O belo impera

“Moro em Brasília há 14 anos, e a cidade é lotada de ipês, tanto que o jornal de lá, o ‘Correio Braziliense’, faz um concurso de ipês”, conta Maria Teresa Pereira Lima. “Tem um determinado ipê branco que fica em um lugar, e a cidade para para registrar seu esplendor. Eu não reparava neles. Achava bonito, mas não parava para olhar”, completa, explicando-me o que a fotografia lhe ofereceu. Através da lente, Tete Lima, como é conhecida, percebeu outro mundo. “Na medida em que lidava com a fotografia, começava a reparar nos detalhes”, completa, para logo detalhar o exato momento em que registrou gotas de água jogadas nos fieis que seguiam na corda do Círio de Nazaré, em Belém do Pará. A imagem integra a exposição “Passar do olhar”, sua primeira individual, que inaugura nesta quinta, às 19h, no Espaço Manufato.
Nascida no Rio de Janeiro, a fotógrafa mudou-se, com apenas um ano, para Juiz de Fora. Em 1992, regressou para sua cidade natal e, oito anos depois, foi para Brasília, onde permanece. Procuradora da Fazenda Nacional, Tete começou, há pouco menos de três anos, a registrar suas viagens – e são muitas, já que sua função exige deslocamentos por todo o Brasil – de maneira profissional. “Sempre gostei de fotografia. Agora tenho viajado exclusivamente para fotografar. Não tenho o hábito de andar com uma câmera, mas quando vejo algo legal, costumo fazer com o celular”, diz. O hobby foi ganhando forma e exigindo, a cada dia, uma postura mais comprometida.
Técnica precisa
Aos 55 anos, ela começou a fazer cursos para aprender a manusear uma câmera profissional, e, em seguida, muitas foram as oportunidades de se aprimorar na técnica. “Surgiu a oportunidade de fazer um curso de fotografia de natureza na Chapada dos Veadeiros, com um fotógrafo brasiliense que até então não conhecia. Fui na rua e comprei a câmera, a lente e viajei. Esse fotógrafo se revelou uma figura sensacional para mim. Ele, o João Paulo Barbosa, é, hoje, o curador da minha exposição”, pontua, referindo-se ao artista, historiador por formação, e aprendiz dos gigantes da fotografia no Brasil Walter Firmo e João Ripper. “É um jeito próprio de respirar visões, em que a luz toca a alma. Seu amor pela fotografia é incontestável nesta exposição – delicada e expressiva como ela – de surpreendentes paisagens humanas e naturais. São encontros raros, em que percebo a aceitação do outro em suas íntimas dimensões”, ressalta o curador, em texto de apresentação da mostra.
Tecnicamente exatas, com iluminação e colorido esplendorosos, as imagens que Tete expõe revelam o belo em sua essência. “Não gosto de fotografar a miséria humana, mas a fé, que meche comigo e me melhora como pessoa”, confirma. “Quando fiz um workshop com o Walter Firmo no Rio de Janeiro, comecei a enveredar pelos caminhos da fé. Com ele, fiz o Círio de Nazaré, fui à Ilha de Marajó, fotografei Iemanjá na Bahia, no Rio e também fiz a Festa do Divino, em Goiás. Tenho registrado festas religiosas e folclóricas”, afirma ela, que tem um grupo em Brasília que costuma ir a São Paulo e a outros destinos apenas para registrar cenas, situações, personagens e cenários. “Usamos muito o Facebook, que é nossa vitrine”, acrescenta a fotógrafa, que agora, além do meio virtual, encontrou o cubo branco.
Segundo Tete, seus trabalhos não abrem mão da edição, mas também não fazem dela um veículo para irrealidades. “Não tem muita intervenção. A edição obedece a uma questão interior minha. Poço colocar um pouco de contraste, clarear, mas mantendo a ideia original. Nenhuma foto minha tem uma intervenção que mudou a cena”, comenta. “Tem horas em que, por mais que tente, não consegue trazer o momento vivido”, diz, mostrando ter mesmo aprendido muito com a fotografia, principalmente a olhar o mundo e identificar os ipês brancos floridos.
PASSAR DO OLHAR
Fotografias de Tete Lima
Abertura hoje, às 19h. Visitação de terça a sábado, das 16h às 23h. Até 6 de dezembro
Espaço Manufato (Rua Morais e Castro 307 – Alto dos Passos)