Persistência recompensada

Gabriel Godoy e Luciana Paes durante a gravação do curta, em 2014
Quando a Tribuna acompanhou a preparação para as gravações de “Aqueles cinco segundos”, há dois anos, o roteirista Tairone Vale disse que a história do curta surgiu em um boteco, que ele considerava “o campo mais fértil que existe”. Pois foi dessa conversa sem compromisso, em que se discutia a importância dos cinco segundos anteriores ao primeiro beijo, que surgiu o projeto que conquistou dois Kikitos, no último sábado, na 44ª edição do Festival de Cinema de Gramado, nas categorias diretor (Felipe Saleme) e atriz (Luciana Paes) em curta-metragem.
Os prêmios podem ser considerados a coroação de um projeto surgido há três anos e que foi realizado por meio da Lei Murilo Mendes, em que Tairone fazia sua estreia como roteirista de cinema e Felipe realizava apenas sua segunda experiência cinematográfica na direção – a primeira, “Entre parênteses”, uma parceria com Diego Zanotti, ainda não foi lançada. E este foi apenas o terceiro festival do qual o curta participou, sendo que os dois primeiros já garantiriam a moral de muita gente: os festivais de Tiradentes e Cannes. Para Felipe Saleme, o sentimento de ter um trabalho premiado é maravilhoso. “Primeiro que a curadoria foi bacana, teve uma programação legal com várias temáticas. Estar ali é perceber que você está fazendo algo certo, mesmo fora do eixo Rio-São Paulo”, aponta.
Quando perguntado sobre o que passou – e ainda passa – pela cabeça por ter recebido o prêmio de direção no festival, Felipe demonstra que ainda há muita coisa a processar. “Acho que a ficha não vai cair tão cedo… Mas a sensação de estar ali, com tantos filmes maravilhosos e você ser escolhido é ótimo. A gente sempre tem expectativa, mas não alimenta isso. Foi um susto enorme, porque eu estava feliz com o prêmio para a Luciana, demorei para perceber o que estava acontecendo. O Tairone que me deu um tapa e disse ‘vai lá!'” (risos). “É muito louco você receber esse prêmio, que é o maior do Brasil. A equipe acreditou no trabalho, é uma galera que queria muito fazer cinema. É um trabalho coletivo que foi para frente.”

Tairone Vale e Felipe Saleme comemoram os dois Kikitos no palco do festival
Apoio local
Responsável pelo texto que criou vida audiovisual pelas mãos do amigo Felipe, Tairone Vale também falou da emoção em ver o trabalho reconhecido. “Em primeiro lugar, isso mostra que tenho que acreditar mais em mim. E também mostra que sei escolher muito bem com quem trabalho, seja no teatro ou cinema. E mostra para Juiz de Fora que somos maior que imaginamos, a cidade passa por um momento especial artisticamente, principalmente os fazedores de cinema. Nós fomos a cidade que mais emplacou curtas no Festival de Tiradentes, então é preciso lutarmos pela nossa produção, pela Lei Murilo Mendes, que é um instrumento fantástico que precisa crescer e ser fortalecido, é uma ferramenta de produção que tem potencial de abrir muitas portas.”
Felipe também faz coro para a importância da Murilo Mendes para a existência de “Aqueles cinco segundos”. “Foi fundamental. Temos a sorte de ter uma lei como essa na nossa cidade, pois temos essa bandeira de poder produzir aqui e trazer pessoas de fora para trabalhar conosco. Pelo que escutei no festival, quase ninguém tem esse tipo de apoio na própria cidade, precisam procurar leis estaduais, federais. Metade do nosso êxito foi pelo fato de estarmos em casa, à vontade, com nossa equipe.”
Além do prêmio em mãos, a dupla já viu as possibilidades que podem surgir a partir de agora. “Fiz muitos contatos, tive propostas de outros trabalhos com equipes do Rio e São Paulo”, comemora Tairone. “As ramificações não são apenas para mim ou Felipe, vão para as pessoas da equipe também, é poder trabalhar com esse pessoal e levar gente daqui também, pois passam a ver Juiz de Fora como um polo produtor.” Felipe acrescenta, por sua vez, que ter iniciado a carreira de festivais por Tiradentes foi uma sorte imensa. “Tiradentes é uma vitrine, e depois fomos para Cannes. Isso ajuda muito a fazer contatos, surgiram convites pra outros festivais.”
“O prêmio de Gramado dá um carimbo de que esse é um trabalho sério de cinema, mesmo que a gente se divirta com ele”, aponta Felipe Saleme. “A resposta passa a ser diferente quando você apresenta algo novo, pois existe um respaldo. Já um festival internacional como o de Cannes dá um gás enorme para o filme, as pessoas veem que ele esteve lá fora e se interessam mais. Você percebe que muitas portas são abertas.”
O diretor aponta alguns fatores essenciais para o sucesso do filme. Um deles é o texto de Tairone, “feito para o ator, ele escreve para ser ouvido, e tivemos o esmero de trabalhar nisso”. Ele também elogiou o trabalho dos protagonistas, Gabriel Godoy e Luciana Paes, que já faziam a leitura do texto em chats pela internet e que já chegaram afiados a Juiz de Fora. “O que entendo, ao receber o prêmio de direção, é que foi reconhecido o trabalho de toda uma equipe, o diretor apenas faz a orquestração de todas essas pessoas.”
Curta de vida longa
Felipe Saleme lembra, porém, que foi difícil convencer o amigo a participar da aventura. “Ele perguntou se a gente terminava de filmar e colocava o curta debaixo do braço, mostrava apenas para a mãe e o pai. Depois de Gramado eu disse para o Tairone que agora ele sabe o que se faz com um longa” (risos).
Depois da surpresa mais que positiva de Gramado, Felipe diz que o filme já foi inscrito em alguns festivais, inclusive no local Primeiro Plano. “Será muito bom poder mostrar nosso trabalho em casa. A carreira do filme está começando agora, torcemos para que ele tenha vida longa”, diz o cineasta, Ele, Tairone e a produtora-executiva do curta, Ana Loureiro, já começaram a conversar sobre o próximo projeto. “Temos milhares de outras ideias, mas ainda estamos no início.”
Até lá, eles já têm uma missão imediata: entregar o Kikito de melhor atriz para Luciana Paes, que não pôde ir a Gramado devido a compromissos profissionais, assim como Gabriel Godoy. “Quando ficou sabendo do prêmio, foi uma empolgação danada. Vamos combinar de ir ao Rio para entregar o prêmio dela e comemorar, até porque queremos trabalhar com eles futuramente.”









