Além do muro existe…

Em “A Saga Divergente: Convergente”, Tris (Shailene Woodley) e seus amigos lutam contra a opressão do sistema de facções implantado numa Chicago devastada
Nesta terça-feira, quando se comemora o Dia Internacional da Mulher, o mundo pode comemorar o fato de o empoderamento feminino ter se tornado realidade, com o “girl power” e o espírito juvenil de revolta inspirando muitas jovens por aí. Ao mesmo tempo, todas essas conquistas continuam rendendo alguns (milhões de) dólares a mais para quem sabe transformar atitude em sabão em pó. “A Saga Divergente: Convergente”, terceiro filme inspirado na trilogia de livros de Veronica Roth, chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira e é mais um exemplo de como Hollywood sabe usar até mesmo o inconformismo a seu favor. A penúltima parte de franquia que conta mais uma história de jovens que se erguem contra o status quo de uma realidade distópica terá como capítulo final “Ascendente”, previsto para chegar à tela grande em junho de 2017.
Assim como aconteceu com seu primo “rico”, “Jogos Vorazes”, o livro “Convergente” foi dividido em duas partes para a tela grande. Diretor do segundo longa, Robert Schwentke volta ao posto para continuar a saga de Tris (Shailene Woodley) e seus amigos divergentes, que lutam contra o sistema de facções implantado numa Chicago devastada. Após os eventos do filme anterior, “Insurgente” (2015), que inclui revelações chocantes – entre elas a respeito do funcionamento de facções -, Tris e seus parceiros têm um objetivo claro: ultrapassar a muralha que cerca a cidade e descobrir o que há do outro lado.
O que eles descobrem, depois de penarem um tempinho no deserto, é a existência de uma cidade séculos à frente em termos de tecnologia, que parece ser o lugar mais legal do mundo. Mas é aí que temos mais uma daquelas reviravoltas chocantes, mostrando que o que está ruim sempre pode piorar. Afinal, nem tudo que é limpinho cheira bem quando chegamos mais perto. Aí será uma questão não apenas de impedir os planos dos caras realmente maus, mas também de salvar a própria pele e a de todos que estão enclausurados em Chicago.
Mensagem em busca de conteúdo
Se a franquia “Divergente” é mais um exemplo da valorização das mulheres dentro da indústria do entretenimento (ver quadro), ao mesmo tempo é – infelizmente – um “produto” que possui uma mensagem sempre em busca do conteúdo, e nisso tanto os livros quanto os filmes perdem de lavada em relação a “Jogos Vorazes” – que sequer é um grande tratado filosófico sobre questionamento, revolta, poder, política, opressão e o papel da mídia.
A trama principal é do tipo que chama a atenção dos jovens: uma sociedade dividida em facções que não oferece muita escolha para seus filhos em relação ao futuro, que aos 16 anos precisam escolher qual grupo (Franqueza, Audácia, Amizade, Erudição e Abnegação) passarão a integrar. O surgimento da Divergente (indivíduo com qualidades que a indicariam para mais de uma facção) Tris torna-se uma ameaça ao status quo e é uma metáfora à insatisfação de toda uma geração no que diz respeito ao mundo que receberam, aos adultos e à necessidade de tomarem decisões difíceis e de se aceitarem. O problema é que tudo isso é mostrado de forma esquemática nos dois primeiros longas, e a Tris de Shailene Woodley peca pela falta de carisma e credibilidade como a voz de um espírito de contestação um tanto quanto frouxo, muitas vezes relegado ao tradicional confronto típico dos colegiais americanos. É como se todo o desejo de desobediência típico dos adolescentes fosse apenas “uma fase”. Resta saber se os dois filmes que encerram a franquia conseguirão levar “Divergente” a um patamar mais instigante de reflexão a respeito do que é ser jovem em nosso mundo.









