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Peça que não sai de cena


Por DE MARISA LOURES E MAURO MORAIS

07/07/2016 às 07h00- Atualizada 07/07/2016 às 09h39

selo 50 anos divulgação cor

PERSONAGENS

Diretor (interpretado por José Luiz Ribeiro) – Veterano na cena teatral local, com mais de meio século de carreira, tornou-se reconhecido como homem múltiplo, capaz de assinar textos, subir ao palco e dirigir, sempre com seu humor ácido e olhar atento para o presente.

Atriz-diretora (interpretada por Márcia Falabella) – Atriz mais antiga da companhia, dona de um temperamento afável, assumiu a função de coordenar as atividades da sede do grupo, colocando-se como um dos principais nomes para a continuidade do trabalho.

 

CENÁRIO

Casarão antigo na Rua Santo Antônio, prestes a completar um século de vida. Erguido em estilo eclético, foi projetado para servir como residência do filho do industrial Bernardo Mascarenhas, passou pelas mãos de um cafeicultor, até ser vendido para a UFJF, que instalou, ali, a Faculdade de Direito. Quando abriu suas portas para o Grupo Divulgação, em 1972, também recebeu outras entidades, como o Teatro de Comédia Independente, de Natálio Luz. A pedido do diretor da companhia, o antigo anfiteatro transformou-se numa sala de espetáculos, com palco italiano e lotação para 200 lugares. Repleta de salas, para aulas de iniciação ao teatro, reuniões e ensaios, a casa também comporta galerias com frequentes exposições de arte.

 

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TEMPO

1966-2016

Primeiro ato – A criação

(Sede da companhia. O diretor apresenta, quadro a quadro, os registros da exposição em cartaz “Divulgação 50”, que recorda, em fotografias de espetáculos, a trajetória do grupo. Ansiosa, a atriz e diretora da casa repassa os últimos detalhes da programação festiva que inclui a montagem “Cora, luar e cantar”. O musical, baseado na obra da escritora Cora Coralina e realizado por integrantes do Núcleo da Terceira Idade, ganha apresentação na noite desta quinta, às 20h, antes do lançamento do livro “Cancioneiro Divulgação”, de José Luiz Ribeiro. Na sexta, às 20h, universitários e ex-integrantes preparam, às 20h, “Cantoria do Divulgação”, seguido por lançamento do site do grupo. Já no sábado, além da exibição de “Anjos e desarranjos”, às 16h, e “Romeu e Julieta”, às 20h30, o grupo faz passeata pelo Calçadão, às 10h. Entre lembranças de antigos amigos que passaram pelo palco, ambos se emocionam por tudo o que viveram antes do terceiro sinal)

DIRETOR (Enquanto fala, ele organiza a mesa numa sistemática que lhe é peculiar) – “O primeiro passo do Divulgação foi estudo. Primeiro, eu e Malu. A gente tinha mania de ler poesia. Éramos grandes amigos. Depois decidimos selar esta parceria e nos casamos. A gente era estudante de jornalismo e precisava ter uma cultura geral, principalmente, no campo do teatro. Eu estava no primeiro período, foi por volta de 1965. Já tinha feito, em 1963, o teatro jovem, já escrevia, uma coisa meio maluca, muito inocente. Eu tinha 21 anos. A Faculdade de Filosofia, naquela época, tinha muitas semanas, do Folclore, da Idade Média, da Literatura Brasileira e fui convidado para escrever uma peça de bonecos, ‘Canção para um princesa’, sobre a história de Juiz de Fora. E começaram as encomendas. O nome Divulgação era porque nosso objetivo era divulgar poesia, dar voz aos poetas.”

ATRIZ-DIRETORA – “É uma trajetória que tem a ver com nossa história. Em algum momento, nos apoiamos muito na dramaturgia universal. Posteriormente, o Zé Luiz se aventurou na escrita, e deu certo. A dramaturgia do Zé ganha força a partir dos anos 1990. Nesse momento já temos um elenco mais rotativo, com pessoas com menos experiências e uma velocidade maior para produzir os espetáculos. Anteriormente, ficávamos ensaiando o ano inteiro para apresentar cinco vezes. Hoje fazemos uma produção mais rápida com temporadas maiores.”

DIRETOR – “Naquele momento inicial eu trabalhava no jornal “Diário Mercantil”, na Prefeitura e na UFJF. Jornada tripla de trabalho para poder sustentar a vida. Com a chegada do Paschoal Carlos Magno, começamos a ser divulgados.”

ATRIZ-DIRETORA – “O Divulgação acabou sendo um marco, porque se tornou uma referência para os que se identificavam e para os que desejavam criar outras experiências. O teatro é uma arte muito generosa.”

DIRETOR – “Nosso programa de ‘Bodas de sangue’, por exemplo, ficou mais artístico. Os cartazes anteriormente eram feitos na gráfica, traziam as letras prontas e acabou. As pessoas começaram a ver outra prática em Juiz de Fora.”

ATRIZ-DIRETORA (entre euforia e nostalgia) – “Quando entrei para o grupo, já tinha assistido a cinco espetáculos: ‘O rei da vela’, ‘Nem tudo está azul no país azul’, ‘Essa noite se improvisa’, ‘Girança’ e ‘Fausto’. Em 1984 e 1985, vim sem saber que havia esse negócio de entrar para o grupo. Fui fazer comunicação porque achava que, de todos os cursos, era o que mais se aproximava, para mim, do teatro. Ainda não conhecia o Zé Luiz, nem a Malu. No terceiro período, quando fizemos a disciplina de teoria da comunicação, com o Zé, ele falou que estava abrindo o curso do Divulgação. Eu e Meg (Marise Mendes) fomos fazer. Fomos ver qual é, já faz 30 anos que estou aqui.”

Segundo ato – O decorrer

(Enquanto o diretor, sentado à mesa, na copa do Forum, relata as alegrias e angústias de uma empreitada que lhe valeu a vida, a atriz-diretora diz, numa sala, sentada numa carteira escolar, de uma escolha que lhe foi determinante).

DIRETOR (aos risos) – “Todo dia a Malu pergunta: mas hoje tem teatro? Todo dia tem teatro. Isso acontece com a família da Marcinha também. As pessoas não entendem o que é essa maluquice. Hoje deitei 1h, acordei às 4h, e 7h30 já estava aqui.”

ATRIZ-DIRETORA – “O Zé Luiz e a Malu são definitivos em minha vida. São pessoas de uma grande generosidade intelectual que me ensinaram e estavam disponíveis. A gente não era amigo. Eles eram um mito, estavam lá em cima. Ao longo do tempo, à medida que eu aprendia mais, o professor foi se tornando colega de trabalho e hoje, um amigo, um pai. Vivo mais aqui no Divulgação do que em minha casa.”

DIRETOR (com os olhos encharcados) – “Ela fez o mesmo que eu. Quando escrevo um texto, sou jornalista, porque nunca escrevo um texto que não seja alguma coisa que está incomodando a sociedade. Quando estava na sala de aula, era ator. E quando estou no palco, sou professor.”

Terceiro ato – O amanhã

(Com o palco iluminado, com os integrantes do Núcleo da Terceira Idade sentados na plateia, diretor e atriz-diretora se encontram no palco para fotografias. Olham para tudo. Ouvem os muitos passos de adolescentes que chegavam para mais um dia de aula. Atentos, se afligem com o sonho que se tornou uma realidade muito mais grandiosa que a fantasia. 50 anos e os olhos ainda brilham. A foto precisa ser rápida. Há uma vida pela frente.)

ATRIZ-DIRETORA – “Porque chegaram a este ponto? O principal que fez com que chegássemos aqui é o fato de a companhia ter um líder, que não é um ditador, mas aquele que sabe para onde conduz o grupo. Se não fosse o Zé Luiz, não sei se o Divulgação teria chegado aos 50 anos. Ele tem esse sonho, essa neurose, essa paixão, que passa para a gente.”

DIRETOR – “A renovação fez o divulgação durar 50 anos, porque a gente tem que se reciclar a cada turma nova que vem. Tenho praticamente toda uma história para contar, mas eles têm uma vivência para mostrar.”

ATRIZ-DIRETORA (introspectiva) – “Em determinado momento, eu era apenas mais uma pessoa no grupo. Com o passar do tempo, comecei a ter uma carreira e comecei a perceber que o grupo também precisa de mim. Isso me fez ter a consciência de que não queria ter ido para fora. Tenho a mesma ideia do Zé: se todo mundo abandona sua aldeia, a aldeia não tem nada. A gente tem uma história. Se eu tiver a condição de continuar, obviamente, vou honrar a riqueza de trabalho que temos aqui.”

Cai o pano. Mas as cortinas não se fecham.