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Felipe Senra lança livro com músicas que influenciaram a cultura pop no século XX

“Leia no volume máximo: uma história da música pop do século XX em 20 canções” reúne canções de artistas como Beatles, Kraftwerk, Madonna, Ramones e Grandmaster Flash

Por Júlio Black

07/01/2021 às 07h00

Felipe Senra lança livro que analisa a história da cultura pop no século passado através do rock, blues, jazz, rap e outros estilos musicais (Foto: Divulgação)

Apaixonados por música, cinema, literatura, quadrinhos e cultura pop em geral têm o costume de elaborar as famosas listas de “melhores em alguma coisa”, basta lembrar do livro/filme/série “Alta fidelidade”. Algumas delas até viraram livros, com 1.001 álbuns ou músicas para ouvir antes de morrer. O jornalista Felipe Senra também tem sua lista, porém um pouco menor, cujo resultado é o livro “Leia no volume máximo: uma história da música pop do século XX em 20 canções”. O trabalho pode ser adquirido pelo link pag.ae/7WpdmAg4r ou diretamente com o escritor pelo e-mail [email protected] ou pelo seu perfil no Instagram.

A publicação independente, que saiu no fim do ano passado pela Jararaca Books, tem o desafio bem-sucedido de analisar a música pop do século passado através de duas dezenas de canções selecionadas pelo escritor nascido em Caratinga. A escolha, porém, não se dá apenas pela popularidade ou condição de clássico absoluto, mas também levando em consideração questões políticas, sociais e históricas das quais as músicas seriam mais representativas que outras até mais conhecidas do mesmo período.

“Leia no volume máximo” mostra que o blues, o jazz, a música eletrônica, a soul music e o rap/hip-hop, entre outros, são fundamentais para entender a cultura pop do século XX. Por isso, o livro analisa a importância de músicas lançadas por artistas tão diferentes, começando por Robert Johnson e chegando ao Nirvana, com Beatles, Kraftwerk, Madonna, Grandmaster Flash, Rolling Stones, Ramones, Elvis Presley e Bob Dylan e outros pavimentando o caminho.

Muito trabalho, mas também muita diversão

Felipe conta que o projeto nasceu no início de 2018 e levou mais de um ano e meio para ser concluído. “A ideia surgiu de uma necessidade de botar pra fora uma verborragia quase beatnik que estava presa na garganta, de me divertir enquanto escrevo”, explica. “Acho que consumo esse tipo de informação há tanto tempo que foi questão de consultar os próprios livros e filmes que tenho em casa. Comprei uma ou outra obra que faltava como referência, consultei alguns sites de gente que respeito (jornalistas, músicos, historiadores) e, quando percebi, o texto estava fluindo. Acabo abordando cultura pop em geral, História e política – especialmente devido ao momento estranho que estamos vivendo no Brasil”, pontua. “No fim das contas, o livro deixou de ser sobre a música do século XX e passou a ser meio que sobre o próprio século, utilizando as músicas como referência para contar essa história.”

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Presenças e ausências

Para definir as 20 canções do livro, Felipe se valeu, principalmente, de critérios históricos para a seleção, com as canções que representassem diversos outros assuntos relacionados ao período em que a música foi lançada. Como exemplo, ele cita “Street fighting man”, dos Rolling Stones, lançada em 1968. “O capítulo aborda acontecimentos de 1968 até meados de 1969, como a revolta de maio de 68 na França, a Guerra do Vietnã, o assassinato de (Martin) Luther King, a família Manson, a rebelião de Stonewall, os Panteras Negras, o AI-5, a Passeata dos Cem Mil, entre outros episódios que são mencionados. Mas sem perder o foco, que é a produção musical do período.”

Desta forma, segundo o autor, o livro acaba sendo sobre o próprio século e suas circunstâncias históricas. “Comecei pensando o século XX por meio de dez canções, mas vi que o projeto ficaria mais bem-acabado se eu dobrasse a aposta. Afinal, são quase cem anos de música para abordar de forma cronológica e coesa.”

Como toda lista apresentada a outras pessoas, sempre vai ter a eterna discordância do “faltou essa”. Quando questionado se não poderiam ter entrado (por exemplo) “God save the Queen” ou “Anarchy in the UK”, dos Sex Pistols, ou “The Queen is dead”, dos Smiths, Felipe Senra lembra que muita coisa acaba fazendo parte do livro de forma indireta. “A escolha das canções foi estratégica, não quer dizer que foram as melhores ou mais importantes, mas cobrem com eficiência o complexo panorama musical do período abordado no livro. (Sex Pistols e The Smiths) estão contempladas no capítulo em que falo sobre os Ramones e explico o movimento punk, seu contexto histórico, seus reflexos culturais, os produtos/movimentos/cenas que vieram em consequência.”

Beatles desde criancinha

O conhecimento enciclopédico do rapaz, que pode ser notado nas quase 400 páginas do livro, é fruto de uma ligação com a música – em especial o rock – que vem da infância, graças à influência paterna. “As bandas que ouvi primeiro, ainda no final dos anos 80 (sou de 1986), são as que amo até hoje: Beatles, Stones, (Led) Zeppelin. Na adolescência, descobri o punk rock e minha vida meio que mudou: as roupas, a postura com o mundo e com as pessoas, as ideias. Desse encontro com o punk vieram minhas primeiras bandas. Tive várias, nenhuma profissional e uma pior que a outra, até reconhecer minhas limitações, largar os instrumentos e encarar os boletos da vida real.”

Cadê a revolta?

Voltando ao livro, Felipe mostra na publicação sua admiração pelo elemento de transformação que as músicas tiveram no mundo. Atualmente, muito se fala sobre a falta da contestação, da crítica, até mesmo do clamor “pela revolução” – ponto que o jornalista e escritor observa com pessimismo. “É inacreditável como estamos vivendo um momento tão ruim, nefasto, tóxico, tão próximo do fascismo descarado, repleto de racismo, homofobia, misoginia, violência gratuita, ignorância, negacionismo científico, revisionismo histórico barato, um Macartismo anacrônico e patético e com uma pandemia mundial, uma grande crise econômica, desemprego, centenas de milhares de mortos no país. É o pior momento da História do Brasil desde a redemocratização. E ninguém faz música de protesto”, desabafa. “Ninguém transforma isso em arte, ninguém se manifesta por meio da música. Por muito menos do que isso, já foram produzidos discos incríveis e fundamentais para a cultura em outros períodos, inclusive quando não se podia dizer as coisas. Tirando uma voz aqui e outra ali, vejo quase todo mundo calado no meio musical desse país. Falta vontade de mudar as coisas, falta raiva. Se há esperança, via de regra, reside no underground.”



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