Arte conectada à solidão coletiva

O mitológico e o tecnológico se encontram na obra de Gilberto Medeiros

Figuras da cultura pop como David Bowie entram na visão de mundo dependente das novas tecnologias
As tecnologias digitais (smartphones, tablets, laptops, PCs etc.) fazem parte cada vez mais do nosso cotidiano. É difícil encontrar pelas ruas quem não esteja, em algum momento, checando e-mails, jogando conversa fora pelo WhatsApp ou atualizando suas postagens no Facebook e demais redes sociais. Esses relacionamentos virtuais tornam-se essenciais a ponto de fazer com que esqueçamos o outro que está ao nosso lado, ou que as conversas sejam desenvolvidas apenas pelos toques no teclado. São essas questões que instigaram o artista plástico Gilberto Medeiros a criar a série de obras da exposição “Nos amis ou a fauna”, que pode ser conferida até domingo no Forum da Cultura com entrada franca.
Os trabalhos, criados a partir de 2014, são inspirados justamente pelo excesso de tempo que demandamos para o mundinho que circula na velocidade da luz entre “likes”, selfies e outras modas da virtualidade do século XXI. A mostra – a primeira individual de Gilberto após participar de coletivas – conta ainda com textos e letras de música, escolhidos para complementar o sentido das obras.
Os 13 trabalhos apresentados na exposição foram criados utilizando técnicas como aquarelas, nanquim, grafite, lápis de cor, colagens, pastel a óleo e intervenções digitais. “Comecei essa série em 2014, mas ela foi acentuada quando retornei a Juiz de Fora. Fui me relacionando com a galera mais nova, e chamou a minha atenção a intensidade com que usam o celular e a internet. Digo, inclusive, que este não deixa de ser um trabalho coletivo, que partiu das histórias que eles me contavam ou que cheguei a acompanhar”, diz Gilberto. “Uma das obras foi inspirada na história de uma menina que voltou da UFJF até sua casa, em Benfica, só para pegar o celular que havia esquecido.”
Para ilustrar muitas dessas histórias, Gilberto utilizou figuras conhecidas da cultura pop, fossem artistas ou personagens de cartuns, assim como figuras mitológicas – o que rende trabalhos interessantes, com David Bowie, a dupla de música eletrônica Daft Punk, um tritão e Cérbero, o cão de três cabeças, interagindo com as pequenas maravilhas da tecnologia. “Quando você usa uma figura dessas, em particular as criaturas mitológicas, a crítica fica mais tênue”, pontua o artista nascido em São João Nepomuceno e que voltou a morar em Juiz de Fora há três anos, onde é acadêmico do curso do IAD (Instituto de Artes e Design).
Na rede, mas sem superexposição
Questionado sobre o uso que faz das redes sociais, Gilberto Medeiros diz que tenta não expor em demasia sua vida pessoal na web, ao mesmo tempo em que tem consciência de que é preciso saber e entender os limites de cada um. Mesmo assim, diz que o celular tem modificado alguns hábitos cotidianos. “Antes eu tinha o costume de ler algum livro nos transportes coletivos, mas hoje fico no celular. Pelo menos, fico com o meu aparelho até quando der, afinal somos compelidos a comprar o telefone mais novo. No quadro do David Bowie, por exemplo, ele parece estar com o capacete quebrado, mas não desgruda do celular. ”
Para o artista, as pessoas, atualmente, parecem estar numa bolha “que pode ser mais interessante do que está a seu redor. Acho muito perigoso isso, porque você fica dependente. Afinal, o mundo virtual parece ser muito mais fantástico que o real.”
Após a exposição no Forum de Cultura, “Nos amis ou a fauna” poderá ser conferida em julho na UFJF. Pretendo aumentar o número de obras em exposição, incluindo algumas esculturas em que comecei a trabalhar a partir desse mesmo tema.”
NOS AMIS
OU A FAUNA
De Gilberto Medeiros
Sexta-feira, das 14h às 18h, sábado e domingo, das 15h às 18h. Até dia 15 de maio
Forum da Cultura
(Rua Santo Antônio 1.112)









