Revolução silenciosa

Foi por meio da terapia ocupacional que Nise da Silveira mudou o panorama do tratamento nas instituições psiquiátricas do país
Não é preciso ter tido um parente, amigo ou conhecido para saber que o tratamento psiquiátrico em hospitais brasileiros, até o final do século XX, era um universo desumano, em que os internos raramente conseguiam evoluir em suas condições – na maioria das vezes, os pacientes eram tratados em condições subumanas, em locais que mais pareciam masmorras medievais e tratamentos como eletrochoques e lobotomias eram o padrão. É a revolução ocorrida devido aos esforços inicialmente solitários de uma médica o tema de “Nise – O coração da loucura”, drama que chega com duas semanas de atraso a Juiz de Fora.
Dirigido por Roberto Belirner – mais conhecido por documentários como “A pessoa é para o que nasce” – e estrelado por Glória Pires, o longa conta aquele que talvez tenha sido o momento decisivo na trajetória da médica psiquiátrica alagoana Nise da Silveira (1904-1999), uma das responsáveis pela mudança no paradigma do tratamento psiquiátrico no país. O filme tem como ponto de partida o ano de 1994, quando Nise sai da prisão, após ter sido encarcerada durante a Intentona Comunista pela denúncia de uma enfermeira de que teria livros de cunho marxista. Ela volta a trabalhar no Centro Psiquiátrico Nacional Dom Pedro II, no subúrbio de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, mas discorda radicalmente dos métodos utilizados pelos seus colegas para o tratamento dos pacientes – que ela preferia chamar de clientes -, que incluíam eletrochoques e lobotomia.
Para evitar que Nise atrapalhe o andamento dos trabalhos, a direção da instituição a transfere para o então desprezado Setor de Terapia Ocupacional, que na época se resumia a colocar os internos para fazer a limpeza do Centro Psiquiátrico. O que teria desanimado muitos é visto como um desafio para a médica, que conta com o apoio de dois funcionários para organizar o local e então dar início a seu trabalho de terapia. Ela dá início a ateliês de pintura e modelagem, entre outros, que futuramente ajudariam na criação do Museu de Imagens do Inconsciente. O longa mostra a evolução da terapia ocupacional – que anos depois se tornaria referência na área – com seus pacientes, interpretados por atores como Fabricio Boliveira e Roney Vilella, e o apoio recebido por outros funcionários da instituição e até mesmo e artistas plásticos.
Mais do que uma obra cinematográfica, “Nise – O coração da loucura” serve como registro complementar a tantos registros impressos e audiovisuais existentes atualmente sobre o terror que permeava as relações entre médicos e pacientes nas instituições psiquiátricas, que felizmente deixaram de ser regra em nosso país.
NISE – O CORAÇÃO DA LOUCURA
Cinemais 3: 15h10, 19h 21h20
Classificação: 12 anos









