Nelson Rodrigues em primeira pessoa
"Todos nós temos histórias que encheriam uma biblioteca; qualquer um pode fazer três mil volumes sobre si mesmo", disse, certa vez, Nelson Rodrigues, sem nem mesmo imaginar que suas palavras vaticinavam a publicação de "Nelson Rodrigues por ele mesmo" – obra editada pela Nova Fronteira, na qual sua filha, Sonia Rodrigues, organiza, em texto narrativo, algumas entrevistas e depoimentos concedidos por ele ao longo da vida. Como parte das celebrações dos 100 anos do nascimento do autor de ‘A vida como ela é’, comemorados no dia 23 de agosto, e inaugurando o projeto "Prosa & verso", promovido pela Funalfa, nesta terça, às 19h30, o Centro Cultural Bernardo Mascarenhas vai sediar um bate-papo da filha do dramaturgo com o público.
Desde 1999, Sonia patrocina pesquisas em arquivos de jornais e de particulares a respeito do escritor e, às vésperas de seu centenário, criou o portal www.nelsonrodrigues.com.br para abrigar fragmentos de textos e entrevistas sobre a trajetória de seu pai. A pesquisadora aponta que, neste trabalho, constatar que as ideias do autor, que escreveu 17 peças, além de contos, crônicas e romances, ao longo de sua vida, estão se perdendo, a incomodou bastante. Assim, o blog surgiu como forma de fazer com que o Nelson interagisse com os internautas.
Passar do ambiente virtual para o impresso foi a maneira encontrada de "costurar" os depoimentos que estavam dispersos, montando um todo coeso e compactado. Sonia faz questão de destacar que, apesar de o material da publicação ter sido selecionado e "alinhavado" por ela, o texto é puramente de Nelson Rodrigues. Suas intervenções, em negrito, são quase nulas. "Deixar que a palavra do meu pai sobressaísse sem interferência minha ou de quem quer que fosse e organizar as declarações para que ficasse Nelson Rodrigues autêntico, na veia, foi o mais difícil", afirmou Sônia, por e-mail, à Tribuna.
Assinando a introdução do livro, a jornalista, que se considera escriba de seu pai, ressalta a dificuldade de escolher os trechos que fariam parte da obra. "Às vezes, eu gostava de um parágrafo ou dois de um depoimento ou entrevista e depois encontrava o mesmo tema em outro lugar, com diferença de meses ou anos, com outros interlocutores, e precisava começar tudo de novo. Às vezes, o trecho recém-descoberto colocava o mesmo ponto de vista de forma mais clara e com mais humor, por exemplo. Ou o patético ficava mais óbvio. Eu substituía o fragmento e reordenava o contexto. Reordenar o contexto foi o que fiz mais vezes, como se Nelson Rodrigues não me permitisse deixar passar nada."
Ainda na criação do site e depois na organização de "Nelson Rodrigues por ele mesmo", a filha se comoveu com depoimentos que foram recortados, diferentemente, por interlocutores diversos. Sem saber o motivo, ela só se preocupou em ser fiel, colocando tudo o que um parágrafo inteiro permitia para que o leitor pudesse tirar suas próprias conclusões a respeito do teatrólogo considerado o mais imoral do Brasil. "Tive um prazer especial em separar frases, parágrafos, histórias que estavam ‘enterradas como um sapo de macumba’ dentro de entrevistas com perguntas ‘contra’ o personagem Nelson Rodrigues. Talvez uma tentativa de caracterizar o reacionarismo ou o que o entrevistador considerava o ridículo representado pelas ideias de seu entrevistado."
A vida como ela é
São 272 páginas que desnudam um Nelson que poucos conhecem. Em "Nelson Rodrigues por ele mesmo", o leitor vai ter a oportunidade de entender um pouco mais os mistérios que envolvem a trajetória pessoal e profissional do escritor pernambucano, famoso por suas profecias coerentes, irônicas e reveladoras. Nas linhas dedicadas à vida íntima, o que se vê é um Nelson amoroso e apegado à família. Da infância, as recordações são de um tempo simples e modesto."Pão e manteiga, isso pra mim era coisa oriental das Mil e uma noites". Da mãe, o que se percebe é que havia uma extrema veneração. "Eu achava minha mãe a pessoa mais linda do mundo. Eu a achava parecidíssima com qualquer imagem da Virgem Maria que eu visse." Sobre o pai, o sentimento era de orgulho. "Tinha uma admiração tremenda por meu pai, que por sua vez admirava meu irmão Milton. Meu pai, eu achava parecido com os escritores Alexandre Dumas, pai, e Honoré Balzac."
Para quem ainda tinha dúvidas se a vida imita a arte ou a arte imita a vida, o próprio Nelson responde. "Minha biografia está refletida na minha obra. Todo autor é autobiográfico e eu sou. O que acontece na minha obra são variações infinitas do que acontece na minha vida", disse o escritor que impregnou suas dramaturgias de vícios humanos como sexo e traição, além da presença constante da morte. O processo de criação de suas peças que revolucionaram o teatro brasileiro, como "Vestido de noiva" – escrita para ser encenada em três planos, algo inédito para o teatro – e "Álbum de família" – considerada pela censura como indecorosa por retratar o incesto, tema forte para a época -, também ganha espaço em seus depoimentos. "Os textos mostram a vida como ela é com exagero, exatamente para sacudir o público. Ele foi profético em tudo que dizia, fez tudo o que hoje se faz em cinema e teatro, com 40 anos de antecedência", finaliza Sonia, que também vai autografar o livro na cidade.
Incentivar o gosto pela literatura é o objetivo do programa "Juiz de Fora – Prosa & verso" desenvolvido pela Funalfa em parceria com grandes escritores brasileiros. Inaugurado com a vinda de Sonia Rodrigues à cidade, o projeto, gratuito e aberto ao público, pretende colocar autores nacionais em contato com o circuito artístico local. Dentro da comemoração dos cem anos de nascimento de Jorge Amado, celebrado no dia 10 de agosto, o próximo convidado é o jornalista e pesquisador Muniz Sodré. No dia 21 de agosto, às 19h, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, Sodré ministrará a palestra "Jorge Amado, religião e povo", focando as ideias de povo e religião na obra do autor baiano.
SONIA RODRIGUES
Palestra e lançamento de livro hoje, às 19h30
Centro Cultural Bernardo Mascarenhas
(Av. Getúlio Vargas 200)









