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Escritores transformam lendas da África em cordel

Arlene Holanda e Marco Haurélio lançam o livro “Uagadu – Uma odisseia africana”, que reúne contos do povo soninquê


Por Júlio Black

05/05/2021 às 07h00

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Livro reúne adaptação para o cordel de contos da região africana que era conhecida como Uagadu, onde hoje estão Gana e Nigéria (Foto: Divulgação)

Por mais de três séculos, o Brasil recebeu milhões de negros escravizados, de diversas etnias e oriundos de vários reinos da África. Apesar de toda a influência em nossa cultura, religiosidade e outros aspectos marcantes de nossa sociedade, os descendentes desses escravos pouco conhecem das histórias, lendas, costumes e tradições que ficaram do outro lado do Atlântico – ou foram absorvidas durante quase 500 anos. Pois parte desse lado quase desconhecido de nossos antepassados pode ser conhecido no livro “Uagadu – Uma odisseia africana”, dos cordelistas Arlene Holanda e Marco Haurélio, lançado no fim de abril pela Sesi-SP Editora.
O projeto, que aguardou mais de uma década até encontrar uma editora disposta a lançá-lo, adapta quatro contos africanos baseados em registros feitos no século XIX pelo arqueólogo e etnólogo alemão Leo Frobenius do povo soninquê, base do antigo Império de Gana. Os soninquês teriam vivido na região onde hoje se localizam Nigéria e Gana, com uma história que remonta, pelo menos, até o século IV. Antes das invasões de povos oriundo do Magrebe, chamavam sua região de Uagadu.
Arlene Holanda é formada em história, com especialização em história africana pela UFCE (Universidade Federal do Ceará), o que a fez entrar em contato com esse universo de tradições orais, da cultura e folclore africanos, tendo publicado outros três livros em cordel – alguns em parceira – antes de “Uagadu”: “A partilha de Olorum”, “Árvores da riqueza” e “Histórias pra boi pensar”.
“As histórias de tradição oral têm suas mensagens filosóficas, e a estrutura da narrativa pode mudar até os personagens, mas há um compartilhamento universal dessas histórias, que encantam, têm significância, em qualquer cultura e civilização”, destaca.
Tanto Arlene Holanda quanto Marco Haurélio participam de um grupo informal de cordelistas que trocam ideias, sugerem projetos e, por consequência, trabalham em parceria. No caso de Marco, esta foi sua primeira experiência na transposição de contos africanos para o cordel, que teve início após a colega compartilhar sua fascinação pelos textos que resgatavam a história de Uagadu.
“Por coincidência, eu tinha acabado de ler os textos do Leo Frobenius e estava pesquisando na internet para ampliar meus conhecidos. Eu já havia levado para o cordel textos ligados à cultura africana, mas não contos africanos. O que me interessou foi a riqueza dessas histórias e a confluência de civilizações”, justifica. “Cada um ficou com dois contos, sendo que os meus têm muito em comum com a tradição indo-europeia do matador de dragões, que vai do mito de Perseu até a lenda de São Jorge.”

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Histórias em comum de lugares e épocas distantes

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Arlene Holanda já lançou outros livros que fazem a transposição de contos africanos para o cordel (Foto: Divulgação)

Os quatro contos adaptados para o cordel (“A canção de Gassire”, “O tabele mágico”, “A grande serpente Bida” e “Samba Gana”), inclusive, possuem muitas semelhanças com odisseias e lendas que remontam a outros períodos _ anteriores ou posteriores _ e locais distantes, seja na própria África ou em continentes como o europeu. Tanto que, no texto de introdução do livro, os próprios autores traçam paralelos entre as odisseias gregas e as jornadas realizadas pelos heróis africanos dos contos.
“Na História, costumamos dizer que existem sentimentos e reações que são compartilhados por praticamente todo o ser humano, como a visão diante do amor, da morte, a superação. São comportamentos de longa duração que se transformam na maneira de pensar, mas não na essência”, pontua Arlene. “A tradição oral africana tem a singularidade da aproximação da narrativa da odisseia, e, ainda que costumem colocar a África num grande balaio comum, existem culturas muito diferentes. Por isso mesmo, é importante destacar essa tradição oral nas políticas afirmativas atuais, para que tenhamos uma afirmação de identidade com toda essa tradição.”
Marco Haurélio acrescenta que há “permutas culturais”, seja por influência das guerras, invasões, deslocamentos geográficos. “A história da serpente Bida, por exemplo, é de uma mulher oferecida como noiva para uma serpente ou dragão, que é muito parecida com a história de Perseu e Andrômeda, que veio da Etiópia, o que já encurta a distância (em relação à Grécia). Muitas das lendas gregas se passam na África, Hércules precisou se deslocar até a Mauritânia, que não é tão distante de Uagadu.”
Outro exemplo, de acordo com ele, se dá no conto que encerra o livro, “Samba Gana”. “A serpente Issa Beer é identificada com o rio Níger, e no mundo inteiro muitas civilizações identificam as serpentes com os rios por seus corpos sinuosos, como acontece com Boiuna no Brasil. A primeira forma do dragão, aliás, era aquática; o dragão com asas é posterior. A serpente do conto ‘Samba Gana’ permite que um ano seja fértil, quando o rio provoca enchentes, e no outro é de seca. Samba Gana deve, então, matar a serpente para normalizar o rio. Era a representação da ação humana para tentar mudar a situação.”

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Marco Haurélio aponta as semelhanças entre a tradição oral africana e lendas oriundas do continente europeu (Foto: Divulgação)

Contra os estereótipos

Ao trazer para um novo formato – e novas gerações – essas histórias ancestrais, Arlene lembra que um dos objetivos da publicação é desconstruir o que ela chama de “estereótipo africano”. Marco Haurélio lembra que, há poucas décadas, costumava-se associar nos desenhos animados a imagem das civilizações africanas “ao canibal com o osso na cabeça”. “Na antropologia, você ligava a imagem do selvagem com o cidadão europeu levando a civilização, e nós vimos o quanto podem ser ‘civilizados’ os belgas na região do Congo, na época do rei Leopoldo: um genocídio que pode ter sido maior que o genocídio nazista.”
“As pessoas esquecem que a África é o berço de toda a humanidade, com uma das civilizações mais antigas, a egípcia, que veio muito antes da civilização grega”, destaca Marco Haurélio. “O próprio conceito dos contos de fadas que conhecemos hoje veio da África, com outro nome, passando por muitas transformações. É um legado cultural enorme que temos da África.” Ele lembra, ainda, que as histórias de cavalaria, muito identificadas com o imaginário europeu, teriam influência de contos levados por africanos já islamizados que ocuparam o Sul da Europa. “Até o amor cortês, que se diz ser do espírito europeu, teria influência das canções berberes, dos beduínos, às vezes anteriores à islamização. Trouxemos para o cordel de ‘Uagadu’ essas ‘Áfricas’ que não são uma só, com histórias que se passam em tempos distintos.”

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