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A amiga mais nova de Paulo Freire


Por MARISA LOURES

13/08/2016 às 07h00

Prima de Paulo Freire, Nathercia Lacerda lança livro com correspondências trocadas com o educador quando ela tinha 9 anos

Prima de Paulo Freire, Nathercia Lacerda lança livro com correspondências trocadas com o educador quando ela tinha 9 anos

Nathercia Lacerda ainda era chamada de Nathercinha. Tinha 9 anos de idade. Eram idos de 1967. Na casa de sua avó na Urca, era um movimento só. Muitos parentes e visitantes por lá passavam. Entre eles, Paulo Freire. À época, ela não sabia que o primo era um dos mais influentes pedagogos do século XX, responsável pela criação de um método de alfabetização que se reverberou no mundo. Também desconhecia os motivos que o levaram para o Chile. Nem passava por sua cabeça que o primo-irmão de sua mãe estava sendo perseguido pelos militares, quando começou a se corresponder com ele. “Para mim, um dia, Paulo estava morando no Chile, um país com neve, cordilheira, e eu via muita gente, meu pai, minha mãe, tios, escrevendo para ele. Percebia que havia um certo mistério, um certo segredo nesta troca de cartas”, conta Nathercia que, mesmo relutante no início, cedeu aos conselhos das amigas e pesquisadoras Cristina Porto e Denise Gusmão e a elas se juntou para a publicação de “A casa e o mundo lá fora – Cartas de Paulo freire para Nathercinha” (Zit Editora, 88 páginas).

Voltado para o público infanto-juvenil, o livro ilustrado por Bruna Assis Brasil resgata cinco cartas enviadas por Freire a Nathercinha. Contudo, vai além e traz toda a genealogia da família da escritora por meio de fotografias e de uma escrita traçada em primeira pessoa.

“Muitas pessoas se surpreendem e me perguntam: “Mas é Paulo Freire mesmo? Paulo Freire?” Sim, Paulo Freire, o educador. “Mas como é isso?” Então, começo a contar das minhas raízes para ir chegando à casa da minha avó materna, à amizade entre mim e Paulo, para depois mostrar o contexto em que as cartas foram escritas e foram trocadas. Até porque essa casa foi o último endereço em que Paulo Freire esteve antes de sair do território brasileiro. De lá, ele foi para a embaixada da Bolívia e depois para o Chile”, diz a autora e arte-educadora, que hoje faz parte do Centro Internacional de Estudos e Pesquisa sobre a Infância/PUC-Rio.

 

Tribuna – Nas cartas, Paulo Freire te contava curiosidades, como a descoberta da neve, mas eram tempos muito duros por causa da Ditadura Militar. Ele deixava transparecer algo sobre aquele momento?

Nathercia Lacerda – Na verdade, não. São cartas muito ternas, e ele me respondia. Então, deduzo também que eu escrevia sobre rotina de menina. Ele me fala muito sobre a natureza do Chile, a primavera, as cordilheiras, sobre como ele, com os filhos e vendo a neve pela primeira vez, se percebia menino ainda, sentia vivo o menino que ainda vivia nele. E ele me contava isso e dizia para que eu não deixasse a menina que eu era ir embora, que eu seguisse com essa menina. Em alguns momentos, ele também falava que eu era uma menina privilegiada, que nem todas as crianças tinham as mesmas oportunidades que eu, mas, ao mesmo tempo, dizia: “eu não quero ter conversa chata de adulto com você”. Ele não deixava de ser o educador. Aos poucos, ele ia me mostrando algo do mundo, mais amplo do que a casa, do que o quintal da casa da minha avó, mas em momento nenhum ele falava com clareza, não citava nada.

 

– Sua mãe te orientava a mudar o destinatário. Isso te deixava intrigada?

– Isso era algo que me intrigava, mas que, ao mesmo tempo, me instigava também a continuar escrevendo porque eu tinha que cuidar desse destinatário, tinha que cuidar de tudo. Eu perguntava para minha mãe: “mas por que eu tenho que escrever este outro nome?” Aí ela dizia que esse era o jeito mais fácil de a carta chegar. Ela não avançava muito na conversa, e eu também não perguntava muito, ficava com essa curiosidade, com essa interrogação no ar. Não lembro também que nome eu colocava no envelope.

 

– Paulo Freire dizia para você estudar, sem nunca perder a graça da infância. Curiosamente, você atua como arte-educadora, trabalhando com brinquedos e brincadeiras. Seguiu o conselho do primo?

– A Cristina Porto e a Denise Gusmão, minhas amigas e pesquisadoras, souberam dessas cartas e me mostraram o quanto seria importante publicá-las porque não havia nada de Paulo Freire voltado para criança, numa conversa com criança. Na verdade, ao escrever uma carta no final para ele sendo a Nathercia de hoje, relendo mais uma vez essas cartas, me deparei novamente com essa menina que eu levo comigo no meu fazer profissional, na minha vida diária, e esse processo foi muito bonito. Foi muito interessante ver o quanto o que ele me apontava nas cartas se manteve. Na minha vida profissional, trabalho num centro de pesquisa sobre a infância. Caminhei pelas escolas, estando junto com as crianças e circulando também por vários lugares, circulando pela rede de pontos de cultura, encontrando grupos diferentes. Segui com a Nathercinha.

 

– Aonde você quer que “A casa e o mundo lá fora” chegue?

– Desejo que esse livro contribua com os leitores, com a educação, com os processos e práticas educacionais, que contribua para quem gosta de ler. Desejo que ele contribua também para que as pessoas possam conhecer um pouco mais de um período do país contado pelo olhar de uma menina. A gente espera que ele tenha um bom caminho, que voe e chegue a muitos lugares.

 

 

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