Obra sobre o Bosque Bairu é exposta pela primeira vez após quase 40 anos

Pintura inédita reforça luta ambiental do morador do Bairro Bairu, Ilson Marques Pinto


Por Mariana Souza*

09/07/2025 às 07h00- Atualizada 09/07/2025 às 07h44

A luta de Ilson Marques Pinto, 94 anos, em preservar o Bosque Comunitário do Bairro Bairu, na Região Leste de Juiz de Fora, foi inspiração para o artista plástico Amaury Battisti. Em 1986, ele criou a obra “Bosque Bairu”, óleo sobre tela com dimensões de 50 por 65 centímetros. A pintura é exposta, pela primeira vez, após quase 40 anos como parte de um projeto em comemoração ao aniversário de Juiz de Fora, celebrado em maio. A exposição acontece até quinta-feira (10), na Avenida Itamar Franco, 484, no Centro.

A pintura marca uma fase em que o artista ainda realizava trabalhos em cavalete e participava de um movimento denominado por ele de “Memória”, dedicado à preservação do patrimônio histórico e ambiental da cidade. Foi nesse contexto que Ilson se aproximou do grupo, levando sua causa para uma das reuniões.

“Essa pintura, na verdade, não existiria se ele não tivesse aparecido naquela reunião. Ele surgiu de repente, não era do nosso grupo, mas sensibilizou a todos com a luta pela preservação do Bosque”, relembra Battisti.

Ele conta que se sentiu motivado a registrar a paisagem como forma de apoio, “a figura do seu Ilson era inspiradora, mas o que mais me marcou foi a causa. Decidi ir até o local e pintar o Bosque como um símbolo daquela luta. Foi um trabalho feito diretamente no espaço, observando o que ele significava para a comunidade.”

Bosque Bairu
Luta de Ilson Marques pela preservação do Bosque Comunitário Bairu inspirou o artista plástico Amaury Battisti (Foto: Felipe Couri)

Luz que valoriza a mata

O artista descreve o processo de criação da pintura como “objetivo e carregado de emoção”. A obra foi feita no próprio Bosque, com atenção aos detalhes da paisagem e ao contraste com a urbanidade ao redor.

“A mata era muito densa, sem grandes variações de cor. Para o pintor, isso é um desafio, porque buscamos elementos que criem profundidade. O que me chamou a atenção foi a luz intensa que incidia sobre a cerca e até sobre um poste de iluminação. Incluí o poste propositalmente para indicar que é uma mata urbana, cercada pela cidade.”

Segundo ele, a pintura carrega mais do que a representação física da área. “A obra é um registro daquela luta quase solitária do senhor Ilson. Tem o Bosque e uma obra de arte que marcam essa resistência. Inclusive, se você observar de perto, está escrito na pintura: ‘Bosque Bairu’.”

Surpreendentemente, Ilson nunca havia visto a obra. “Ele devia ter visto na época, mas eu nunca mostrei. Engraçado, né? Vai fazer 40 anos e só agora o quadro está sendo exposto pela primeira vez”, conta o artista. A Tribuna articulou o encontro entre o artista, a inspiração e a obra na terça-feira (8).

Battisti diz que a obra permaneceu guardada por não se encaixar mais no estilo abstrato que passou a adotar nos anos seguintes. “Acaba que você guarda a pintura no acervo e o tempo passa. Quando surge uma oportunidade interessante, como essa, a gente mostra. Essa foi a chance de apresentar uma obra que dialoga com uma causa tão importante.”

Para ele, a obra transcende o valor estético e se torna um documento histórico de uma luta ambiental. “É uma pintura carregada de emoção, do lugar e do momento. Foi feita como um gesto natural de apoio à causa, mas acabou se tornando um símbolo da preservação da memória de Juiz de Fora.”

Já Ilson se mostrou feliz com a eternização da sua perserverança em arte. “O Bosque Bairu representa tudo para mim. É uma obra que comecei de forma voluntária e que quero deixar para as próximas gerações. Pelo menos, fiz uma boa atitude na vida. Esse é o meu legado”, afirma.

Da luta solitária ao legado

A mobilização de Ilson para preservar o Bosque Comunitário Bairu começou em 1983, pouco depois da aposentadoria. Com a lembrança da infância cercada pela natureza, ele decidiu agir em prol da natureza.

“Na fazenda do meu avô, em Piau, aprendi com meu pai a cuidar do plantio. Lembro que meu avô proibia cortar qualquer árvore. Essa forma como fui criado me fez dar valor à natureza. Sempre gostei de mexer com a terra e, quando vim para Juiz de Fora, quis proteger essa área para relembrar meus tempos”, relatou em entrevista à Tribuna em novembro. “Quando dava dezembro, você entrava nas trilhas e sentia o cheiro dessa jabuticaba… Acho que fechou o mato e ela desapareceu”, lembrou com nostalgia.

Sem apoio institucional no início, ele cuidou do terreno sozinho por anos. Chegou a plantar cem mudas de árvores nativas, doadas pela Empresa Municipal de Pavimentação e Urbanidades (Empav). Entre os registros guardados por ele, um catálogo lista mais de 67 espécies plantadas, incluindo ipês, angicos e espécies ameaçadas de extinção, como a jabuticaba-de-cipó.

Em 1996, após anos de esforço, o Bosque foi oficialmente declarado Área de Preservação Permanente, por meio da Lei Municipal nº 8.918. Com a autorização, Ilson mobilizou cerca de 20 vizinhos em um mutirão para cercar os 5.410 metros quadrados do terreno.

Com o tempo, porém, o trabalho começou a pesar. Ele pediu à Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) a construção de uma casa no local, onde um funcionário da Empav chegou a residir para auxiliar na manutenção — descrita como mínima, já que a floresta se regenera sozinha, necessitando apenas de limpeza nas trilhas e poda ocasional. Nos últimos anos, o cuidado passou para um grupo de escoteiros que utiliza o espaço para atividades de educação ambiental e acampamentos.

Atualmente, Ilson ainda acompanha de perto a situação do Bosque e busca apoio para resolver problemas causados por fenômenos naturais. “Há oito meses, uma ventania muito forte derrubou árvores nas trilhas e entupiu a maior parte delas. Estou na luta com a secretaria do Meio Ambiente, para que façam a limpeza. Sem isso, não tem como as pessoas virem conhecer ou cuidar da área”, relata. Segundo ele, embora a promessa de apoio tenha sido feita, as ações ainda não saíram do papel.

A Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), explicou, em nota, que “a Secretaria de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas realizou, recentemente, uma visita técnica ao Bosque do Bairu, uma Área de Proteção Ambiental (APA) situada em área urbana e que não é aberta à visitação pública. Foi constatado que a parte externa encontra-se em condições satisfatórias, enquanto o interior do bosque apresenta vegetação alta e árvores de grande porte, com espécies nativas cujo manejo requer equipamentos e equipes especializadas. Dessa forma, será contratado um plano de manejo, respeitando os limites legais e operacionais previstos para esse tipo de intervenção. ”