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‘Fazer poesia fazendo livros’


Por Tribuna

12/06/2016 às 07h00

Eduardo Lacerda já publicou quase 400 títulos de literatura e venceu os principais prêmios do país

Eduardo Lacerda já publicou quase 400 títulos de literatura e venceu os principais prêmios do país

Um amor para toda a vida e o ponto final. Mais de 120kg convertidos em magreza por uma diabetes negligenciada. Um curso de letras inconcluso. Em tempos de cólera, um amor que exige renúncia e resulta em quase 400 títulos publicados e cerca de 30 mil exemplares a inundar uma casa. “Não gosto de pensar a renúncia como algo ruim. Minha vida é 20 horas de trabalho por dia. Não poder ir ao parque ou sair para andar de bicicleta é renúncia. Leio muito menos do que antes de montar a editora. Não posso me dar ao luxo de pegar um (Fiódor) Dostoiévski, 200 páginas e passar seis horas lendo. É insano, não recomendaria para ninguém, mas é o que estou escolhendo fazer. Não é uma obsessão, é paixão. Sou apaixonado por isso e vejo importância”, pontua Eduardo Lacerda, editor da Patuá, a mais prolífica e premiada das pequenas editoras do Brasil voltadas para a literatura contemporânea.

Um risco. Chegando a mais de uma dezena de livros publicados por mês, a Patuá se notabilizou no país ao lançar novos nomes na cena e incorporar um processo de produção autônomo e constante, além de abocanhar distinções concorridas, como o Jabuti, no qual levou o terceiro lugar na categoria poesia, no último ano, para Manoel Herzog e seu “A comédia de Alissia Bloom”. Por dois anos seguintes, faturou o São Paulo de Literatura, com o romance “Desnorteio”, de Paula Fábrio, em 2014, e os poemas de “Nossa Teresa”, de Micheliny Verunschk, em 2015.

Um custo. No início, recorda-se Eduardo, foi preciso tirar do próprio bolso. “Hoje consigo pagar minhas contas”, garante. “A maior parte dos livros consigo recuperar o gasto no dia do lançamento ou poucos dias depois. Hoje com quase 400 livros editados, se eu vender um deles por ano acaba entrando dinheiro para recuperar o prejuízo que posso ter”, diz, indicando a fórmula encontrada para seu amor existir. “É preciso ter paixão”, confirma, em entrevista à Tribuna, com as perguntas enviadas por quatro editores juiz-foranos: Anelise Freitas, da Edições Matinta; Laura Assis, da Aquela Editora; Maria Helena Sleutjes, da Griphon Edições; e Otávio Campos, da Macondo Edições.

Um sonho. “Tenho muitos sonhos que vão se realizando a partir de tudo isso. Está no porvir, mas agora não é mais tão concreto. Queria montar um bar e consegui. Limpo, lavo banheiro, sirvo a cerveja, compro a cerveja, varro e faço tudo isso enquanto estou editando livros. É um bar-livraria, para receber lançamentos e shows. Mantenho há seis meses e estou conseguindo manter”, conta ele, que neste domingo promove uma festa para arrecadar verba para inscrever livros ao Prêmio Jabuti. “Agora os sonhos são intangíveis: como fazer a diferença em propostas que possam mudar a realidade do livro e da literatura no Brasil?”

Otávio Campos (Edições Macondo) – Existe um poema do Reiner Kunze com o qual me identifico muito bem, e acho que é um sentimento comum dos editores independentes, principalmente os de poesia, que se chama “Editor de Poetas”: “Para a existência da poesia/arriscar a existência//Vender a meia biblioteca/para prensar um livro//Embrochurar/com as linhas da própria vida”. Já vi em algumas entrevistas você dizendo que o grande problema é que existem muito mais poetas que leitores de poesia, o que coloca o gênero num lugar de pouca vendagem no mercado. A partir disso, por que a escolha de ter um catálogo tão amplo de poesia, como é o caso da Patuá? É uma espécie de resistência?

Eduardo Lacerda – Quem se atreve a editar poesia tem que ser apaixonado por poesia, leitor de poesia. Não consigo pensar alguém trabalhando com livro que não seja apaixonado pelo livro que está editando. Claro que existem várias experiências de editoras que pensam muito mais no mercado e nas vendas, mas, para uma pequena editora, a paixão é fundamental. Por isso que quando chegam para mim com projeto de livro infantil ou infanto-juvenil, falo que seria um péssimo editor para livros assim. É um tipo de literatura que respeito e entendo a importância, mas não sei editar, não sou leitor. Já outras pessoas têm paixão e podem fazer um trabalho incrível. Quero editar aquilo pelo que sou apaixonado como leitor. Quanto a pensar que existem mais poetas que leitores, é uma verdade. A última pesquisa do Retratos da Leitura no Brasil dá que 40% dos entrevistados dizem que gostam d escrever como passatempo, no tempo livre. Só que 23% desses entrevistados dizem que gostam de ler. A pesquisa revela que as pessoas gostam de escrever, mas não têm o hábito da leitura. Entendo fazer literatura como direito, mas gostaria de criar leitores, e isso pode acontecer pelos próprios escritores.

– Qual a principal diferença entre o Eduardo Lacerda poeta e o editor? Quero dizer: quando lemos um texto algumas vezes aplicamos a ele uma valoração referente ao nosso gosto pessoal que, muitas vezes, não coincide com nosso trabalho como editor. Como funciona esse processo de perceber o que entra na Patuá e o que entra na sua construção como poeta? Existem livros que são publicados que não agradam o seu gosto pessoal?

– Tenho que entender o valor do livro não só a partir do que gosto. Pode ser um livro excelente mas que eu mesmo não compraria numa outra editora, mas é importante publicar ou resgatar. É impossível num catálogo de quase 400 títulos dizer que todos eles fariam parte da minha leitura pessoal, mas têm valor. Não me considero poeta. Sou um leitor de poesia que em algum momento resolveu escrever e tem um livro publicado. Minha experiência poética vem na edição dos livros. É fazer poesia fazendo livros. Como a editora trabalha, divulga, faz a capa, distribui, isso não é propriamente a literatura, mas dá outro aspecto para o livro. Me realizo como poeta fazendo livros.

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Laura Assis (Aquela Editora) – O que te faz querer publicar um determinado livro? E não querer publicar outro?

– Considerando que recebo uma média de 150 livros por mês, não dou conta de fazer a leitura de todos esse livros. Mesmo porque meu trabalho dentro da editora é total, faço a parte administrativa, comercial, burocrática, vou aos Correios de duas a três vezes por dia levar os livros que vendo pelo site, divulgo na internet, mando e-mails, assino contrato e a parte da leitura dos originais é bem pequena dentro dessa estrutura. Seria lindo se eu pudesse, um dia, me dedicar só como leitor, mas não é viável nesse momento. Se eu não fizer tudo, nada acontece, porque não tenho outra pessoa. Existe muito de intuição com o que deve ser publicado. Se eu não tiver a agilidade de publicar, não sai. E intuição não é tão aleatória, vem de toda uma carga de experiências anteriores.

– Juiz de Fora tem uma cena poética bastante ativa, que conta com eventos, publicações e poetas de qualidade. Você pretende publicar (mais) escritores daqui?

– Além da Prisca (Agustoni) e do Ricardo Rizzo, que é diplomata no Uruguai e nasceu aqui, que já publicaram, o Edimilson (de Almeida Pereira) em breve lança um livro com a gente, e outra professora da UFJF, a Mirian Freitas. Conforme for recebendo e achando legal, vou publicar.

Anelise Freitas (Editora Matinta) – Acompanho você como editor e, aparentemente, vê nisso não só um trabalho, mas um projeto de vida e artístico. Qual seria a poética desse teu projeto de vida, já que na produção editorial da Patuá, consequentemente, você possui um trabalho de concepção, montagem e supervisão?

– É uma experiência que nãos e relaciona só com a edição do livro, mas com a necessidade de criar e formar leitores. E isso não tem a ver com vendas. Formar leitores não é, exatamente, criar consumidores de livros. Quero ter um país que produz mais literatura, lê mais e reflete mais. Não é o consumo de livros que é libertador, mas a reflexão que pode vir a partir disso. Não adianta chegarmos a um dia em que o brasileiro leia 50 livros por ano e não consiga criar nada de humanizador a partir disso. Uma das formas de solução dessas pequenas editoras é que hoje qualquer pessoa consegue montar uma editora em qualquer cidade do país. No Brasil são duas coisas fundamentais para a criação do livro: um escritor e um artista que possa dar a cara para o objeto livro. Isso não falta em nenhum lugar. O que faltavam eram os meios de produção, que hoje são mais acessíveis para todos. Com a impressão digital todo mundo consegue fazer um bom livro-texto e livro-objeto em casa. Não precisa depender das grandes nem das pequenas editoras. Ninguém está limitado à própria ilha. Isso fortalece a cultura.

– Você já falou sobre a falta de engajamento entre os escritores brasileiros, que não leem nem se interessam pelo outro. Essa seria a dificuldade dos pequenos e médios editores, já que, atualmente, publicar um livro é muito mais fácil. Pensando no lugar que a Patuá ocupa hoje no mercado editorial, o que é possível fazer para driblar esse problema?

– O engajamento deve ser político para o livro. O que falta para o livro chegar ao leitor? Quais são as políticas públicas que poderemos adotar para o livro, para a leitura e para o engajamento? Não vejo os escritores brigando por um frete mais barato para o livro no país. Não vejo os escritores brigando para que existam políticas de incentivo de todos os governos, municipais, estaduais e federal. Claro que ele pode ser a postura de “só escrevo”, mas também não pode reclamar que ninguém lê. O engajamento não é só ir no lançamento e comprar o livro de outro autor, mas pensar coletivamente, ter união para mudar o status. Uma coisa simples é que a Biblioteca Nacional crie um sistema para autores independentes.Um editor independente, que deseja fazer o próprio livro, sem CNPJ, para ter o ISBN é preciso pagar uma taxa enorme, que para uma pessoa só é muito caro. Mas não existe uma vontade desses escritores em mudar isso. Outra proposta que tínhamos em São Paulo muito forte é que cada região da cidade tivesse uma isenção de imposto para que pudessem ser criadas livrarias populares, de rua. Tem um vereador brigando pela ideia, mas não tem o apoio dos próprios escritores. Seria uma iniciativa importante para vender livros de editoras pequenas e livros comerciais, que são importantes também.

Maria Helena Sleutjes (Griphon Edições) – O mercado editorial no Brasil anda vivendo muitas fragilidades, apresentando produtos com qualidade e sem qualidade editorial, deixando de publicar muitos escritores interessantes por falta de financiamento. De que maneira ele deveria ser orientado?

– O Brasil é um dos últimos países em que foi permitida a produção de livros. Quando a Família Real veio é que aconteceu e não tem 150 anos. Vieram, ainda, duas ditaduras no meio disso, acabando com a cultura do livro. Quando a gente pensa no mercado editorial não podemos esquecer uma questão histórica, social e cultural, que faz chegarmos até aqui. É um mercado bom, com excelentes escritores, editores e gráficas, mas a história do livro no país é frágil. Não é uma questão comercial, mas de educação, que depende de outros fatores. As políticas precisam ser coordenadas. Quando pensam em política pública para o livro defendem: é preciso construir mais bibliotecas, ou dar dinheiro para os escritores, ou dar isenção do imposto para as editoras. Tudo é necessário. O país tem cerca de 4.600 cidades e só duas mil delas tem livrarias. A gente tem que mudar o cenário e tornar o mercado mais forte. Não será do dia para a noite, mas as pequenas editoras têm cumprido seu papel. Todo o poder está nas nossas mãos, porque detemos o meio de produção, de distribuição (via internet) e de divulgação (com o próprio espaço), mas nos falta fazer que as pessoas queiram.

– O que diria aos escritores que aguardam uma oportunidade para publicarem um livro?

– Leia mais e procure conhecer mais. E não tenha o desespero pela publicação. Caso ache que o livro está pronto e merece ser publicado, monte sua editora. A gente não depende de ninguém. Você não depende de uma editora para legitimar seu livro. Ao mesmo tempo, a gente depende de todo mundo, porque é preciso conhecer, frequentar, ler o colega. Uma coisa que mudou minha vida foi, numa das primeiras aulas no curso de letras, quando um professor falou de uma carta do Fernando Sabino ao Mario de Andrade, perguntando o que ele poderia fazer para ser um bom escritor. O Mario de Andrade fala: “Leia de tudo, principalmente os seus contemporâneos. Se você não consegue entender que a literatura é viva e está acontecendo, se você se propõe a ser um escritor nesse momento e está no mesmo barco que os outros, acho difícil chegar a algum lugar.

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