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Surfista da palavra


Por MAURO MORAIS

12/07/2016 às 07h00- Atualizada 12/07/2016 às 08h14

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Gigantes, os elefantes se mostraram ainda maiores na trágica tsunami que atingiu a Ásia no já distante 2004. Segundo informações do Parque Nacional Yala, no Sri Lanka, a despeito das numerosas perdas humanas, nenhum animal foi encontrado sem vida na reserva ecológica. A justificativa se encontra, no entanto, na seleção natural, que deu aos elefantes a capacidade de ouvir infrassons, ou seja, ondas sonoras na freqüência das produzidas por abalos sísmicos. Eles ouviam com os pés. “Uma prosa de Sócrates” (Edições Macondo, 30 págs.) , novo livro do escritor e professor da Faculdade de Letras da UFJF, André Monteiro, passa por esse caminho. “É uma poesia ligada ao pé, ligada ao corpo”, diz.

“A gente tem que se educar para as tsunamis. Não é para se entregar para qualquer onda. Em minha poesia, tento brincar com a palavra colocando nela o máximo possível de corpo, e isso implica fazer com que não seja só um jogo de forma. Tem que brincar com a forma, sim, com o som, a imagem, não é palavra por palavra, mas fazer falar na palavra o indizível, o incontornável”, defende.

“Morrer, nascer e crescer com leveza. Nem sempre o amado. Quase sempre, o amador”, escreve o poeta em sua desconstrução de um Sócrates inatingível, de um filósofo que se entrega aos botequins , a “noel rosa”, ao saci-pererê e a “tia nastácia”. Um filósofo sem caixas altas. Nesse princípio, persegue um pensador que pode dizer do hoje com a crítica para transformar o amanhã.

“No mundo que a gente vive hoje, estamos muito condicionados por procedimentos utilitaristas. Queremos fazer alguma coisa pensando no fim. É a metodologia do halterofilista em detrimento da metodologia do surfista”, analisa André, para logo se fazer claro: “O halterofilista é aquele cara que treina o corpo todo em função de um fim que ele já sabe qual é. Ou ele vai levantar o peso ou não vai. Já o surfista tem outra metodologia, que é se preparar para encontrar o que ele não pode prever de antemão. Ele nunca vai saber qual vai ser o desenho da próxima onda, o peso, a densidade, ele precisa treinar o corpo não para o possível, mas para o impossível. Pensando no texto do Chacal: ‘só o impossível acontece, o possível apenas se repete, se repete, se repete'”, recita o escritor.

O treinamento do surfista, portanto, está muito mais ligado ao processo do que ao produto. “Menos pelo produto, mais pelo processo”, escreve em sua obra. “O Sócrates tradicional é aquele do produto, que cristianizado diz que é preciso renunciar aos prazeres do corpo em função de uma imortalidade que está na alma. Quis ler outro Sócrates que é contemporâneo porque cutuca a hegemonia do utilitarismo que vivemos.”

Conhece-te

Próximo de um poeta underground, que olha muito mais para baixo do que para o alto, o Sócrates de André Monteiro perde a poeira do tempo. “Na periferia dos textos de Platão, encontramos um Sócrates muito diferente do dicotomizado, moralizador. Essa leitura pode ser potente hoje porque podemos tirar proveito de outra metodologia de produção de pensamento. É um livro literário – não tem a preocupação de resgatar um Sócrates histórico -, mas também um livro preocupado com o que acontece na universidade hoje”, pontua o professor de 42 anos.

“A universidade hoje é operacional, lembrando o termo que a Marilena Chauí (professora e filósofa) criou para criticar o produtivismo da universidade. Nesse lugar, tudo é feito em função de uma competição cheia de padronizações. Tudo em função do ‘homo lattes’. A gente não perde tempo mais, não bate papo para ver o que vai acontecer, mas, o tempo inteiro estamos produzindo para ganhar alguma coisa. Um capitalismo cognitivo que tomou conta das universidades”, critica ele, certo de que a sala de aula também pode servir à criação, à medida em que se afasta da ideia de gabinete e se “ajunta” a rua.

“Tenho tentado escrever textos ensaísticos dentro dos quais posso inventar, não só cumprir o protocolo de analisar e ficar a reboque de uma obra. Vejo o mundo acadêmico como um lugar de criação, um lugar poético. Uma aula pode ser um lugar de poesia se ela for encarada como um surfe e não como um halterofilismo”, define ele, que cataloga “Uma prosa de Sócrates” como ensaio e brinca com a ideia de a obra ter sido “psicografada de ouvido pelo rapsodo André Monteiro”. “Não é só uma literatura que brinca com o Sócrates. Ela pode ser séria sem ser sisuda”, sorri.

Politique-se

Expoente da geração da poesia juiz-forana dos anos 1990, André Monteiro em seu quarto livro confirma uma postura rebelde no verso e na prosa. Não quer conservar, mas conversar. “Literatura não é lugar de conservação. A gente tem que se abrir sempre para o que não sabemos. Saber lidar com o que não sabe, assumir certa ignorância com o próprio fazer”, comenta ele, que ganhou as ruas em vestes brancas, semelhantes às gregas, para recitar “Uma prosa de Sócrates” no curta-metragem homônimo. “É o encontro do teatro do roteiro previamente montado com o teatro da rua. Conversas loucas vão acontecendo. Tem a ver com a ideia do Sócrates mundano, prosaico, coloquial, que vive muito mais o processo que o produto”, conta.

Resistente, outsider, desafinado, o Sócrates que percorre a parte baixa do Centro da cidade e enfrenta o riso na Halfeld, é o mesmo que se indigna. “É o cara que questiona, que sai do senso comum, que interroga o senso comum. Não leio ele como um homem, mas como uma energia de pensamento que inaugura a ideia da filosofia. Para mim a poesia também tem essa função, de quebrar o que está posto”, aponta André.

Esse Sócrates do despertar, muito mais do que o recolher, o Sócrates dos infrassons, desnuda um André Monteiro político. Apontado pela edição de junho da “Revista Cult” como um dos nomes representativos da poesia contemporânea brasileira, o único juiz-forano na análise coordenado pelo poeta, ensaísta e professor da UFRJ Alberto Pucheu mostra o “engajamento” de uma nova escrita.

“Entre os versos que não apontam uma saída, nem como utopia nem como apreensão de um significado, há uma fenda, um hiato, em que vaga uma multiplicidade de gritos. Em um tempo em que há quem diga que a poesia está destituída de política, André Monteiro mostra que a resistência da poesia está tão forte quanto antes”, defende a pesquisadora Danielle Magalhães, em artigo para revista.

“‘Uma prosa de Sócrates’ é político também, porque é minha maneira de operar o pensar e o escrever. É político porque está comprometido com a ideia de liberar a vida onde ela se encontra aprisionada. Tem uma tendência na poesia contemporânea, segundo a ‘Cult’, de reaproximar a política da poesia pelo caminho do processo”, comenta André.

Erre-se

Na escrita crítica, portanto política, de André Monteiro, há um esperança. Nem tudo está perdido. E Sócrates, nesse sentido, serve como fôlego. “O homem está cansado do homem. Nossa cultura ocidental sempre achou que o homem era o mais importante do mundo. Separamos o homem da natureza, o pensamento do corpo, a poesia da filosofia. Estamos cansados desse homem que a gente criou. Precisamos esquecer um pouco essa imagem de homem que a gente carrega e que nos trouxe tanta culpa e ressentimento. O homem que a gente criou quer acertar demais”, pontua o escritor, político por acreditar na relação do homem com o homem, e político, também, por reservar para o colofão, aquela pequena parte ao fim do livro, onde se lê a tipografia da obra, que “Uma prosa de Sócrates” foi editado em junho de 2016, “enquanto o Brasil sofria um golpe em sua recente democracia”.