Roubaram-lhe uma cidade

Descendente de italianos, Sebastião começou a engraxar sapatos em 1960
Verde, preto, vermelho, com detalhes em branco, com detalhes em renda, floridos, em couro, caros, baratos, pequenos ou grandes. Ficamos, eu e Sebastião Pedreti, a olhar os calçados que desciam a Rua Halfeld do fim de tarde da última quarta-feira. “Pode ver que é tudo tênis”, observa o engraxate de 76 anos, 56 deles dedicados ao ofício de lustrar os já raros sapatos. “Antigamente tinha muito sapato de couro de boi. Ultimamente é tudo sintético. Não digo que é ruim, mas é outro material. Mas tem sapatos bonitos hoje. A maioria da população usa tênis. Eu tenho um, mas não gosto não, porque esquenta muito o pé. É bom para dia de chuva”, diz, cabisbaixo, o homem que acostumou-se a olhar para o chão.
Como a usar uma foice, subtraiu-lhe a atividade. O tempo, cruel, roubou-lhe também uma Juiz de Fora em alguma medida mais peculiar. “A cidade era pequena, depois foi se expandindo, crescendo. Antigamente não tinha tantos prédios como hoje. Aqui foi sempre assim, com esses dois prédios do lado e o cinema no fundo. Aqui sempre foi uma praça, mas era ladrilhada, com um ladrilho cinza no meio e nos passeios, um mais escuro. Tinha marquise nos dois lados. Na Rua Halfeld desciam os carros, e subiam pela São João. Teve ocasião em que estacionavam muitos carros aqui, para o restaurante Faisão Dourado. Era o tempo dos bondes. Já faz muito tempo”, recorda-se o senhor que trabalha tendo como cenário o Cine-Theatro Central, na Praça João Pessoa.
Os pés do pai
De início, Sebastião trabalhava entre paredes e um teto. A rua lhe apareceu como única saída em 1985. “Em 1960 fui trabalhar com um irmão que tinha Loteria, vendia bilhete, jornais e revistas, e tinha caixa (de engraxate). Era empregado. Depois cismei de ficar por conta. Antes disso trabalhei em fábrica de vassouras, como auxiliar”, lembra ele, um dos oitos filhos (hoje restam, apenas, três irmãos) de uma casa que viu o pai se despedir cedo, e a mãe restar em obrigações com a grande família. “A gente sempre foi pobre, trabalhava, lutava. Minha mãe ficou viúva muito cedo. Meu pai morreu novo. E a molecada ficou para criar. Então, cada um tinha que se virar”, conta ele, órfão aos 5, formado em contabilidade e engraxate por “força do destino”. “Meu irmão era uma influência. Montei para mim também uma engraxataria aqui. Tinha um bar famoso na esquina, o Salvaterra, e eu ficava na escada do prédio. Depois vim para uma lojinha na Praça e, mais tarde, vim para a rua.”
Os calçados empoeirados
Enquanto fala, direciona o olhar para um lugar distante. Rapidamente Sebastião parece se transportar para aquele tempo em que as pessoas saíam de seus bairros sem asfalto e, ao chegar no Centro, precisavam limpar e lustrar os calçados já empoeirados. “Tinha muito movimento”, lembra. Dava dinheiro?, pergunto. “Muito não, mas dava para sobreviver”, responde o marido de Maria Helena, pai de um casal, avô de cinco e bisavô de um. Com problemas cardíacos e uma frequência já não seguida à risca, o senhor que sempre trabalhou com uma cadeira alta. Sebastião, nascido no Alto dos Passos e atual morador do Jardim de Alá, seguiu a sina do trabalho, traçada pelos avôs paternos Afonso Pedreti e Elvira Zambeli, que vieram da Itália trazendo os filhos e o sonho de uma vida melhor. “Eles vieram para trabalhar em lavoura ou na estiva. Dizem que chegaram por causa da guerra, e aqui no Brasil tudo era novo e precisava de muita mão de obra”, pontua o engraxate que não pensa em parar. Pensa? “Nessa altura do campeonato, não. Já perdi minha vida toda aqui. Perdi em termos, gastei toda aqui, então, aos 76 não dá para mudar. Agora quero é paz.”
Os sapatos de Olavo Costa
“Primeiro andava descalço, depois de tamanco, depois de chinelinho. Fui crescendo e calcei o sapato”, enumera Sebastião, que sempre lustrou o próprio sapato e de mais um monte de nomes importantes de Juiz de Fora. “Todos engraxavam comigo, prefeitos, vereadores, deputados. Sou do tempo do Olavo Costa”, recorda-se, referindo-se ao político que comandou a cidade em 1950 e 1958. Gente boa, ele? “Gente boa.” Comentava as coisas da Prefeitura? “Essa gente não anda sozinha. Tem sempre dois ou três com ele, então a gente só fala o necessário”, responde. Hoje, fala ainda menos, já que o tempo lhe sobra diante dos poucos sapatos que se apresentam à sua frente. “É o ciclo da vida”, diz. “Antigamente o pessoal era mais caprichoso, mais alinhado. De terno, gravata. Os senhores usavam chapéus. Hoje não, colocam uma camisinha, e está tudo bem. Antigamente, para vir ao cinema, as pessoas se arrumavam. Eram filas enormes. Eu ficava das 7h às 20h e, aos domingos, até 23h30. Em Juiz de Fora, a diversão era toda no Centro, e, nos bairros, não havia nada”, relata o homem. Acompanho – calçado num tênis marrom, numa camisa de malha cinza, numa informalidade que a mim sempre soou extremamente natural -, Sebastião me mostrar que o tal tempo também me roubou uma cidade que adoraria ter conhecido.









