Amor para além da vida

Eurídice (Luana Caren) é a ninfa mais bela da floresta
Mesmo sendo Dia das Mães, os integrantes da Cia. Teatrando trabalhavam duro nos preparativos de “O mito de Orfeu e Eurídice”. Quando a Tribuna esteve lá, por volta das 14h, para acompanhar o ensaio iniciado às 11h, a previsão era de que a trupe não deixasse o Centro Cultural Bernardo Mascarenhas antes das 19h. Era preciso deixar o espetáculo afinado para a estreia nesta quinta-feira, às 20h. Baseada na Opera “Orphée et Eurydice” (1974), de Christoph Willibald Gluck, a obra do grupo juiz-forano traz, para o teatro, a história do amor além da vida entre o músico mais talentoso da Grécia e a ninfa mais bela da floresta.
Nem bem o ensaio começou, e as moiras mostraram que tinham força para ser as grandes condutoras da narrativa. As intérpretes Danyela Silvério, Livia Steffany e Adryana Ryal se desdobravam entre textos, sussurros e ainda acompanhavam, com instrumentos de percussão, os músicos que executavam a trilha sonora ao vivo. “As moiras são os seres mais antigos que existem, são as únicas que podem comandar a queda dos deuses. Na primeira versão do texto, elas interferiam menos na narrativa, mas fomos nos apaixonando por elas. Elas sabem o tempo todo o que vai acontecer”, comenta Adryana, à frente da direção.
“Estudamos sons gregos da antiga Grécia até a atual para chegar a esse resultado. Trouxe toda uma pesquisa com som mecânico. Não conseguimos arcar com os valores dos instrumentos originais, mas ouvimos e pegamos outros parecidos. Nossa trilha é toda autoral”, afirma a diretora, que, na montagem, mescla traços do mito grego e a estética do teatro contemporâneo.
Durante os cerca de 65 minutos, o público fica bem perto dos personagens. Ao jovem ator João Lucas Rocha, cabe viver Orfeu, o músico que, por seu talento, chamou a atenção do deus Apolo, que o presenteou com sua própria Lira. A atitude do deus despertou a ira de sua esposa Cirene e de seu filho Aristeu. Em um de seus passeios pelos bosques da Trácia, Orfeu se apaixona perdidamente pela bela ninfa Eurídice, de Luana Caren. Contudo, ele não esperava que, na espreita dessa felicidade, estava Aristeu. O protagonista sai em busca de alimento e, ao retornar, se depara com Aristeu chorando a morte de Eurídice.
Guiados pelo romantismo
“Existem duas versões para esse mito. Trabalhamos com a Teogonia, em que Orfeu é um semideus apadrinhado por Apolo. Optamos por essa versão pelo romantismo, porque ela nos dá elementos que facilitam ter essa vida após a morte. Na outra, ele é um deus supremo, um deus completo e continua sendo atormentado”, diz Adryana, que contou com a colaboração textual de Tiago Fontoura, Anderson Ferigate, Anderson Vieira e Rafael Gomes.”Trabalhar com clássico é árduo e, ao mesmo tempo, prazeroso, porque todo o processo é grandioso. Fazemos exercícios de corpo, palavra, fala, troca de linguagem, aprendizado de música e ritmo”, destaca a dramaturga, que apresenta para a plateia um espetáculo com início, meio e fim. “Muitas pessoas não conhecem o mito. Por isso, não posso fragmentar”, justifica.
Enquanto a história de amor ocupa o centro da cena, Luidy Mendonça já se entrega ao trabalho corporal do personagem Caronte, o barqueiro da Morte, pelo qual Orfeu terá de passar para entrar no submundo. É lá que ele também terá de enfrentar Cérbero, o guardião dos portões de Hades, para buscar sua amada. “O Cérbero é um ser metafísico, que não tem sentimento, um cão fiel, que está pronto para matar e levar as almas. Para compor essa figura, preferimos trazer uma ginga, um deboche. Ele faz tudo por maldade”, conta Adryana, que, para facilitar os movimentos do vilão, preparou uma roupa maleável, com tecidos picotados.
No cenário disposto em um espaço no formato de arena, somente um trono, uma árvore, um barco e tecidos. O sonho de montar esse drama/trágico começou há cerca de seis anos, segundo Adryana, e agora, finalmente, se realiza. “Nosso projeto de pesquisa começou com o intuito de estudar os mitos, entender sua leitura e partiu, então, para a experimentação de teatralizar uma ópera, dar palavra ao canto, através do corpo e da palavra.”
‘O MITO DE ORFEU E EURÍDICE’
12 e 13 de maio, às 20h, 14 e 15 de maio, às 19h e às 21h
CCBM
(Av. Getúlio Vargas 200 – Centro). 3690-7052









