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Acertando os ponteiros consigo mesma


Por JÚLIO BLACK

10/09/2016 às 07h00

Beatriz, personagem de Cissa Guimarães, resolve dar um basta ao caos de sua vida, que inclui um casamento infeliz com o personagem de Giusepe Oristânio (Divulgação)

Beatriz, personagem de Cissa Guimarães, resolve dar um basta ao caos de sua vida, que inclui um casamento infeliz com o personagem de Giusepe Oristânio (Divulgação)

Beatriz é uma psicanalista que, para todos os efeitos, poderia considerar ter uma vida ideal – pelo menos dentro dos conceitos dessa “gente normal”: casada, bem-sucedida profissionalmente, com uma filha… Mas, se na superfície parece tudo azul, a verdade é que sua vida pessoal está à beira de um colapso, com a vinda da mãe para morar com a família, uma adolescente vivendo todos os dramas da idade e um marido machista e acomodado no casamento. Chega uma hora que ela, Beatriz, resolve dar um basta em tudo isso e procurar sozinha pela felicidade, uma das razões de ser do espetáculo teatral “Doidas e santas”, que será apresentado pela primeira em Juiz de Fora neste sábado, às 20h, no Cine-Theatro Central.

Sucesso visto por mais de 300 mil pessoas durante os seis anos que está em cartaz, a peça é um projeto idealizado e estrelado por Cissa Guimarães, que interpreta a personagem principal, numa adaptação do livro de Martha Medeiros que ganhou texto de Regiana Antonini e direção de Ernesto Piccolo. Completam o elenco Giusepe Oristânio como o marido acomodado e Josie Antello, que interpreta a mãe, filha e irmã de Beatriz. “O texto me atraiu pelo momento que eu estava passando”, explica a atriz. “Comecei a gerá-lo na minha cabeça ainda em 2008, quando estava chegando aos 50 anos, e me dei conta de quanta coisa havia vivido, os sucessos, fracassos, tristezas, alegrias, e quanta coisa queria fazer. E também ver como hoje as coisas são diferentes, 30 anos atrás uma mulher de 50 seria uma senhora, e hoje essa nova mulher de 50 pode fazer tanta coisa…”

Foi nessa época que Cissa diz ter lido um texto de Martha Medeiros com o qual se identificou. Ela entrou em contato com a escritora, que estava lançando o livro que deu origem à peça. “Ela é minha contemporânea e vivia situação similar de ter uma vida profissional, ter passado por casamentos. Mandei um e-mail para a Martha, nos encontramos e ela me passou o livro, que li no mesmo dia. Logo conversei com ela sobre produzir uma peça inspirada no livro.” Para a missão, ela chamou Regiana Antonini para adaptar o texto e Ernesto Piccolo para a direção. “Chamei o Ernesto para colocar ordem nesse mulherio (risos). A peça fala sobre essa nova mulher, suas relações e o papel do homem frente a ela. O espetáculo fala do universo feminino, mas lembrando que o homem também é fundamental, tanto que eles também se identificam ao assistirem à peça, aplaudem no final. Todos gostam, de adolescentes a idosos, se emocionam.”

Para sair do ‘piloto automático’ dosrelacionamentos

Para a atriz, “Doidas e santas” consegue atingir um público tão amplo por conseguir mostrar as relações entre as pessoas, algo que tem se tornado complicado nos dias atuais. “A gente tem uma tendência de ignorar isso com esse mundo tão rápido, com mídias sociais, trabalho, essas 24 horas que deveriam ser 48. A gente não dá conta das nossas relações, fica tudo no automático”, pontua. “Você está numa relação há 30 anos e não irriga essa relação, não sabe se está amando ou não, não pensa mais se está feliz ou não. E essa mulher, a Beatriz, se dá conta de que não está feliz, e ela para com tudo. Faz a gente parar e repensar a nossa felicidade, de não ficar no piloto automático da rotina. O rótulo é casar, ter filhos, trabalho; esse é o dito rótulo da felicidade, mas não é! A peça está aí para isso, para pensarmos, mesmo sendo uma comédia. Até hoje me ‘batem’ coisas ali.”

Uma das receitas para o sucesso duradouro, acredita, está no fato de não se deixarem levar por clichês que podem marcar feito ferro quente em comédias que lidam com questões ligadas ao universo feminino. “Não levantamos a bandeira da mulher independente. A Beatriz é uma mulher que sofre, então é o exercício de você parar, olhar para dentro de si e ver que não está feliz e ter coragem de mudar. A forma como ela muda é linda, e não entramos em nenhum clichê, acredito que é por isso que emociona e diverte as pessoas.” Emoção, aliás, que ela espera levar ao público juiz-forano. “Graças a Deus conseguimos essa data, porque estamos há seis anos com a peça e nunca conseguíamos ir até Juiz de Fora. É muita alegria poder estar aí, num teatro como o Central, com um público tão simpático.”

 

DOIDAS E SANTAS

Neste sábado, às 21h

Cine-Theatro Central

3215-1400