Arte para quem viaja
Das coisas que ouvi a respeito dos moradores de Juiz de Fora desde que adotei a cidade como lar, há pouco mais de dois anos, uma das mais injustas é a alcunha depreciativa de “cariocas do brejo”, como se os que vivem aqui sofressem de baixa autoestima e precisassem espelhar-se em outros para ter uma melhor – e teoricamente falsa – imagem a respeito de si próprios. Para este jornalista, com o seu olhar “estrangeiro” – de quem passou a maior parte da vida em Volta Redonda (RJ), revezando-se entre a Baixada Fluminense, o interior paulista e o Espírito Santo -, nada mais descabido: afinal, a fronteira com o estado do Rio fica a cerca de 40km, a capital fluminense, a180km, enquanto Belo Horizonte está a quase 300km de distância. A proximidade geográfica pode, sim, trazer proximidade afetiva, cultural, de comportamento, logo qualquer comentário depreciativo de quem mora Minas acima a respeito dos juiz-foranos poderia ser mero… Acho que deu para entender.
Descer a serra até o Rio, convenhamos, é mais rápido e fácil. É mais próximo. E a capital fluminense, apesar de todas as suas mazelas – obras sem fim, criminalidade, falta de educação, trânsito dos sete mil infernos etc. -, tem infinitas belezas para o visitante. São as praias, o Cristo Redentor, a Floresta da Tijuca, o Pão de Açúcar, Maracanã, Sambódromo. Mas não apenas isso: mesmo sem a mesma pujança de capitais culturais como Nova York, Londres, Paris, a Cidade Maravilhosa tem opções culturais que muitas vezes passam despercebidas pelo turista/visitante mais desatento – preocupado, muitas vezes, em perder horas e horas na fila do trem que leva até o Corcovado. Um dos exemplos de polo cultural é o Oi Futuro, que a Tribuna teve a oportunidade de visitar na última semana, ao lado de repórteres de outros cantos do país, a convite do centro cultural.
Na fachada

A instituição tem dois centros culturais no Rio de Janeiro, no Flamengo e em Ipanema, que apresentam parte da expressiva produção de arte contemporânea, e durante dois dias tive a oportunidade de conhecer parte das atrações atualmente disponíveis nos dois espaços, incluindo instalações, fotografias, audiovisual, teatro. A visitação tem início ainda do lado de fora do prédio da Oi Futuro no Flamengo, em meio ao calor opressor que fazia à tarde (aliás, o dia todo) no Rio. Parte considerável da fachada está ocupada pela obra “Barroco elétrico”, do italiano Giancarlo Neri, que teve como inspiração o poste de eletricidade que fica logo à frente do centro cultural. A mistura entre o urbano e o barroco é o tema da obra de dez metros de altura do artista, que se dedica há mais de 30 anos à arte em espaços públicos.
Ainda no lado externo, fica a obra “Stringhe #8” (“Cadarços #8”), do também italiano Massimo Rizzuto: a partir da passagem de um trem de brinquedo, é projetada na parede a sombra de pequenos bonecos ligados por um emaranhado de arames – indicando que, por mais solitários que sejamos, sempre estamos ligados aos outros de alguma forma. Depois, foi a vez de assistir a uma palestra de Giancarlo Neri, que contou um pouco de sua história e também do seu processo de criação e inspiração para suas instalações, que já puderam ser vistas em países como Estados Unidos, Inglaterra, Itália, Espanha, Emirados Árabes Unidos, Noruega, entre outros.
Imersão do olhar
“Todo rosto tem meu nome”. A frase, pintada em uma das paredes da exposição “Outras portas da percepção – Um experimento em teoria da imagem”, poderia muito bem explicar o trabalho do antropólogo e artista visual Arthur Omar, que ocupa três galerias do Oi Futuro. A visita foi guiada pelo próprio Arthur, um dos expoentes da arte contemporânea no país e que trabalha com fotografia e cinema, instalações e artes plásticas. Parte dos trabalhos em exposição está em seu livro mais recente, “Antes de ver – Fotografia, antropologia e as portas da percepção”, de 2014, e também a série “Antropologia da face gloriosa”, realizada entre os anos 70 e 90. “As fotos tanto podem ter meu olhar antropológico quanto também mostrarem que estou inserido neste microcosmo”, explica o artista.
A série “A menina do brinco de pérolas”, a princípio, pode parecer mera releitura do famoso quadro do pintor holandês Johannes Vermeer, do século XVII, mas sua origem teve como fruto o acaso. “Eu estive no Afeganistão em 2002, e a foto dessa jovem afegã passou despercebida. Somente meses depois vi a semelhança com a pintura do Vermeer. O objetivo dessa série, então, foi trabalhar com uma imagem icônica, imaginando como poderia interferir no olhar que tinha a respeito da obra.” O resultado é um conjunto de fotos abstratas que – mais do que lembrar o trabalho de Vermeer – faz o espectador tentar decifrar o que existe por trás do olhar dessa jovem anônima.
Abstração também é o norte da série inspirada no “Quadrado negro” do russo Kazimir Malevich, que ocupa a Galeria 2. São imagens abstratas sobre fundo negro, que Omar considera minimalistas. “Mesmo que muitas possam ser consideradas abstratas, elas são repletas de detalhes que prendem a atenção do observador”, pontua Arthur Omar. Para quem observa os trabalhos fotográficos, fica a impressão de que a maioria da obra revela rostos humanos nas mais diversas caracterizações, que vão de uma mulher anônima a Nefertiti e o Rei Artur. Mas também é possível imaginar que as obras revelam traços de lagartos, zumbis, entre outras formas ocultas e que só dependem da interpretação do público. “Quero fazer a antropologia desses rostos, partindo do princípio de fazer a antropologia sem o homem”, ressalta. “Mas, ao mesmo tempo, não é antropologia no sentido clássico, é uma experimentação.”
Na última galeria, o fundo preto é substituído pelo branco e gravuras em vermelho, que imediatamente remetem a imagens da China Comunista. O mais interessante nesta terceira galeria é a imagem de Moisés apresentando os Dez Mandamentos, que fica ao lado de uma gravura em que um chinês anônimo parece querer destruir uma tábua com ideogramas. Seria uma resposta às regras de conduta judaico-cristã-ocidental? Como diz o próprio Omar, é impossível saber o que está escrito nas duas tábuas.
O amor em três tempos
O primeiro dia de visitação à Oi Futuro Flamengo foi uma pequena maratona de sete horas que terminou com a apresentação do espetáculo teatral “Fatal”, concebido e dirigido por Guilherme Leme Garcia e com colaboração artística de Vera Holtz. Para este trabalho, Guilherme convidou três autores para escreverem pequenas histórias que tivessem como tema o amor, a paixão, tendo como ponto de partida mitos e lendas.
Os convidados foram os dramaturgos Jô Bilac, Marcia Zanelatto e Pedro Kosovski, que criaram versões livres para as histórias de Kama e Rati, Tristão e Isolda e Eros e Psiquê. No palco, apenas dois atores: Debora Lamm e Paulo Verlings, num cenário quase todo negro com apenas duas cadeiras, pouca luz e quase nenhuma movimentação cênica. Apenas a emoção da dupla para colocar para fora as desventuras, os desejos e angústias, as tragédias vividas por cada casal – que sempre buscam uma forma de sobrepujar as dificuldades.
Para Debora Lamm e Paulo Verlings, “Fatal” é um trabalho único por todos os desafios apresentados, que incluíam longos monólogos para cada um. É também especial por mostrar a força do amor frente a todas as adversidades apresentadas em cada história. “O amor não morre, ele sempre encontra uma forma de sobreviver”, diz Debora. Para quem estava na plateia, a impressão é a de que as três histórias da peça possuem um fio condutor, apesar de criadas por três dramaturgos diferentes – sensação compartilhada pela atriz. “A gente notou que havia uma temperatura, um calor, nas três histórias, que sempre havia o risco de um perder o outro, e eles sempre tentando ficar juntos.”
A poesia no olhar
Após o bate-papo, era hora de voltar ao hotel no Catete, descansar e se preparar para o dia seguinte, que tinha apenas uma atividade antes do regresso. O que deu tempo dar um rolê pela manhã, após o café pelo Largo do Machado e adjacências, que seria bem melhor não fossem os 35 graus indicados pelo relógio digital às 10h. Com tudo pronto, foi hora de partir para o Oi Futuro de Ipanema. Segundo o curador Alberto Saraivo, o espaço criado em 2012 dedica-se principalmente à poesia visual, convidando seis poetas por ano para apresentarem trabalhos baseados no conceito do espaço – que já recebeu, entre outros, Ferreira Gullar.
A convidada da vez é Bruna Beber, que apresenta a exposição “Brinquedos espalhados”. A artista, nascida em Duque de Caxias e atualmente radicada em São Paulo, tem cinco livros publicados. Na mostra, ela apresenta cerca de 30 obras, entre fotos, desenhos, quadros, objetos, áudios dos poemas (alguns inéditos), esculturas, poemas que viraram música, projeções e vídeo – alguns dos trabalhos criados em conjunto com nomes como João Gonçalves, Elisa Mendes, Patrícia Chmielewski e Julio de Paula. Há, ainda, os “Dominomes”, palavras feitas com peças de dominó.
O mais impressionante e admirável no trabalho de Bruna Beber no Oi Futuro é observar a elasticidade que pode haver no uso da palavra, a ressignificação das coisas (sejam palavras ou objetos), de como o símbolo pode deixar de ser arbitrário quando o artista redefine as coisas que estão à sua volta. Assim como a artista usa, torce, distorce, reinventa as palavras e coisas que estão à sua volta, o observador pode fazer o mesmo a partir das suas próprias experiências.
No caminho de volta, apesar do atraso por causa do trânsito caótico do Rio, foi tempo de refletir e reforçar a certeza de que viajar é muito mais que colecionar fotos tiradas em cartões postais.












