Amor declarado em prosa, verso e película

Carlos Bracher e a filha Blima prestam homenagem à cidade histórica (Divulgação)
Fundada em 1711 e capital da província de Minas Gerais entre 1823 e 1897, Ouro Preto tem importância histórica e cultural que pode ser igualada por poucos municípios do estado e mesmo no país. Cenário de obras de Aleijadinho, um dos palcos da Inconfidência Mineira e terra adotada por diversos artistas, a cidade até hoje encontra quem possa se encantar por suas belezas naturais e arquitetônicas. Foi a inspiração para o livro “Ouro Preto – Olhar poético”, de Carlos Bracher, que agora tem seu desdobramento no documentário homônimo, em média-metragem, de Blima Bracher, filha do artista, que tem lançamento nesta sexta-feira, às 19h30, no anexo do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto.
Filmado em outubro de 2014 na cidade, “Ouro Preto – Olhar poético” divide-se em três partes, todas elas com os textos de Carlos Bracher narrados pelo próprio artista. A primeira, “A opulência barroca”, dedica-se ao surgimento da cidade e personalidades marcantes, entre elas Aleijadinho e os compositores barrocos e os inconfidentes. A segunda, “O renascimento”, trata do renascimento cultural a partir da década de 1950, em que artistas como Guignard e Carlos Scliar foram morar ou passaram longas temporadas na cidade, sem se esquecer do panorama atual. Também são lembradas figuras folclóricas como Bené da Flauta e Sinhá Olímpia. Terceira e última parte, “Roteiro poético” fala dos pontos turísticos da cidade, contando as histórias desses locais.
O documentário não é a primeira obra de Blima dedicada ao pai. Antes, ela já havia produzido “Âncoras aos céus” (2007), “Bracher: Pintura e permanência” (2014) e “Das letras às estrelas: JK, dos sonhos ao sonho de Brasília” (2015). Para sua obra mais recente, o que conquistou a cineasta foi o texto de “Ouro Preto – Olhar poético”. “O texto é lindo. Li ali tudo que me tocou desde a infância. As histórias da busca pelo ouro, os feitos do heróis da Inconfidência, a obra de Aleijadinho. Também convivi com muitos dos personagens descritos, como a hoteleira e artista Lili Correia de Araújo, a atriz Domitila do Amaral, os pintores Nello Nuno, (Carlos) Scliar, Ivan Marquetti e Marcier. Vivi os lendários festivais de inverno, ainda que muito criança. Também cresci convivendo com festas como a Semana Santa e o carnaval. Amo a Bandalheira, o Zé Pereira dos Lacaios e os blocos de rua. Quando vi aquilo tudo colocado no texto, senti que tinha que transpor tudo para as telas. Uma forma de deixar meu amor gravado para sempre. Fui movida por um amor profundo”, diz ela.
Influência paterna
Essa ligação com a cidade, acrescenta, já era influência paterna. “Papai me conta que sentiu um amor profundo, indizível por Ouro Preto, desde a primeira vez que pisou aqui. Foi em 1964, quando fez uma temporada de pintura com minha tia Nívea Bracher. Já eu vim morar aqui com 3 meses de idade, pois nasci em Juiz de Fora. Amo essa terra. Sua beleza, seus mistérios. A cidade tem muitos morros e desníveis, por isso cada ângulo te dá uma visão diferente, uma surpresa. Caminho pelas ruas, sorvendo cada pedra e imaginando os passos de quem passou ali antes. Ouro Preto tem fantasmas lindos. Acho que é uma terra muito bem assombrada.”
Já a decisão de fazer do documentário um registro turístico histórico vem do desejo de mostrar ao visitante a importância de Ouro Preto, seja pelas igrejas, monumentos ou outros locais. “A beleza da cidade em si já basta para saciar a vontade de conhecê-la, e minha intenção foi entrar a fundo nas histórias, oferecer um olhar além daquilo que está ali. O filme é um hino de amor a essa grande terra.”
Do céu
Para tornar a viagem histórica-poética-turística visual ainda mais intensa, Blima Bracher recorreu ao uso de um drone em um dos trechos do documentário, a fim de oferecer ao espectador algo que seria inimaginável no século XVIII: tornar literal um poema de Tomás Antônio Gonzaga. “No poema ‘Meu sonoro passarinho’, Tomás Antônio Gonzaga, já na prisão e prestes a ser degredado para a África, escuta um passarinho cantar e pede a ele que visite sua amada Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marília de Dirceu. Ele descreve o caminho que o pássaro deve seguir até chegar aos ouvidos dela e declarar seu amor. Pensamos em alguma forma de filmar isso. De início, íamos fazer pequenos cortes e editar em sequência. Mas algo parecia ruim. Então eu e o Ricardo Correia de Araújo, que assina a direção de fotografia, nos lembramos do drone, como uma boa opção”, explica.
O documentário já tem exibição garantida em Belo Horizonte, além de convites para a apresentação em Tiradentes e Viçosa. E Juiz de Fora está nos planos da artista. “Quero muito este lançamento na minha terra natal, mas ainda não temos data prevista.”









