parto de uma narrativa ou tema que eu ache que renda. Aí vou tentar desenvolver uma mecânica e regras que representem da melhor maneira possível a situação que quero que os jogadores passem, é contar uma historinha. Quartz, por exemplo, são anões que trabalham em uma mina de pedras preciosas e apostaram para ver quem consegue, ao longo de cinco dias, minerar os cristais mais valiosos e ficar com a mina só para ele. Nesse jogo, tenho que considerar os perigos da mina, interferindo em quantas pedrinhas o jogador consegue pegar, uso uma mecânica de jogo que represente isso. Depois, tenho que testar isso N vezes, ouço os testadores e levo o protótipo para o editor. A parte de ilustração, designer gráfico e nome são decisões dele. No fundo é uma obra coletiva, que pode durar anos.

Com tantas tecnologias, os jogos de tabuleiro tiveram que se adaptar para competir com esses games?

É como a comparação do cinema com teatro. O teatro pode não estar no melhor momento, mas não acabou porque é outra mídia, outro espetáculo, outra relação com o espectador. Penso que tudo isso está inserido no contexto de lazer: você pode ler um livro, ir ao cinema, ouvir música ou jogar. Algumas pessoas têm isso como hobby, assim como outras preferem jogos de computador e também jogam tabuleiro. Existe um universo enorme dentro dos jogos de tabuleiro para quem quiser se aprofundar.

“As pessoas têm medo de jogar com os autores, mas criar jogos não significa jogar bem. Me classifico como um jogador médio”

Por que considera Juiz de Fora como um polo em produção de jogos modernos?

Juiz de Fora tem uma das principais editoras de jogos modernos do Brasil, a Conclave. Tem também autores de jogos lançados fora do país, inclusive. Então existe aí um mercado que não é relativamente pequeno, de um nicho que é o hobby, em uma cidade que não é uma das principais cidades no Brasil, mas que tem uma produção maior do que capitais como Salvador e Curitiba. Inclusive, o comerciante que vende mais dados no Brasil está em Juiz de Fora.

“Juiz de Fora tem uma das principais editoras de jogos modernos do Brasil, a Conclave. Tem também autores de jogos lançados fora do país, inclusive”

Como você avalia o mercado brasileiro de jogos de tabuleiro?

O jogo de tabuleiro é um hobby que tem crescido no mundo inteiro nos últimos anos, e o Brasil não é exceção. Acho que tem um futuro promissor, eu aposto bastante nessa continuidade do crescimento do mercado brasileiro, tem muito potencial. É um produto para todos os gostos e todas as idades. Inclusive, depois do advento dos smartphones e redes sociais, acho que nunca se jogou tanto quanto hoje, então o jogo está no dia a dia das pessoas, e o jogo de tabuleiro pega uma carona nisso.