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Para além das bibliotecas


Por Tribuna

13/03/2016 às 07h00- Atualizada 13/03/2016 às 10h46

Sabrina Souza, Marisa Timponi e Stefany Oliveira preparam a

Sabrina Souza, Marisa Timponi e Stefany Oliveira preparam a “Biblioteca estante”, inaugurada neste domingo no Clube Cascatinha (FERNANDO PRIAMO)

De um ninho de passarinhos, instalado na Praia de Copacabana e em comunidades do Rio, os livros “voam” para as mãos do leitor carioca. Viajando mais de 900km, para Ponta Grossa, no Paraná, eles também estão espalhados por todos os lados, em espaços públicos, através do “Projeto Pegaí – Leitura grátis”. Já em Belo Horizonte e em São Paulo, lugar de ler, emprestar e doar livros é nos pontos de ônibus, onde está montada a “Parada do livro”. Sob várias caras e vários nomes, propagam-se pelo país iniciativas que desconstroem a crença de que a leitura deve se restringir às paredes de uma biblioteca. Aqui na terra de Murilo Mendes e Pedro Nava, desde ontem, uma ideia semelhante está sendo posta em prática, no Alameda. É no movimentado centro comercial que o grupo Café com poesia e Arte inaugurou o “Ciranda de livros”, somando-se a iniciativas, como o “Biblioteca estante”, do Clube Cascatinha, aberto neste domingo, e o “Mutirão da meninada do Vale Verde”, que faz história no Bairro Vale Verde, Zona Sul de Juiz de Fora, desde 1994.

“Pensamos a biblioteca de uma forma muito diferente do modelo convencional, mas não queremos acabar com ela”, dispara Maria Helena Sleutjes, coordenadora do Café com poesia e Arte, pontuando que a intenção dos idealizadores do “Ciranda” é fazer a informação circular. “Em primeiro lugar, queremos incentivar a leitura, independentemente de classe e de idade. Em segundo, acreditamos que falta, no mundo, respeito por aquilo que é comum, que vai beneficiar o outro. Por isso, vamos trabalhar com a questão da educação cidadã. Os títulos ficarão disponíveis sem qualquer pessoa controlando. A devolução depende da consciência do cidadão. Ele terá que ter em mente que pegou algo que tem valor e, portanto, deveria ler, cuidar e devolver à estante”, explica a bibliotecária. “Somos um grupo inteiro que se dispôs a ficar observando, orientando, caso alguém se aproxime e se mostre indeciso na hora da escolha.”

Para compor o acervo, 500 obras, em sua maioria de escritores juiz-foranos, já estão devidamente registradas, carimbadas e preparadas, e os exemplares ocuparão as prateleiras em doses homeopáticas. “Nosso foco são os livros de literatura e arte, embora aceitemos títulos de assuntos em geral. Sabemos que o resultado vai depender, também, da nossa habilidade na montagem da estante, tendo sensibilidade para expor obras que vão atrair a criança, o jovem e o adulto”, comenta Maria Helena.

Maria Helena Sleutjes (de vermelho), Luiz Almeida e Ana Masala ajustam a "Ciranda de livros", aberta ontem no Alameda (FERNANDO PRIAMO)
Maria Helena Sleutjes (de vermelho), Luiz Almeida e Ana Masala ajustam a “Ciranda de livros”, aberta ontem no Alameda (FERNANDO PRIAMO)

O primeiro passo

Inspirados por projetos que se multiplicam nos quatro cantos do Brasil, o Café com Poesia e Arte se lançou na empreitada por acreditar que pode contribuir, sim, para mudar o cenário de um país em que o número de leitores caiu de 95,7 milhões em 2007 para 88,2 milhões em 2011, segundo última pesquisa realizada pela Fundação Pró-Livro e o Ibope. A proposta surge justamente na semana em que Luís Antonio Torelli, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), faz um desabafo sobre um possível desestímulo ao hábito da leitura.

“No exato momento em que novo relatório da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) indica que o Brasil inclui-se entre os dez países que têm mais alunos com baixo rendimento escolar em matemática, compreensão de textos e ciências, corremos o risco de enfrentar um processo de desestímulo ao hábito de leitura, desencadeado pelo reajuste de 24% no preço do papel de imprimir, anunciado pelos fabricantes em fevereiro. Lembrando que essa majoração segue-se a aumento acumulado de 11% em 2015. É uma contradição, considerando que os livros são decisivos para que possamos reverter a má qualidade do ensino”, afirma Torelli, ressaltando que a CBL estima que o impacto desse reajuste no preço final para os consumidores será de 16%, índice incompatível com o atual quadro recessivo do país. “Não há como as famílias assimilarem um aumento de tal proporção. Portanto, o encarecimento do papel nacional e suas consequências na cadeia produtiva são um desestímulo ao hábito de leitura, que já é baixo em nosso país, de 1,7 livro por habitante/ano”, reforça o livreiro.

“Apesar de termos um manancial de títulos sendo lançado todos os dias, o número de leitor é pequeno. Outra informação me diz que três em cada quatro pessoas no Brasil não frequentam bibliotecas”, alarma-se Maria Helena, para logo alegrar-se com a boa aceitação da proposta aqui na cidade. “Encontramos quatro patrocinadores excelentes. Sem eles, a gente não teria conseguido doadores incríveis, pessoas que nos deram 20, 50, 70, 200 livros. Entre os apoiadores, está uma livraria. A proprietária poderia pensar que vamos competir com ela, mas ela foi inteligente ao perceber que vai ajudar a formar novos leitores que, no futuro, serão compradores em potencial.” Com o entusiasmo dessa turma, que se reúne mensalmente para fazer uma ode à literatura, é bem capaz de o “Ciranda de livros” não demorar a chegar a outros espaços de Juiz de Fora. Correr do vaivém de pessoas é tudo o que esse grupo não quer. “Chegamos a imaginar, por exemplo, um supermercado, que tem um área de circulação muito boa. Pensamos, de repente, numa praça que tivesse uma estrutura para os livros não sofrerem com chuva, vento e sol. Decidimos pelo Alameda, exatamente, porque lá tem um fluxo bom de pessoas com idades variadas. Se a gente conseguisse a rodoviária da cidade, seria ótimo. A ideia é levar o livro para casa para ler com calma e usufruir do que suas páginas podem oferecer.”

Uma estante, alguns livros

Entre as mãos, a professora Marisa Timponi tinha, na última quinta-feira, vários títulos que estarão, a partir deste domingo, expostos na “Biblioteca estante”, do Clube Cascatinha. Magda Trece (‘Vó Filó – A caçadora de maravilhas”), Fernanda Cruzick e Gisela Barbosa (“A história das três bonecas”), Maria Helena Sleutjes (“Ana Balão” e “O baú das piratas poetas”), Fabiana Nogueira Neves (“Nascer é assim também”), José Henrique da Cruz, o Mutum (“Manuscritos azuis”) e Emanuelle Ferruggini Ferreira (“Em busca do sol”) são alguns dos escritores de Juiz de Fora que fazem parte da coleção que dará lugar e vez aos autores locais. “Precisamos divulgar nossos nomes para que eles sejam procurados nas livrarias”, defende a professora, cujas obras de sua autoria figuram no acervo de mais de 250 exemplares. O número de doações triplicou em menos de três semanas, conforme conta Marisa, que disparou uma campanha de arrecadação no Facebook.

Ainda que os pequenos sejam o alvo principal dessa aventura, capitaneada, também, pela professora Leila Barbosa, os adultos não deixarão de ser beneficiados. Na inauguração, programada para as 13h deste domingo, haverá contação de histórias com Dalila Roufi e D’Roufi, e a previsão é que, uma vez por mês, os frequentadores do local possam conferir uma atração diferente. Na relação de confirmados para esse encontro com o leitor estão Margareth Marinho, com o “Caça ao saci”, Maria Helena Sleutjes, Magda Trece e Fernanda Cruzick. Segundo Marisa, os participantes do clube poderão pegar o livro emprestado por um período de 30 dias.

“Vi que aqui é um local para curtir os livros, sem compromisso, sem cobrança.” Atuantes no meio literário de Juiz de Fora, Marisa e Leila decidiram-se pelo projeto no ano passado. Para a dupla, a cidade é carente de estímulos à leitura. “Essa é uma tendência atual, inclusive há um projeto incrível em Paris, na França, que se chama ‘O furor de ler’ (‘Fureur de lire’). Eles distribuem livros pelas praças, pelas ruas de movimento, para que as pessoas possam se sentar e ler. Ler na rua. O que acontece com a educação é que ela só chega se você leva o livro para o leitor, e quando chegamos à última página, ele está dentro de nós. Ele nunca acaba”, sentencia Marisa, bradando por mais estantes espalhadas por toda a cidade. “A fim de criar o hábito, fazer a vontade de ler efervescer no momento em que existe uma carência, temos que incentivar. A ideia de uma ‘Biblioteca estante’ sempre nasce assim. Uma estante, alguns livros, que depois cresce naturalmente.”

Moradores do Vale Verde usufruem da leitura e a promovem em pontos como o posto de saúde do bairro por meio da iniciativa do Mutirão da Meninada (Foto: Fernando Priamo)
Moradores do Vale Verde usufruem da leitura e a promovem em pontos como o posto de saúde do bairro por meio da iniciativa do Mutirão da Meninada (Foto: Fernando Priamo)

Novos modos de habitar no mundo

Já vai para 22 anos que uma professora recebeu o convite para participar de reuniões com os moradores de uma comunidade que estava se formando no Bairro Sagrado Coração, Zona Sul da cidade. A região ainda não tinha casa, nem rua, nem rede de esgoto. Mas tinha vida. “No começo, os encontros aconteciam na rua. Depois, quando a Prefeitura começou a fazer o arruamento, passamos para as casas em começo de construção, com música, teatro, capoeira e leitura”, recorda-se Maria Helena Falcão Vasconcellos, a professora que estava à frente do movimento e que hoje se junta a outras oficineiras adultas que doam parte de seu tempo para o Mutirão da Meninada do Vale Verde, responsável por levar arte e literatura para as crianças e adolescentes da localidade. Atualmente, os cerca de mil livros que compõem a coleção de literatura infanto-juvenil têm um lugar fixo no terraço da residência de um morador do bairro.

No entanto, em junho, eles deixam as estantes, pulam para os carrinhos e ocupam a praça. Como se não bastasse, uma vez no ano, os moradores ainda podem sair atrás de uma curiosa “Folia de livros”. Inspirado pela folia de reis, nesse cortejo literário, pode-se ouvir e contar histórias, criar palhaços, tocar tambores, fazer malabares e plantar e cultivar sementes e mudas. Desmistificando, de vez, a ideia de que lugar de livro é somente nas prateleiras sagradas de uma biblioteca, de dois em dois meses, o grupo segue com as obras para o posto de saúde do bairro, onde também acontecem sessões de contação de história, às 7h30, para os pacientes que estão na fila de espera. “Não sobra um livro sequer. Se quiserem levar para casa, podem levar. Se quiserem trazer de volta, podem trazer. A gente acha que vale a pena desenvolver o projeto porque a literatura produz seres humanos mais sensíveis”, reflete Maria Helena, orgulhosa, ao comentar que a iniciativa já recebeu o prêmio do Ministério da Cultura, “Pontinhos de cultura”, com o qual pôde comprar novos títulos para a biblioteca. “Temos recursos da Funalfa um ano sim e outro não, por meio da Lei Murilo Mendes. Como, em 2015, a gente recebeu a verba, os oficineiros eram remunerados. Neste ano, todos trabalham voluntariamente.”

Procura espontânea

Maria Helena conta que, em meio aos seleto grupo de leitores, também nascem pequenos escritores, o que garante o lançamento de publicações, como um livro de contos, apoiado pela Lei Murilo Mendes, um de poesias, e um de microcontos. Para breve, está previsto um livro de haikai. “Para nós, o principal é possibilitar a experiência da dignidade de existir”, afirma ela, enumerando os trabalhos do Mutirão. “Também temos uma atividade que se chama ‘Hora de aprender.’ Dividimos os meninos em quatro turmas. Cada uma delas começa sempre com uma roda de leitura. É um acompanhamento escolar. Agora estamos fazendo uma ‘Maratona de estudos’, em que as crianças ganham créditos simbólicos a cada conquista. Elas poderão trocar os pontos acumulados por material escolar.

Vamos começar uma oficina de direitos humanos, a partir do cinema, e a grande sensação é o passeio anual de um dia inteiro numa piscina. Um amigo nos empresta a granja, e a criançada decide o cardápio.” Após mais de duas décadas de atividades ininterruptas, “modificando-se e reestruturando-se de acordo com as necessidades e as condições de trabalho”, conforme Maria Helena faz questão de ressaltar, a prova de que o trabalho deu certo é que 50 crianças, espontaneamente, se entregam à magia que a leitura e a arte podem oferecer. A inscrição é feita pelo próprio interessado e tem até fila de espera. “Estamos constatando que muita gente está realizando iniciativas que constroem, que produzem uma cidade melhor. Defendo que a literatura é capaz de produzir novos modos de existir, novos modos de habitar neste mundo que não seja com tanto ódio.”