‘Persigo em lugar incômodo’
Estranhos, deslocados do cotidiano, mas integrados à realidade. Os personagens criados por Paulo Scott, aliados a sua complexidade narrativa, fazem do autor uma das vozes mais singulares e comentadas da literatura contemporânea brasileira. Gaúcho radicado no Rio de Janeiro, Scott decidiu, há três anos, dedicar-se exclusivamente à carreira literária. Abandonou Porto Alegre – onde nasceu e cresceu -, o escritório de advocacia, o emprego de professor de direito tributário na PUC-RS e o casamento de 11 anos. O autor é o convidado deste sábado do projeto Ave, Palavra, promovido pela Livraria A Terceira Margem, e fala sobre sua trajetória e a cena atual, ao lado do poeta juiz-forano, professor universitário e vice-diretor da Faculdade de Letras da UFJF, Edimilson de Almeida Pereira, autor de, entre outras obras, Homeless (2010) – que será autografada no evento.
Escrever não é fácil. Persistir não é fácil, constata Scott. É complicado falar dos meus livros. Minhas intenções e pretensões podem não ser nem de perto o que se materializa nas narrativas, no resultado final. De qualquer forma, poderia dizer que persigo um lugar incômodo, único; acho que minha literatura é incômoda, revela o autor, em entrevista à Tribuna. Segundo a crítica especializada, o gaúcho é ousado em sua escrita e aborda com maestria temas pouco tratados na atualidade. Scott fez questão de escrever um grande romance. Com um nível brutal de acertos, cumpre o que promete, escreve a revista Aplauso.
Não estou preocupado em agradar esta ou aquela corrente estética, este ou aquele grupo – não é de graça que as críticas positivas que meus livros recebem da academia vêm sempre acompanhadas de um senão que acaba se localizando sempre nos riscos excessivos que corro. Não tomo isso como um fator de mérito e quero deixar bem claro que o que faço, faço porque entendo como o modo que me parece importante e significativo de fazer, avalia.
O escritor publicou quatro livros de poemas – Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros (2001), A timidez do monstro (2006), Senhor escuridão (2006), O monstro e o minotauro (2010) -, um livro de contos – Ainda orangotangos (2003), adaptado para o cinema por Gustavo Spolidoro, longa-metragem vencedor do 13º Festival de Cinema de Milão -, e um romance – Voláteis (2005). Em 2011, já estabelecido na capital fluminense e desfrutando da experiência de seus 45 anos, lançou Habitante irreal, finalista nos Prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti deste ano. A obra será autografada pelo autor durante o encontro na Galeria Pio X.
Contando com ambientação detalhada, Habitante irreal reconstitui a Porto Alegre do final dos anos 1980 e início dos 1990, período em que o Brasil buscava sua redemocratização em meio à imprevisível hiperinflação. A trama se desenrola em torno de personagens índios e sua relação com o ambiente urbano contemporâneo. Afastar a autocomplacência é sempre um bom começo, diz o autor, na tentativa de explicar como é possível equilibrar uma reconstrução histórica fiel ao drama de seus personagens, envoltos em viradas mirabolantes, que testam a todo tempo a verossimilhança.
Para o jornal Valor Econômico, a obra é um livro sujo, tanto na temática quanto na linguagem. Fala de assuntos pouco explorados na nossa literatura, dos índios, de seus descendentes, da situação calamitosa em que se encontram, à margem na sociedade. Aliás, literalmente à margem, vivem, como Maína, em acampamentos na beira da estrada. Buscam, como Donato, uma identidade esfacelada, completa. Escolhi a história e a contei da maneira que me pareceu correta. De modo geral, não sou 100% aceito pelos que se acomodaram a determinados cânones, a determinadas fórmulas. Acho isso bom. Meus livros sempre foram polêmicos, embora polêmicas não me interessem, acho que esse é um elemento (ou um rótulo, para ser sarcástico) nada desprezível, mas jamais será o moto de qualquer carreira sólida, assevera o autor.
Scott alimenta uma relação aberta em relação às novas tecnologias, com conteúdo presente em blogs e sites. Não sou preconceituoso. Vejo jovens de 20 anos cheios de preconceito – acho isso bem triste. Tem gente que vem cheia de fórmulas: para ser bom escritor tem que fazer isso e aquilo. Besteira, para ser escritor tem que escrever bem, simplifica. Infelizmente, sei que posso decepcionar alguém dizendo isso, não quero outra coisa além do que contar uma boa história – com personagens densos e que possam ficar por um bom tempo na cabeça do leitor. Acho que consegui isso com Maína e Donato.
Categórico, o autor também exclui fórmulas na busca por uma escrita singular. Antes de tudo, aprenda a ler. Para ser um escritor razoável, você tem que ser um leitor excepcional.
AVE, PALAVRA
Encontro com Paulo Scott e Edimilson de Almeida Pereira
Hoje, às 15h, na livraria A Terceira Margem
(Galeria Pio X loja 127)
3216-7320









