A despeito do público

Eleito o melhor filme do Oscar, ‘Spotlight’ pode ter última sessão à meia-noite deste sábado no UCI

Filme “A série Divergente: Convergente” está em todos os cinemas da cidade, com 17 sessões
De todos os indicados a melhor filme na edição deste ano do Oscar, apenas um não foi exibido em Juiz de Fora: “Brooklyn”, o drama romântico anglo-canadense-irlandês protagonizado por Saoirse Ronan. Dos outros todos, apenas “O quarto de Jack”, “O regresso” e “Spotlight – Segredos revelados” estão atualmente em cartaz. Ironicamente, o vencedor de melhor filme, o drama sobre a equipe jornalística de “The Boston Globe”, só apresenta duas únicas sessões nesta semana, à meia-noite de sexta (ontem) e deste sábado. Isso após entrar na semana passada (quase dois meses depois de sua estreia no Brasil), no único horário das 22h30, em apenas uma das 14 salas de Juiz de Fora. Dos dez longas em cartaz, lideram a lista em número de sessões os blockbusters “A série Divergente: Convergente” (com 17 horários), “Kung Fu Panda 3” (12 horários) e “A bruxa” (10 horários).
Questionado sobre os motivos que levaram “Spotlight” a ocupar apenas uma faixa de exibição durante sua primeira semana e, agora, ser alterado para ainda mais tarde, à meia-noite, e sobre os critérios de montagem da programação, o UCI Kinoplex, do Independência Shopping se limitou a uma nota. “Montamos a nossa programação de acordo com a procura pelo filme por parte do público, e também dando espaço para os lançamentos de novos filmes. Alteramos a grade semanalmente, e os filmes que estão há mais tempo em cartaz vão dando espaço para as estreias, mas sempre de acordo com o perfil do público do UCI Kinoplex”, diz o texto enviado pela assessoria.
Agendas comuns
Enquanto o único cinema a exibir o vencedor do Oscar de melhor filme se restringe a apontar certa ausência de sintonia entre seu público e a produção, o que dizem os outros três espaços da cidade, que sequer incluíram o longa em suas agendas? Procurada, a administração do Cinemais, cuja sede é em Uberaba, recusou-se a responder sobre a predominância de títulos populares mundialmente. Inaugurado pela Moviecom em 2004 e encerrado em 2008, o cinema no Alto dos Passos passou, então, a operar, no ano seguinte, sob gestão do Cinespaço, rede do cineclubista Adhemar Oliveira, que hoje produz a programação do Cinearte Palace.
Nesse período, sob os cuidados de Oliveira, o cinema do Alameda firmou-se na cena alternativa, equilibrando filmes de grande bilheteria com produções cult e, até, documentários. Em 2014, quando a rede Cinemais assumiu as cinco salas, o perfil se alterou, tanto que, na atual programação, os mesmos filmes exibidos no Alto dos Passos estão em cartaz no UCI Kinoplex, que vai além e de forma única apresenta outras quatro produções (três do Oscar 2016). Centrais, as outras duas salas da cidade apresentam perfis diferentes, mas, ainda assim, mantém agenda próxima da praticada na Zona Sul. “Convergente” e “Kung Fu Panda 3” estão em todos os cinemas da cidade, enquanto “A bruxa” e “Deadpool” se encontram em três dos quatro complexos.
Pasteurização nacional
Cineclubista reconhecido desde os anos 1980, responsável pela programação de cinemas Brasil afora e tido como um dos principais nomes do cinema de arte da capital paulista, Adhemar Oliveira destaca que, ao menos na sétima arte, Juiz de Fora está em consonância com o país. “Essa é uma realidade não só daí. Essas programações comuns são uma reclamação de muitos espectadores em diferentes lugares. O aumento de salas não corresponde a um aumento na variedade de produções ofertadas”, comenta. “Isso acontece porque o distribuidor busca o produto que dê retorno financeiro para sua empresa”, explica, sem repassar o problema, mas dividindo o dilema. “Dependendo dos filmes alternativos, até em São Paulo não tenho retorno. Tenho buscado um equilíbrio econômico e estratégico para Juiz de Fora”, diz.
“É uma relação de troca, um jogo de marcação que acontece toda segunda-feira. Tenho duas sessões. Te interessa?”, conta o programador, repetindo as perguntas que faz aos distribuidores. Segundo Oliveira, os filmes que concorreram em outras categorias do Oscar e entraram na programação do Cinearte Palace tiveram um resultado pequeno, o que também foi sentido pelos distribuidores. “Vejo que os filmes do Oscar desse ano foram lançados em um tamanho menor. Acredito que, se há uma culpa, ela não é dos cinemas daí, mas do modelo de distribuição que se faz em cima de uma previsão de resultados.”
Os mandamentos do distribuidor
Há mais de um mês de sua chegada às salas, “Os dez mandamentos” continua tanto no Palace quanto no Santa Cruz. Dessa forma, 2016, para Adhemar Oliveira, tornou-se um ano atípico. “Esse filme ocupou um espaço nos cinemas muito grande, por conta do bom resultado que deu. Isso diminuiu um pouco nossa margem”, avalia. “Mas é momentâneo. Exibimos, no ano passado, vários filmes que não rodaram tanto. Além disso, sempre temos mantido um filme infantil em cartaz. Privilegiamos a diversidade e os mais diferentes públicos”, comenta o programador, afirmando ter boa resposta quando aposta em produções populares e dubladas. Sua trajetória, porém, é o que lhe faz arriscar e promover obras menos comerciais.
Outra justificativa para a longevidade de “Os dez mandamentos” e para programações cada vez mais pasteurizadas e pouco ousadas é a pequena força das pequenas salas diante das grandes redes. Por consequência, a superlativa ingerência das distribuidoras, nem um pouco dispostas aos riscos. Segundo Fernando Costa Júnior, gerente geral do CineMinas no Santa Cruz Shopping, reivindicar é muito difícil quando o poder se restringe a duas pequenas salas populares e um cinema em Caxambu, no Sul do estado. “Por sermos um cinema popular, o critério para montagem da programação é optar por filmes que atinjam a massa. Por isso, só trabalhamos com filmes dublados”, explica.
Cine Santa Cruz à venda
“Solicitei os filmes do Oscar, mas pelo perfil popular, as companhias nem me enviaram material”, conta Fernando. “Contestei, porque ‘Spotlight’ só está em um cinema, às 22h30. Sugeri passarmos num horário da tarde. Gostaria que alguns espectadores assistissem a esse filme. Pensei, até, numa sessão especial para jornalistas”, completa, para logo contar da negativa da distribuidora, que liberou a produção somente para o espaço de Caxambu, que tem outro perfil e também exibiu “O regresso”. “Para uma cidade universitária, é um absurdo ter apenas um horário, e tão tarde, para esse filme”, observa o gerente, que anuncia, ainda, a venda do espaço na cidade.
A luta, segundo Fernando, é exaustiva. Os pequenos exibidores, que repassam 50% de sua renda líquida para as distribuidoras, são “esmagados” pelas grandes redes, que têm muito mais voz e autonomia e, assim, acabam por definir as programações de outros espaços, já que sinalizam contra concorrências e saem primeiro na corrida pelas obras. “Gosto muito de cinema. Nosso espaço em Caxambu é lindo, de rua. Mantemos pela paixão. Porém, em Juiz de Fora, estamos colocando à venda, justamente por não termos a autonomia para fazer da forma como desejamos”, lamenta ele, que não pode lançar “Batman vs Superman” numa sessão à meia-noite, como desejava, por ordens do shopping onde está inserido.









