Jorge Amado recebe homenagens na cidade
"Quando você morre em um país sem memória, imediatamente eles te esquecem. Quando eu morrer, vou passar uns 20 anos esquecido." Foi com estas palavras, em entrevista em 1991, que Jorge Amado, tão conhecedor do povo brasileiro, demonstrou o quão pouco tinha ciência sobre sua importância como autor e ícone cultural da terra que tanto retratou. Mal sabia o escritor que, a despeito da declarada amnésia do Brasil, ele próprio e sua obra seriam imortalizados como referências literárias nacionais e internacionais.
A poucos dias do centenário do baiano, comemorado na próxima sexta, 10 de agosto, sua autoprofecia foi veementemente contrariada. Por todo o país, menções à data, a seu nome e suas criações marcam festejos e homenagens. Em Juiz de Fora, o doutor em letras e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Muniz Sodré, debate o tema "Jorge Amado, religião e povo" no próximo dia 21, às 19h, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas. O evento integra o projeto "Juiz de Fora – Prosa & verso", da Funalfa.
O escritor também é homenageado no projeto "Amar e ler Amado", que expõe obras como "Capitães de areia", "Tenda dos milagres", "Tieta do Agreste", "Dona Flor e seus dois maridos", entre outras, ao lado de textos e fotografias, na Biblioteca Municipal Murilo Mendes (BMMM) em cartaz durante todo o mês de agosto.
Surpreendendo quem associa a literatura do baiano a temáticas adultas, a BMMM organiza a mostra "O gato malhado e a andorinha Sinhá", em referência ao livro infantil homônimo, escrito por Jorge em 1948 para seu filho, João Jorge. "É uma forma de despertar o interesse das crianças e, possivelmente, transformá-las em leitores adultos de um autor tão essencial na nossa literatura", diz Margareth Marinho, uma das organizadoras da iniciativa.
Desprezado pela crítica
Ainda um tanto longe de completar 20 anos de morte -já que Amado se foi em 2001-, a lembrança do autor permanece como suas palavras: em constante pulsão de vida. Prova deste alcance atemporal é a atual exibição, na TV aberta, de uma adaptação da obra "Gabriela, cravo e canela" (1953), um dos romances mais consagrados do autor, já veiculado como novela em 1975, na versão que eternizou Sônia Braga como a sensual protagonista. Além disso, títulos como "Capitães de areia" (1937 ), "Terras do sem fim" (1943) e "Dona Flor e seus dois maridos" (1966), entre outras, integram a leitura exigida em editais de processos seletivos para diversas universidades de todo o país.
Para os estudiosos do legado do baiano, ainda é pouco. "Jorge Amado foi muito menosprezado pela crítica. Além de ter sido o maior escritor popular do país, sua obra se projeta no tempo. O resgate de seu trabalho tem sido gradativo, e, um dia, ele terá o valor que merece. Mas ainda estamos longe disso, pelo menos no Brasil", observa Gilvan Procópio, professor da Faculdade de Letras da UFJF, que fez uma comparação entre a literatura de Amado e a do angolano Boaventura Cardoso em sua tese de doutorado.
Segundo Gilvan, Amado é uma das grandes referências da literatura da África, mesmo nos países que não adotam a língua portuguesa. "Isso se deve, entre outros fatores, às referências à religiosidade de origem africana, sobretudo o candomblé. Esse traço de espiritualidade é muito marcante na identidade nacional que Jorge consegue construir, por meio de uma narrativa que promove identificação por conter aspectos não apenas claramente brasileiros, mas essencialmente populares."
O doutor em letras e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Muniz Sodré, também aponta a religião como elemento de unidade identitária na literatura amadiana. "É por meio dessa religiosidade dos orixás, dos negros oprimidos, que ele funda uma irmandade nacional, um povo que, por meio da fé, cria unidade até mesmo política, para se impor, para redimir as desigualdades sociais."
Prostitutas e vagabundos
Ainda em vida, Jorge Amado foi taxado por um crítico, certa vez, como um mero escritor de prostitutas e vagabundos. "Que bom que alguém entendeu, porque eu quero ser o escritor dos mais perseguidos", respondeu, satisfeito, na época. De fato, grandes personagens da obra do baiano vêm dos meretrícios, dos cais de porto e de redutos de boemia. Muniz Sodré destaca, entretanto, que estas caracterizações nada mais são do que uma síntese das facetas do povo e de seus comportamentos cotidianos. "No universo de Jorge, a população é uma união de contrários. A dona de bordel aparece como verdadeira mãe das meretrizes, que não têm vulgaridade, e sim malícia, insinuação. Predomina um espírito de conciliação, sem culpas, com figuras que nascem sem pecados para pagar, abertas para a alegria e a aceitação do mundo em sua totalidade."
Para o professor Gilvan Procópio, é exatamente com esta vivacidade que o autor pinta o retrato do Brasil. "Jorge descreve o brasileiro como ele próprio se enxerga: um povo que sofre, mas é feliz. Sua Bahia é uma síntese de Brasil, cheio de personagens e situações com que os leitores conseguem estabelecer identificação." Também docente da Faculdade de Letras da UFJF, Terezinha Scher aponta, entretanto, que a exuberância das descrições do autor tendem para uma folclorização da realidade. "A narrativa de Jorge é sempre exuberante, musical, acaba caminhando para uma mitificação da vida. Mas isso não diminui sua obra em termos de qualidade, até porque, por este recurso, também há identificação, já que a leitura é uma válvula de escape às dificuldades."
Reafirmando a universalidade da literatura do baiano, Gilvan defende a prioridade dada pelo autor ao cotidiano. "Sua obra narra situações tão corriqueiras e personagens tão comuns que, no dia a dia, podemos nos deparar com pessoas e acontecimentos e pensar: ‘Isso parece ter saído de um livro de Jorge Amado.’"
Local de encontro
Para celebrar o centenário do escritor, a Fundação Casa de Jorge Amado sediará diversos eventos e homenagens. A instituição ganhará novas cores, ao lado de outras casas situadas no Pelourinho, uma iniciativa da Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder).
Desde sua inauguração em 1986, a Casa de Jorge Amado guarda, preserva e disponibiliza cerca de 200 mil documentos relacionados à vida e à obra do autor, e busca manter viva sua memória através de atividades como eventos, ações formativas, cursos, exposições, publicações de livros e incentivos a novos autores. Segundo a diretora da entidade e poeta Myriam Fraga, o lugar tem sido mantido exatamente como o baiano sonhava: "Um local de encontro, de intercâmbio cultural entre a Bahia e outros lugares."
"A Bahia de Jorge Amado é criação de um romancista, mas sem deixar de ser também fruto de uma sensibilidade permanentemente antenada com a realidade que se projeta além do tempo e das circunstâncias", conclui Myriam.









